Desenvolvido pelo Instituto Cactus e produzido por meio da parceria com a empresa de pesquisa e ciência de dados AtlasIntel, o Panorama de Saúde Mental 2026 revela que a solidão atingiu a marca de 36,5% dos brasileiros, ressaltando a necessidade de evidenciar os riscos do isolamento social ao emocional feminino.
Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam, por exemplo, que as mulheres respondem por aproximadamente 76% das horas de cuidado não remunerado no mundo, com a psicóloga e escritora Deborah Dubner destacando a necessidade de que elas também saibam impor limites.
Cabe reforçar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a tratar a solidão como uma ameaça global à saúde pública, estando forte e diretamente ligada à piora do bem-estar mental da população brasileira. Especialistas destacam que esse fator aparece independente do círculo social, com a sensação despertando mesmo quando há casa cheia.
Enquanto isso, a pesquisa que ouviu 4.601 pessoas no Brasil, mostra que no outro extremo dessa balança aparece a convivência com amigos como um dos principais fatores de proteção da saúde mental.
Essa medição se dá por meio do chamado Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (Icasm), uma escala que varia entre a casa de zero até mil pontos.
Nessa lógica, o levantamento demonstrou a existência de uma distância difícil considerável entre quem convive com a solidão e os que não relataram a sensação.
Por exemplo, aqueles que se sentiram sozinhos três vezes ou mais ficaram em 383 pontos, enquanto os que não relataram o sentimento chegaram a 782 pontos.
Este é o primeiro ano em que o tema entrou em pauta, marcando a série histórica que, na prática, apura os reflexos do isolamento e a separação que ele cria entre quem segue com a saúde mental preservada de quem vive em sofrimento, o que por sua vez demonstra o peso real que a solidão exerce sobre o bem-estar das pessoas.
SOLIDÃO EM NÚMEROS
Além disso, os números jogam por terra a ideia de que estar sozinho é o mesmo que estar sem companhia, já que há também uma enorme diferença entre a solidão relatada pelos solteiros e os casados.
Conforme os dados, 51,7% daquelas pessoas que estão fora de um relacionamento relataram solidão, sentimento esse que aparece entre 26,6% dos que possuem uma companhia.
Entre aqueles que brigaram com familiares em episódios frequentes, a solidão chega a ser relatada por 84,2%, evidenciando que a qualidade dos laços conta tanto quanto o vínculo e a presença de pessoas por perto.
Quando lançado um olhar sobre a proteção dessas pessoas, quem encontrou amigos nas duas semanas anteriores registrou 737 pontos, contra 539 pontos entre aqueles que não tiveram esse contato, o que indica que a convivência do dia a dia possui um reflexo e diferença real na saúde mental.
ISOLAMENTO FEMININO
Tatiane França é escritora e empresária, autora do livro “Sobre o que Sentimos”, que compila uma série de 18 contos sobre relações humanas, perdas, conflitos íntimos e sentimentos reprimidos, histórias essas que abordam marcas deixadas por escolhas solitárias, afetos não declarados, etc.
Publicado pela editora Metamorfose, a obra organiza essas histórias que possuem conexão comum: a intensidade das experiências emocionais e a dificuldade de expressar aquilo que se passa internamente.
Para a autora, reconhecer o que preenche cada pessoa é também compreender que os sentimentos participam da construção de quem ela se torna.
Tratando-se de uma coletânea indicada para pessoas interessadas em ficção contemporânea centrada nas relações humanas e nas experiências emocionais, mas também a quem busca, na literatura, novas perspectivas para compreender a si mesmos e as marcas deixadas pelas vivências.
“Em ‘Sobre o que Sentimos’, a escrita dá forma a experiências que nem sempre encontram espaço na conversa cotidiana e permite que cada leitor atribua sentidos próprios aos conflitos, silêncios e escolhas de cada personagem”, cita Tatiane.
Como bem aponta Deborah Dubner sobre os números do isolamento e a afirmativa da OIT sobre cuidado não remunerado, a psicóloga afirma que os dados não surpreendem, mas reforçam que esse apoio perpassa pelo enfrentamento de desigualdades e escolhas sociais, além de que quem cuida não pode desaparecer na dedicação pessoal.
Vale lembrar que a data de 29 de outubro é destacada como o Dia Internacional do Cuidado e Apoio, instituída há cerca de três anos pela Organização das Nações Unidas (ONU), ainda em 2023.
Ela possui o intuito de conscientizar a respeito do trabalho de cuidado, remunerado ou não, e para a necessidade de reconhecer, valorizar e apoiar quem cuida.
“Cuidar não significa estar disponível o tempo todo, nem assumir tudo sozinho. Falar sobre limites, redes de apoio e autocuidado é o maior desafio e, ao mesmo tempo, o melhor benefício que podemos gerar. Observe como isso circula na sua vida. Quanto você oferece? Quanto se permite receber? O cuidado não deve ser uma tarefa solitária, nem caminho de mão única. Quando você se pergunta ‘quem cuida de quem?’, que respostas encontra?”, comenta.
CAUSAS E AGRAVANTES
Psicóloga, Caroline Macarini é cofundadora e responsável técnica da Unolife, em análise sobre os dados referentes à solidão no Brasil ela indica que essa sensação tende a vir acompanhada de uma série de dificuldades que vão além da simples companhia de alguém.
“Ela aparece junto de aperto financeiro, cansaço e pouca rede de apoio. Quando o cuidado cabe no orçamento e começa de casa, mais gente consegue dar o primeiro passo”, expõe.
Essa solidão, porém, raramente chega sozinha, e o levantamento mostra que ela vem junto de preocupação financeira – é a queixa mais frequente, citada por 78,1% dos entrevistados –, e 70,6% dormiram menos de seis horas ao menos uma vez no período, um retrato de pessoas pressionadas pelo dinheiro, cansadas e com pouca rede de apoio.
Ou seja, para além de ter alguém para conversar, a solidão costuma a vir acompanha de dificuldades bem concretas na rotina, com o exemplo das preocupações financeiras sendo relatada por quase 80% – o valor exato é 78,1% – dos entrevistados.
Entre esses, 70,6% dormiram menos de seis horas ao menos uma vez no período, um retrato de pessoas pressionadas pelo dinheiro, cansadas e com pouca rede de apoio.
Antes mesmo desta primeira pesquisa nacional, a OMS já havia indicado que em 2025 a solidão já atingia uma pessoa em cada seis pessoas ao redor do globo, associada à aproximadamente 100 mortes por hora no Mundo, o que corresponde à marca de mais de 871 mil mortes anuais.
Além disso, a psicóloga Caroline Macarini faz questão de reforçar os perigos que há por trás de uma tendência crescente: as “consultas” e busca por apoio emocional por meio de conversas com assistentes virtuais de inteligência artificial (IA).
Quanto a esse comportamento de busca por companhia em ferramentas de IA, a psicóloga avalia que o ideal é que essas assistentes virtuais sirvam apenas de apoio para tirar dúvidas sobre qual caminho de suporte optar, não se tornando, de fato, o destino final da pessoa que está a procura de conforto emocional ou simplesmente uma companhia para conversar.
Nesse cenário, 32,1% de quem se sente sozinho já buscou companhia em IA’s, contra 1,8% entre quem não relatou solidão, contraste que mostra como a falta de vínculos humanos tem levado muita gente a procurar acolhimento com o que está mais à mão.
“Ferramentas genéricas não foram criadas para cuidar de saúde mental. O caminho é que funcionem como ponte para o atendimento humano. A terapia não substitui vínculos, mas pode ajudar a construí-los”, diz. Caroline.
Foto: Divulgação/Paulo Mancini
Alini Mello - Foto: Arquivo Pessoal
Lucas Leto - Foto: Lu Prezia
Primeiro registro local vem da formação de samaritanas em curso de primeiros socorros, datada de novembro de 1942 - Foto: CVBMS


