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teatro

O Grupo Casa começa hoje a inédita oficina teatral para pessoas com mais de 50 anos

"Que consigam se perceber enquanto artistas, não tem atores e atrizes mais velhos no mercado", afirma a diretora Ligia Prieto

A artista visual Ana Lucia Serrou, de 64 anos, atriz e professora do Grupo Casa, que começou no teatro depois dos 50: "Percebi  no teatro a possibilidade de fala, de tocar em feridas que não são faladas, e a terceira idade é uma delas"

A artista visual Ana Lucia Serrou, de 64 anos, atriz e professora do Grupo Casa, que começou no teatro depois dos 50: "Percebi no teatro a possibilidade de fala, de tocar em feridas que não são faladas, e a terceira idade é uma delas" - Foto: Fernanda Averaldo

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Se você já completou cinco décadas sendo você mesmo, que tal incorporar outros personagens? A chegada dos 50 anos pode ser um bom momento para entrar em cena e, quem sabe, trilhar uma carreira profissional inesperada, como ator ou atriz, ou um novo caminho pessoal com outras possibilidades até então não consideradas. 

Pelo menos é assim que parece pensar a encenadora Ligia Prieto ao falar sobre a oficina de teatro para pessoas com mais de 50 anos que o Grupo Casa, que completa uma década em março, oferece a partir de hoje.

“Nunca é tarde para dar o primeiro passo. A ideia de abrir essa turma é que a gente consiga olhar um pouco mais para as pessoas dessa idade, para que elas se potencializem mesmo, se enxerguem potentes criadoras e criadores. Para que a gente consiga sustentar uma nova história também”, defende Ligia, atriz, diretora e uma das “donas” do Casa. 

Ela é também uma das responsáveis pelas aulas da turma Vivências II, dedicada aos chamados 50+ pelas nomenclaturas atuais.

Os encontros seguem até dezembro, sempre às quintas-feiras, das 19h às 21h, na sede do grupo teatral, localizada na Rua Visconde de Taunay, nº 306, no Bairro Amambaí. A mensalidade custa 
R$ 160, com matrícula por R$ 60, e ainda restam algumas vagas, disponíveis para um total de 20 participantes. Mais informações: (67) 98156-0864 ou pelo Instagram @teatrogrupocasa.

“É um dos nossos objetivos também formar artistas. Que essas pessoas consigam olhar para elas mesmas, perceberem a própria criação, se perceberem enquanto artistas e irem para a cena e fazer outros trabalhos. A Fânia [Martins], por exemplo, e a Ana [Lucia Serrou] começaram como alunas e já fizeram outras coisas”, diz Ligia, mencionando duas das mais destacadas alunas que ingressaram no mundo dos palcos quando já eram cinquentonas.

“A Ana tem várias dramaturgias já escritas. Agora está começando como professora também nessa turma. Ela já foi para a cena muitas vezes e agora cada vez mais. Ela está em um filme que aprovamos pela LPG [Lei Paulo Gustavo]. Ela é a nossa Eleonora. E a Fânia fez o nosso curta-metragem ‘Na Sombra da Chuva’, que está em fase de finalização”, conta a multitarefas da cena Ligia Prieto, de 36 anos.

FALA E ENFRENTAMENTO

Atriz e artista visual, Ana Lucia Serrou está no Grupo Casa há cinco anos, e desde então vem escrevendo dramaturgias e “enfrentando” a cena com o foco de sua pesquisa no etarismo e na liberdade de mulheres com mais de 50 anos. 

“Percebi no teatro a possibilidade de fala, de tocar em feridas que não são faladas, e a terceira idade é uma delas”, afirma Ana Lucia. Outros mestres tomarão parte na experiência de formação dos neófitos cinquentenários. 

“Tem um profissional que está coordenando cada turma, mas há uma composição de vários profissionais para ministrarem essas aulas, sabe? Todas as turmas vão ter mais de cinco professores, que vão estar conduzindo essas aulas, esses encontros. Acho que esse é o diferencial do ensinamento aqui”, diz Ligia.

“Embora tenhamos uma única pedagogia, da escuta, do afeto e do enfrentamento, de ir logo para a cena, de tentar compor logo suas trajetórias, de se encontrar no palco para conseguir entender o que precisa e o que te falta e, assim, a técnica caminhar com a prática, o nosso ponto forte é a gente mesclar vários olhares artísticos para conduzir as turmas e esse processo de partilha e de criação”, afirma.

Não há nenhum pré-requisito ou seleção para ingressar na Vivências II, que acolhe homens, mulheres e pessoas de qualquer orientação de gênero.

“É uma turma para todo mundo que tiver interesse mesmo de fazer. Já que a gente parte de um princípio também de partilha e de uma escuta de si, para que esses corpos e essas ‘corpas’ existam em cena, é muito legal, inclusive, que a gente tenha todas as pessoas aqui dentro. Inclusive, por conta disso também é que a nossa mensalidade está mais em conta”, argumenta Ligia.

“Isso foi uma coisa que a gente pensou mesmo para que conseguíssemos receber e agregar um número maior de pessoas”, completa.

As mensalidades do Casa costumam ser de, no mínimo, R$ 200, informa Ligia. “E a gente também tem uma política de bolsas, que vamos começar a divulgar. Mas aí é para um grupo específico de pessoas”, anuncia.

METODOLOGIA

A oficina terá três processos do que o pessoal do Casa chama de enfrentamento cênico: a leitura dramatizada, o texto em cena e uma montagem mais completa na etapa final.

“A leitura é leitura mesmo, com o elenco segurando o texto em mãos, e vai acontecer em março. A gente vai percorrer várias dramaturgias clássicas e contemporâneas e selecionar uma para fazer essa leitura aberta ao público, diz Ligia.

“O texto em cena é um processo já como uma pílula de um teatro mais completo, em que eles vão se dividir em duplas ou trios e aí vão escolher uma cena curta para levantar já inteiramente para a plateia, com cenário, figurino, interpretação. Uma cena curta completa”, detalha. 

“E, no segundo semestre, a gente faz a montagem. A gente pode selecionar tanto uma dramaturgia que a gente já percorreu ao longo do ano como uma dramaturgia nova ou uma dramaturgia autoral, inclusive, que coletivamente iremos compor”, completa.

PROFISSÃO E VIDA

Ligia defende que os enfrentamentos fazem com que a pessoa consiga se escutar, entender seus limites técnicos e trabalhar elementos como a voz, o corpo, a consciência e o processo de criação.

“A gente acaba trabalhando todos esses pontos a partir dos jogos e dos exercícios cênicos. O teatro vai proporcionar um jogo de relação que vai fazer com que a gente consiga desenvolver muito mais a nossa comunicação, a nossa sensibilidade, a nossa troca, a nossa partilha, os nossos limites. Onde terminam os nossos limites e começam os limites do outro. Não tem como você trabalhar o teatro e não ser também um ser humano mais interessante, mais completo”, frisa Ligia.

“Porque é uma arte que vai trabalhar o teu corpo inteiro, a tua forma de pensar, a tua forma de se relacionar. Tenho visto muitas pessoas procurando atores e atrizes mais velhos no mercado para compor um filme, fazer um espetáculo ou alguma obra, e não temos esse elenco. Por termos pouquíssimos lugares de formação cênica aqui em Campo Grande e em Mato Grosso do Sul, a gente acaba não tendo um time de elenco funcional para que tudo isso consiga fluir”, observa a atriz e diretora.

“É uma porta aberta também para que a gente conheça novos artistas e possa fazer esse movimento dentro do mercado de trabalho e fazer com que as pessoas consigam entender que isso é uma profissão, inclusive para pessoas com mais de 50 anos”, diz Ligia Prieto, que reforça a importância do teatro enquanto lugar de representatividade, de existência e de empoderamento, portanto muito necessário para o que vê como uma luta contra o etarismo.

“No Brasil, envelhecer é uma ofensa. É o país que mais faz cirurgias plásticas no mundo, uma sociedade que oprime a partir de um mito falso da beleza e da juventude. As pessoas com mais de 50 anos enfrentam os reflexos imensos que esse preconceito acarreta, desde as perdas no mercado de trabalho até a valorização de si enquanto cidadão livre e de direitos. O teatro convida as pessoas a olharem para si mesmo, para sua própria história, e encaminha esse olhar para o fortalecimento de si a partir do coletivo e do encontro com o outro”.

OUTRAS TURMAS

Confira outras turmas das oficinas de teatro oferecidas pelo Grupo Casa, todas com início nesta semana. Aos sábados, com início em 20/1: Passarinho, para crianças de 3 a 6 anos, das 9h às 10h; Borboleta, 7 a 11 anos, das 14h às 15h30min; e Desafio, 12 a 18 anos, das 16h às 18h. E a turma Vivências I, que iniciou dia 16, para pessoas com idade de 19 a 49 anos, das 19h às 21h.

Diálogo

Petista que posa de vestal da moral e dos bons costumes vem colecionando... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta terça-feira (15)

15/09/2026 00h02

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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Margaret Thatcher - Política britânica

"Estar no poder é como ser uma dama. Se tiver que lembrar às pessoas quem você é, você não é”.

FELPUDA 

Petista que posa de vestal da moral e dos bons costumes vem colecionando revés na Justiça Eleitoral. Em vez  de apresentar propostas e mostrar ao eleitor o que pretende fazer na Câmara Federal, caso seja eleito, prefere se perder em intrigas e tentativas de desestabilizar adversários, segundo político que conhece bem os bastidores. A estratégia, pelo visto, tem sido mais de conversa do que de conteúdo. Detalhe: o dito-cujo, a cada eleição, tenta conquistar um mandato, mas nunca consegue. Como se vê, discurso inflamado nem sempre é suficiente para convencer o eleitor.

DiálogoFoto: Reprodução

Disponível gratuitamente para toda a população, a AEDO – Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos – feita em cartório pode ser consultada, via CPF do falecido, pelos responsáveis do Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde, diretamente na Central Nacional de Doadores de Órgãos. A iniciativa, que busca ajudar as pessoas que atualmente aguardam na fila por transplante de órgão, pode ser solicitada digitalmente em qualquer um dos Cartórios de Notas do Brasil. O interessado preenche um formulário diretamente no site www.aedo.org.br, que é recepcionado pelo cartório selecionado. Em seguida, o tabelião agenda uma sessão de videoconferência para identificar o interessado e coletar a sua manifestação de vontade. Por fim, o cidadão e o notário assinam digitalmente a AEDO, que fica disponível para consulta do Sistema Nacional de Transplantes. É possível ainda escolher qual órgão deseja doar –medula, intestino, rim, pulmão, fígado, córnea, coração ou todos. No Brasil, a maioria das pessoas na fila única nacional de transplantes aguarda a doação de um rim, seguido por fígado, coração, pulmão e pâncreas, Pela legislação vigente, quem autoriza a doação em caso de morte encefálica é a família, que precisava estar ciente da intenção da pessoa em doar seus órgãos e/ou tecidos. Com a AEDO esta manifestação de vontade fica registrada dentro de uma base de dados acessada pelos profissionais da Saúde, que terão em mãos a comprovação do desejo do falecido para apresentar à família no momento do óbito. A plataforma está acessível 24 horas por dia, 7 dias por semana, de qualquer dispositivo com acesso à internet.

Diálogo Mônica, Marcela e Eduardo Riedel - Foto: Arquivo Pessoal

 

Diálogo Dra Juliana Lusvarghi - Foto: Arquivo Pessoal

Termômetro

A sucessão da prefeita Adriane começa a entrar no radar político de Campo Grande com vistas a 2028, embora a movimentação mais efetiva deva ocorrer a partir de 2027. Ainda não se sabe  se os partidos que hoje integram o arco de alianças do governador Riedel estarão novamente do mesmo lado. Algumas figuras já andam assanhadas e ensaiam colocar o bloco na rua. A eleição deste ano poderá servir para medir força e espaço dos candidatos. 

Cadeiras

Se for reeleito, o governador Riedel poderá entrar na disputa por uma das vagas ao Senado em 2030. A cadeira que estará em jogo será a da senadora Tereza Cristina, com o final do seu mandato. Ela, por sua vez, também poderá entrar na disputa pelo Governo de MS. Assim, as eleições deste ano já produzem reflexos sobre a montagem do cenário de 2030. Como na política ninguém costuma olhar apenas para a próxima curva...

Responsa

Está nas mãos dos irmãos Fábio e Marcos Trad, hoje em partidos de esquerda, parte importante da responsabilidade de ampliar o espaço político da família nestas eleições. Fábio disputa o Governo, enquanto Marcos busca uma vaga na Câmara dos Deputados. O senador Nelson Trad Filho, por sua vez, desistiu do confronto direto e agora integra uma chapa majoritária como suplente. Se os dois irmãos não obtiverem sucesso nas urnas, o legado político da família poderá sofrer um forte revés. A eleição, portanto, servirá para medir a força do sobrenome.

ANIVERSARIANTES 

  • Leni Fernandes, 
  • Déo José Rimoli Filho,
  • Neiba Ota,
  • Marcus Vinicius Saucedo Perez, 
  • Dalila Felix Damian Miragaia, 
  • Adirson Moreno Peixoto,
  • Gete Ottano da Rosa,
  • Francisca Cosma de LIma Cordeiro,
  • João Yossimitu Chimabuco,
  • José Pereira de Viveiros,
  • Oilson Rizzo,
  • Paulo Cesar Coelho,
  • Rodrigo Seabra Gomes,
  • Josefina Antonia Toledo da Silva,
  • Julianne de Souza Espindola,
  • Cleusa Araujo Clark,
  • Yassuo Noguchi,
  • Silvia Kozima,
  • Gilza Nuria Marroni,  
  • Paulo Sergio França,
  • Jurandir Calixto da Cruz,
  • Osny Duarte Ribeiro,
  • Carlos Hamilton Pereira,
  • Dr. José Rizkallah, 
  • Dr. Jorge Eduardo Rodrigues,
  • Mauro Antônio Zaionc, 
  • Eliane Del Greco Michelazzo,
  • Roberto Pinheiro de Lima,  
  • Wilson Marques Barbosa,     
  • Ana Cecília Mascarenhas Moreira,
  • Vanir Pato dos Santos,
  • Ricardo Ferreira,
  • Sueli Higa, 
  • Orlando Costa Marques Leite,
  • Rochelle Costa,
  • Vanildo Neves Barbosa,
  • Raimundo Nonato Teixeira,
  • Lecir Regenold Martins, 
  • João Pereira Guimarães Neto,
  • Gislene Maria de Macedo,
  • Maurilio Nicomedes da Cunha,
  • Neuza Maria Trindade Benites,
  • Luiza Miyahira,
  • Eliane Novaes Guimarães,
  • Hélio Arthur Bacha,
  • Alex Addor,
  • Nelson Buianain Filho, 
  • Arides Gonçalves Gattis,
  • Dr. Victor Hugo Andrade de Oliveira,
  • Cleber José Ferreira Aguilar,
  • João Nunes,
  • Ramão Barbosa de Souza,
  • Josias dos Santos Rosa,
  • Cleiton Alves Rodrigues,
  • Roberto de Paula Almeida, 
  • Vera Brum,
  • Dr. Aristóteles Ferreira,
  • Maria Cristina Andrade Lopes,
  • Wilson Gomes,
  • Anibal do Nascimento Reis,
  • Maria Antonieta Assunção,
  • Silvio Bezerra Silva,
  • Edison Nepomuceno,
  • Rosiane Nogueira Escobar,
  • Hilda Silveira Gomes,
  • Marisa Mendes Gonçalves,
  • Orcílio Pereira de Queiroz,
  • Dácio Barbosa,
  • Antônio Cotrim Júnior,
  • Dra. Jussara Toshie Hokama, 
  • Elsi Abussafi dos Santos,
  • Márcio César Gonzaga,
  • Pedro Sorrilha Nantes,
  • Sérgio Adalberto Oliskovicz,
  • Hudson Oliveira,
  • Maria de Lurdes Teófilo Tavora,
  • Pedro Paulo Batista,
  • Carmem Fonseca,
  • Soraia Aparecida Chrun Silva,
  • Cristina Xavier da Silva,
  • Emanuel Kilkner Xavier Correa,
  • Altair Carvalho de Oliveira,
  • César Glauco dos Santos Braga,
  • Hans Edgar Bacahenheimer Aguilera,
  • João Edson Vitti,
  • Arnaldo Oscar Drews,
  • João Sguissardi da Rosa,
  • Milton dos Santos de Souza,
  • Roseli Douxera Aquino,
  • José Carlos Oliveira Junior,
  • Manoel Afonso, 
  • Janete Bellini D´Oliveira,
  • Plinio de Arruda Junior,
  • José Carlos Sena,
  • Zito Manuel da Silva,
  • Fabiano Battiston,
  • Oscar Aparecido Santana,
  • Waldelino Pereira Fernandes,
  • Alexandre Rodrigues Favilla,   
  • Nailor Holsback Pereira,          
  • Ayrton Assunção Matos Júnior,     
  • Cassiano Zambam Biglia,
  • Jair de Almeida Serra Neto,
  • Laralice da Rocha Aidar,
  • Jucyliana Cristine Arantes,
  • Mozart Stefani, 
  • Taís Gouvêa Assunção, 
  • Lourdes Peres Benaduce,
  • Roberta Moreschi,
  • Samanta Viki Ramos,
  • Marlene Meneses de Almeida.

Colaborou com Tatyane Gameiro

crônica

Cidade Afeto

14/09/2026 15h05

Arquivo

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Ao aceitar o convite  de Henrique Medeiros, presidente da Academia de Letras de Campo Grande e da amiga   e acadêmica Theresa Hilcar para uma palestra, a memória revirou.  Não imaginava que viveria tantas emoções em dois dias. Momentos diferentes de minha vida vieram à tona. 

Marcia, minha esposa,  e eu percorremos o que foi possível da cidade, a qual estou ligado desde os anos 1970-1980, quando reunido com autores de minha geração atravessávamos o País   fazendo palestras a estudantes e professores em escolas, pátios, quadras, porões, calçadas, praças, estações ferroviárias, resistindo a um regime que tentava nos calar.

Para mim, esta ida, agora, semanas atrás, me trouxe Berlim, onde morei nos anos 1980. Acabara de me separar de  Bia, minha esposa, e ela mudara para o Mato Grosso com meus filhos. Comunicávamo-nos por telefone. Eu fazia a ligação para Daniel e André, à noite nos orelhões berlinenses. Era muitíssimo mais barato. Havia os fusos, porém os meninos me aguardavam ansiosos para transmitir tudo da  cidade deles, tão verde. Enquanto eu estava enregelado, ele ardiam de calor, e riam, não entendiam a diferença. Eu dizia: “estou com um pouquinho de neve na mão”, e eles queriam saber: “Qual  é o gosto da neve”. Berlim era gelada e gelado e Campo Grande, ardia. 

Eu acompanhava as escolas deles, dos jogos de futebol nos terrenos vagos em torno da casa na Rua da Paz, dos passeios.  Contavam dos campeonatos de futebol de salão no colégio. Estavam felizes, a cidade os acolheu. Eu me adaptava a Berlim,  eles a Campo Grande. Havia afeto. Lembro-me rindo de um “castigo” para alunos  rebeldes.  Eram trancados na biblioteca. Daniel e André faziam arrelia para serem  fechados e ali ficavam lendo. Eu sabia da Rua da Paz, onde tinham morado,  jogando futebol nas ruas de terra. Hoje avenidas asfaltadas, em bairro de classe média alta, a casa em que os meninos moravam, desapareceu.

Circulei por uma cidade dominada por um verde exacerbado que me atordoava, eu lembrando o romance “Não Verás País Nenhum”, hoje um clássico da questão ambiental. Assim  circulei em torno do cerrado conservado, milhares de árvores  me envolvendo e ouvia, sim, uvia,  todo aquele verde me  agradecendo pela imensa reserva do Cerrado.  Apego à natureza. 

Aquela época lá atrás foi a  do muro de Berlim com seus belvederes  (observatórios)  aos quais  subíamos do lado de cá, dito democrático, para  observar os “comunistas” do “lado de lá”. Como se fossem animais de zoológico. Loucuras da Guerra Fria.

Na semana passada, em   acordo entre a Academia Brasileira e a de Campo Grande  falei por duas horas para uma sala lotada. Ou seja, as academias estão  se   abrindo,  multiplicando encontros pelo País inteiro.
Terminados os autógrafos  fomos levados para o Território Ristorante, do filho de Theresa Hilcar , Diogo Wendling ,que ficara aberto para nos receber. Lá estavam os chefs e cozinheiros, fora de seus horários, em homenagem à literatura. Os matogrossenses tem ideia do tesouro raro que tem?  Calculam o valor de uma cozinha superior aos mais medalhados de São Paulo, Rio, Nova York? Diogo na cozinha se  pauta pela inovação  sem esquecer o regional.  É um olhar contemporâneo à gastronomia italiana. Marcia e eu hesitamos entre o Torteille di Ossobuco e o Entrecôte di Angus ala Grigia. Decidimos pelo Risoto Pantaneiro que leva carne seca, banana-da-terra, parmesão e pangrattato.  Disputando palmo a palmo com os parisienses “L’Atelier” ou o “Le Perocope”, ”Le Meurice”ou o “JulesVerne”Comida é afeto. Falar é formar leitores  Campo Grande, cidade afeto.

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