O Dia Internacional da Tolerância (16 de novembro) e o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher (25 de novembro) serviram de tema para a última edição do Conversation Club de 2021.
Traduzindo, é o clube de conversação em inglês do Sesc Cultura, que encerrou as atividades da temporada ontem com um derradeiro encontro presencial.
A atividade é gratuita para qualquer pessoa com idade a partir de 15 anos e tem por objetivo proporcionar aos interessados a oportunidade de imersão, por meio de um bate-papo, no idioma de William Shakespeare (1564-1616), o inglês que escreveu clássicos universais do teatro, a exemplo de “Romeu e Julieta”.
O “to be or not to be?” (“ser ou não ser?” em inglês) do título da reportagem, um dos diálogos teatrais mais conhecidos em todo o planeta, saiu da boca de Hamlet, o príncipe dinamarquês que dá nome a outra peça muito famosa do dramaturgo.
Em cena, após sucessivas traições, o personagem reitera sua dúvida existencial emendando a fala com um arremate também bastante conhecido, que é proferido logo após a pergunta: “eis a questão”.
No projeto, encampado pelo Sesc desde 2014, mais do que ser ou não ser qualquer coisa, a questão fundamental é não dar um pio em qualquer outro idioma.
Durante as sessões do Conversation Club, que sempre são realizadas na última terça-feira de cada mês, a única regra consiste em falar exclusivamente em inglês.
Temas e causos
O encontro desta semana foi o décimo da temporada e apenas o segundo que ocorreu de modo presencial. Antes, somente o primeiro, no mês de fevereiro, aconteceu de corpo presente.
Jazz, qualidade de vida, amor livre, o papel da arte e cultura geek estão entre os temas discutidos ao longo do ano, que não deixam de contemplar interesses ianques mais diretos, a exemplo da independência dos EUA, que serviu de mote para a conversa do mês julho, ou da “black history” (história negra), tema de fevereiro.
Mas o tema anunciado muitas vezes serve só de pretexto para a prosa correr solta.
É o que garante quem participa dos bate-papos, que, desde o início do projeto, em 2014, foram se tornando um espaço curioso e muito cativante de sociabilidade entre os speakers (falantes).
O Conversation Club começou a funcionar no Sesc Horto e, em 2017, transferiu-se para o Sesc Cultura. De conversa em conversa, o clube já foi testemunha de desenlaces amorosos e cartão de visitas para oportunidades profissionais que acabaram se concretizando.
“Certa vez, em uma das sessões, conheci um senhor muito simpático e engraçado. Ele devia ter por volta de seus 70 anos e era a pessoa que animava o clube, sempre muito piadista e brincalhão.
Anos depois, ambos afastados temporariamente do clube, nos reencontramos na escola onde sou coordenador e o contratei como professor de conversação”, lembra Raphael Oliveira, de 27 anos, que aprendeu o idioma inglês aos 18 anos, em escolas especializadas de Campo Grande, e depois buscou aperfeiçoamento com um intercâmbio na Inglaterra.
Acabou se tornando teacher, quer dizer, professor da língua.
Sem pressão
“O ambiente é completamente aconchegante e amigável para que possamos ter uma conversa natural, como se estivéssemos reunidos na casa de alguém”, diz Oliveira, para quem o inglês é um misto de obrigação e prazer.
“Como professor, passo a maior parte do meu tempo falando inglês, porém sou obrigado a limitar meu vocabulário e as construções gramaticais para falar de uma forma acessível e compreensível a alunos dos mais variados níveis."
"No Conversation Club, posso falar de forma fluida e natural, garantindo assim uma prática mais efetiva do uso do idioma”.
O professor conta que os membros não vão lá esperando ser corrigidos quando erram, ou aprender vocabulário novo.
“O propósito é pura e simplesmente sentar e conversar, debater questões importantes para a sociedade, ou mesmo compartilhar suas opiniões e visão de mundo”, descreve Oliveira.
“As pessoas vêm focadas em praticar sem ter um julgamento de certo ou errado. Como não é sala de aula, não tem cobrança e eles perdem a vergonha.
No fundo, acaba sendo uma vivência humanizada. Existe o tema âncora para a gente trabalhar, mas sempre trago uma leveza”, afirma Nádia Salles, de 35 anos, assessora técnica de edução do Sesc e responsável pelo projeto. A fluência no inglês veio aos 16 anos, quando fez intercâmbio no estado de Michigan (EUA).
Bagunça
Nádia gosta de se referir a cada encontro dizendo que “it’s not a class, it’s a mess” – “não é uma aula, é uma bagunça” – e estima um público que varia de 10 a 15 pessoas que “não querem deixar morrer o inglês que conquistaram”.
Apesar de tanta descontração, Raphael Oliveira diz que já utilizou as conversas do Sesc como ferramenta de apoio pedagógico para a sua atividade docente.
“Em algumas ocasiões, cheguei a levar meus alunos da escola para o clube junto comigo, para podermos praticar sem aquela atmosfera de sala de aula. Eles amaram e sempre pediam para repetir”, afirma Oliveira, que frequenta o CC há quatro anos.
“Não precisa ficar focado no tema. Vira uma família, similar a uma festa, um bar ou um happy hour”, garante Nádia.
E quem participa, diz a assessora do Sesc, acaba usufruindo das outras coisas do American Corner, como um acervo de livros em inglês e uma espécie de banco de referência com dicas e informações para os interessados em estudar fora do País.
American Corner é o nome da parceria entre o Sesc e o Consulado dos EUA em São Paulo, que viabiliza o projeto.
Para a coordenadora do Conversation Club, depois de atender à regra número um, falar somente em inglês, os membros do clube devem apenas relaxar.
“A dica é entender que os erros podem acontecer e está tudo bem, assim como falamos errado quando aprendemos nossa língua materna quando pequenos”, aconselha Nádia, que mantém o grupo mobilizado por meio de uma lista de WhatsApp.
Fantástico
“Acho o CC fantástico, pois dá a oportunidade de qualquer participante que tenha um pouco de fluência se engajar em um grupo super-receptivo."
"Fora que sempre me divirto muito nas reuniões, pois os tópicos são bastante interessantes”, afirma a bióloga Ana Letícia Simal Dourado, de 31 anos, frequentadora desde 2019, que se planejou para não perder o último encontro deste ano mesmo com a agenda apertada.
“Para mim, falar inglês é um prazer, contudo, considero também extremamente importante”, avalia Letícia.
“No meu caso, eu busco seguir uma carreira acadêmica, e os maiores meios de divulgação de ciência são, em sua maioria, em inglês. Fora que saber se comunicar em inglês faz você atingir uma audiência muito mais ampla para comunicação científica, como também para amizades e networking”, completa.
Está feito. Se você tiver um pouco de fluência na língua de Shakespeare, arranje um tempinho e dê uma conferida, pois os encontros continuam em 2022.
Confira com os próprios olhos e ouvidos se o Conversation Club de fato é bom. Quer dizer, se o CC “it’s really good”.




