A força simbólica do feminino, a espiritualidade reinterpretada sob a ótica brasileira e o diálogo entre culturas marcam a nova participação internacional do artista plástico sul-mato-grossense Fabrício Alencar.
Radicado em Campo Grande, o pintor integra a exposição coletiva “HER shaping the world”, em cartaz de 4 a 20 de março no Sfumato Art Studio, em Londres.
A mostra, cujo título pode ser traduzido como “ELA moldando o mundo”, celebra a potência transformadora das mulheres por meio da arte e reúne artistas de diferentes nacionalidades sob a curadoria de Patrícia Evangelista.
É nesse contexto que Fabrício Alencar apresenta ao público europeu a obra “MADONA (dos trópicos)”, um acrílico sobre tela de 70 cm x 1 m que propõe uma releitura profunda de um dos ícones mais tradicionais da história da arte ocidental.
“É uma honra anunciar minha participação na exposição ‘HER shaping the world’, em Londres. Neste mês, celebramos a força e a influência das mulheres que moldam o nosso mundo através da arte”, afirmou o artista.
NOVA IMAGEM DE MARIA
Na obra apresentada em Londres, Fabrício Alencar rompe com o arquétipo clássico renascentista e barroco da Virgem Maria com o menino Jesus no colo. Em vez da representação europeia consagrada ao longo dos séculos, o artista traz à tela a figura de uma mulher indígena brasileira amamentando seu filho.
“Madona (dos trópicos)”, de Fabrício Alencar - Foto: Divulgação“Faço a releitura da imagem de Nossa Senhora com o menino Jesus no colo, quebrando o arquétipo da imagem clássica renascentista e barroca com a imagem figurativa de uma mulher indígena brasileira, com seu filho índio no colo ao ser amamentado”, explicou.
A escolha não é apenas estética – é política, cultural e simbólica. Ao deslocar a imagem sagrada para o contexto dos trópicos e associá-la à ancestralidade indígena, o artista questiona padrões históricos de representação e amplia o sentido universal da maternidade.
“A ideia principal desse quadro é que o amor de Maria, senhora e mãe de todos, não tem fronteiras de cor, crenças, nacionalidades ou classes sociais. Esse amor incondicional, para mim, traduz toda a força do feminino”, destacou.
Em “Madona (dos trópicos)”, o sagrado encontra o Brasil profundo. A maternidade é retratada não como ideal distante, mas como experiência concreta, enraizada na terra, na cultura originária e na vivência cotidiana. A obra também dialoga com o mês de março, período simbólico de valorização das mulheres em diversas partes do mundo.
TRAJETÓRIA
A participação na exposição em Londres não é um fato isolado na trajetória de Fabrício Alencar. Natural de Santarém (PA) e radicado há anos em Campo Grande, o artista vem consolidando seu nome no circuito internacional de arte contemporânea.
Em abril de 2025, ele representou Mato Grosso do Sul na World Art Dubai, realizada no Dubai World Trade Centre, considerada a maior feira de arte contemporânea de varejo do mundo. Na ocasião, apresentou três obras da coleção Passarada, inspirada na fauna brasileira.
A série, marcada por aquarelas com pinceladas no estilo sumiê (técnica milenar chinesa e japonesa) retrata aves como canários e uirapurus, símbolos de liberdade e identidade nacional. Segundo o artista, a coleção nasceu de memórias de momentos de contemplação da natureza e da observação dos animais em seu habitat.
“As cores e formas me inspiram e eu as traduzo em aquarelas com pinceladas no estilo sumiê, arte milenar chinesa e japonesa”, explicou à época.
A experiência em Dubai ampliou sua visibilidade internacional e abriu novas portas. O contato com galerias estrangeiras, especialmente no Reino Unido, foi fundamental para essa expansão.
A aproximação com a curadora Patrícia Evangelista, proprietária do Sfumato Art Studio, resultou, primeiro, na seleção para a feira em Dubai e, agora, na participação na mostra em Londres.
O reconhecimento do trabalho desenvolvido pelo artista também se refletiu no âmbito local. Em 18 de março de 2025, Fabrício Alencar foi homenageado pela Câmara Municipal de Campo Grande com moção de congratulações, proposta pela vereadora Luiza Ribeiro.
A honraria destacou a importância de sua participação na World Art Dubai e o orgulho de ver o nome da capital sul-mato-grossense projetado internacionalmente.
A homenagem consolidou o entendimento de que a trajetória do artista ultrapassa conquistas individuais e representa a força da produção cultural do Estado em diálogo com o mundo.
LINGUAGEM DO PINCEL
Radicado em Mato Grosso do Sul há cerca de sete anos, Fabrício construiu uma linguagem própria que combina espiritualidade, identidade brasileira e influências orientais. Sua obra transita entre a delicadeza das pinceladas e a profundidade simbólica dos temas escolhidos.
“Esse amor incondicional, para mim, traduz toda a força do feminino” Fabrício Alencar, artista - Foto: DivulgaçãoSe na coleção Passarada a natureza e a fauna pantaneira eram protagonistas, em “Madona (dos trópicos)” o foco recai sobre o feminino como força estruturante da sociedade. Em ambos os casos, há um elemento comum: o pertencimento.
O artista transforma referências locais em narrativa universal. Ao representar aves brasileiras com técnica oriental, ele conecta continentes. Ao retratar Maria como uma mãe indígena, ele universaliza o amor materno a partir de uma estética latino-americana.
Essa capacidade de dialogar com diferentes culturas é um dos fatores que explicam sua inserção em espaços internacionais relevantes. Londres, um dos principais centros culturais do mundo, torna-se agora palco para essa nova etapa.
FORÇA FEMININA

A exposição “HER shaping the world” propõe uma reflexão sobre o papel das mulheres na sociedade contemporânea. Ao reunir artistas de diversas nacionalidades, a mostra constrói um mosaico de perspectivas sobre identidade, resistência, maternidade, poder e criação.
Nesse contexto, “Madona (dos trópicos)” ganha camadas adicionais de significado. A obra não apenas revisita um ícone religioso, ela também questiona padrões históricos de representação feminina.
Ao colocar uma mulher indígena no centro da narrativa sagrada, Fabrício tensiona estruturas simbólicas construídas ao longo de séculos de arte eurocêntrica.
A pintura sugere que o sagrado também habita corpos historicamente invisibilizados, que o divino pode ter traços indígenas e que a maternidade não pertence a um único padrão estético ou cultural. “Assim engrandecendo as mulheres e a importância do seu papel na sociedade”, resumiu o artista.
Reposição hormonal é indicada apenas em casos específicos e a utilização para fins puramente estéticos não é recomendada - Foto: Freepik
Atividades físicas, em especial a musculação, podem ajudar a elevar os níveis de testosterona - Foto: Freepik


