Se você já completou cinco décadas sendo você mesmo, que tal incorporar outros personagens? A chegada dos 50 anos pode ser um bom momento para entrar em cena e, quem sabe, trilhar uma carreira profissional inesperada, como ator ou atriz, ou um novo caminho pessoal com outras possibilidades até então não consideradas.
Pelo menos é assim que parece pensar a encenadora Ligia Prieto ao falar sobre a oficina de teatro para pessoas com mais de 50 anos que o Grupo Casa, que completa uma década em março, oferece a partir de hoje.
“Nunca é tarde para dar o primeiro passo. A ideia de abrir essa turma é que a gente consiga olhar um pouco mais para as pessoas dessa idade, para que elas se potencializem mesmo, se enxerguem potentes criadoras e criadores. Para que a gente consiga sustentar uma nova história também”, defende Ligia, atriz, diretora e uma das “donas” do Casa.
Ela é também uma das responsáveis pelas aulas da turma Vivências II, dedicada aos chamados 50+ pelas nomenclaturas atuais.
Os encontros seguem até dezembro, sempre às quintas-feiras, das 19h às 21h, na sede do grupo teatral, localizada na Rua Visconde de Taunay, nº 306, no Bairro Amambaí. A mensalidade custa
R$ 160, com matrícula por R$ 60, e ainda restam algumas vagas, disponíveis para um total de 20 participantes. Mais informações: (67) 98156-0864 ou pelo Instagram @teatrogrupocasa.
“É um dos nossos objetivos também formar artistas. Que essas pessoas consigam olhar para elas mesmas, perceberem a própria criação, se perceberem enquanto artistas e irem para a cena e fazer outros trabalhos. A Fânia [Martins], por exemplo, e a Ana [Lucia Serrou] começaram como alunas e já fizeram outras coisas”, diz Ligia, mencionando duas das mais destacadas alunas que ingressaram no mundo dos palcos quando já eram cinquentonas.
“A Ana tem várias dramaturgias já escritas. Agora está começando como professora também nessa turma. Ela já foi para a cena muitas vezes e agora cada vez mais. Ela está em um filme que aprovamos pela LPG [Lei Paulo Gustavo]. Ela é a nossa Eleonora. E a Fânia fez o nosso curta-metragem ‘Na Sombra da Chuva’, que está em fase de finalização”, conta a multitarefas da cena Ligia Prieto, de 36 anos.
FALA E ENFRENTAMENTO
Atriz e artista visual, Ana Lucia Serrou está no Grupo Casa há cinco anos, e desde então vem escrevendo dramaturgias e “enfrentando” a cena com o foco de sua pesquisa no etarismo e na liberdade de mulheres com mais de 50 anos.
“Percebi no teatro a possibilidade de fala, de tocar em feridas que não são faladas, e a terceira idade é uma delas”, afirma Ana Lucia. Outros mestres tomarão parte na experiência de formação dos neófitos cinquentenários.
“Tem um profissional que está coordenando cada turma, mas há uma composição de vários profissionais para ministrarem essas aulas, sabe? Todas as turmas vão ter mais de cinco professores, que vão estar conduzindo essas aulas, esses encontros. Acho que esse é o diferencial do ensinamento aqui”, diz Ligia.
“Embora tenhamos uma única pedagogia, da escuta, do afeto e do enfrentamento, de ir logo para a cena, de tentar compor logo suas trajetórias, de se encontrar no palco para conseguir entender o que precisa e o que te falta e, assim, a técnica caminhar com a prática, o nosso ponto forte é a gente mesclar vários olhares artísticos para conduzir as turmas e esse processo de partilha e de criação”, afirma.
Não há nenhum pré-requisito ou seleção para ingressar na Vivências II, que acolhe homens, mulheres e pessoas de qualquer orientação de gênero.
“É uma turma para todo mundo que tiver interesse mesmo de fazer. Já que a gente parte de um princípio também de partilha e de uma escuta de si, para que esses corpos e essas ‘corpas’ existam em cena, é muito legal, inclusive, que a gente tenha todas as pessoas aqui dentro. Inclusive, por conta disso também é que a nossa mensalidade está mais em conta”, argumenta Ligia.
“Isso foi uma coisa que a gente pensou mesmo para que conseguíssemos receber e agregar um número maior de pessoas”, completa.
As mensalidades do Casa costumam ser de, no mínimo, R$ 200, informa Ligia. “E a gente também tem uma política de bolsas, que vamos começar a divulgar. Mas aí é para um grupo específico de pessoas”, anuncia.
METODOLOGIA
A oficina terá três processos do que o pessoal do Casa chama de enfrentamento cênico: a leitura dramatizada, o texto em cena e uma montagem mais completa na etapa final.
“A leitura é leitura mesmo, com o elenco segurando o texto em mãos, e vai acontecer em março. A gente vai percorrer várias dramaturgias clássicas e contemporâneas e selecionar uma para fazer essa leitura aberta ao público, diz Ligia.
“O texto em cena é um processo já como uma pílula de um teatro mais completo, em que eles vão se dividir em duplas ou trios e aí vão escolher uma cena curta para levantar já inteiramente para a plateia, com cenário, figurino, interpretação. Uma cena curta completa”, detalha.
“E, no segundo semestre, a gente faz a montagem. A gente pode selecionar tanto uma dramaturgia que a gente já percorreu ao longo do ano como uma dramaturgia nova ou uma dramaturgia autoral, inclusive, que coletivamente iremos compor”, completa.
PROFISSÃO E VIDA
Ligia defende que os enfrentamentos fazem com que a pessoa consiga se escutar, entender seus limites técnicos e trabalhar elementos como a voz, o corpo, a consciência e o processo de criação.
“A gente acaba trabalhando todos esses pontos a partir dos jogos e dos exercícios cênicos. O teatro vai proporcionar um jogo de relação que vai fazer com que a gente consiga desenvolver muito mais a nossa comunicação, a nossa sensibilidade, a nossa troca, a nossa partilha, os nossos limites. Onde terminam os nossos limites e começam os limites do outro. Não tem como você trabalhar o teatro e não ser também um ser humano mais interessante, mais completo”, frisa Ligia.
“Porque é uma arte que vai trabalhar o teu corpo inteiro, a tua forma de pensar, a tua forma de se relacionar. Tenho visto muitas pessoas procurando atores e atrizes mais velhos no mercado para compor um filme, fazer um espetáculo ou alguma obra, e não temos esse elenco. Por termos pouquíssimos lugares de formação cênica aqui em Campo Grande e em Mato Grosso do Sul, a gente acaba não tendo um time de elenco funcional para que tudo isso consiga fluir”, observa a atriz e diretora.
“É uma porta aberta também para que a gente conheça novos artistas e possa fazer esse movimento dentro do mercado de trabalho e fazer com que as pessoas consigam entender que isso é uma profissão, inclusive para pessoas com mais de 50 anos”, diz Ligia Prieto, que reforça a importância do teatro enquanto lugar de representatividade, de existência e de empoderamento, portanto muito necessário para o que vê como uma luta contra o etarismo.
“No Brasil, envelhecer é uma ofensa. É o país que mais faz cirurgias plásticas no mundo, uma sociedade que oprime a partir de um mito falso da beleza e da juventude. As pessoas com mais de 50 anos enfrentam os reflexos imensos que esse preconceito acarreta, desde as perdas no mercado de trabalho até a valorização de si enquanto cidadão livre e de direitos. O teatro convida as pessoas a olharem para si mesmo, para sua própria história, e encaminha esse olhar para o fortalecimento de si a partir do coletivo e do encontro com o outro”.
OUTRAS TURMAS
Confira outras turmas das oficinas de teatro oferecidas pelo Grupo Casa, todas com início nesta semana. Aos sábados, com início em 20/1: Passarinho, para crianças de 3 a 6 anos, das 9h às 10h; Borboleta, 7 a 11 anos, das 14h às 15h30min; e Desafio, 12 a 18 anos, das 16h às 18h. E a turma Vivências I, que iniciou dia 16, para pessoas com idade de 19 a 49 anos, das 19h às 21h.


Foto: Reprodução
Mônica, Marcela e Eduardo Riedel - Foto: Arquivo Pessoal
Dra Juliana Lusvarghi - Foto: Arquivo Pessoal



