Ouvi a voz estridente antes mesmo de entrar no quarto 303 pela primeira vez.
Não era dela. Era da mãe carismática, gaúcha, dedicada, que sinalizava animadamente para a filha o desenho que estava passando na televisão. Ao olhar para o leito, me deparo com uma senhora de 60 anos com olhos azuis doces e desconfiados, cabelo amarrado com maria-chiquinha e, em seu colo, um coelho de pelúcia surrado. A história dele contarei logo mais.
Ela tinha nome de flor. Adquiriu paralisia cerebral ao nascer e era a primogênita de três filhas. Sua mãe, a idosa da voz estridente na casa dos 80, exalava cuidado, carinho e zelo por todos os poros do corpo já cansado pelo tempo. Ela dizia sentir dentro do seu coração que era alguém abençoada pelo amor e devoção que, como mãe, recebia todos os dias daquela missão em forma de gente.
A situação econômica da família contribuiu para que tivesse todos os recursos disponíveis de tratamento em tempo integral, sete dias da semana. Testou todas as medicações lançadas em ambos os hemisférios do mundo para controle das convulsões. Das espasticidades do corpo. Os melhores profissionais para que fosse possível começar a falar aos seis anos de idade. A comer sem se engasgar. A conseguir se locomover com parcial independência. E que tivesse uma vida incluída nas demais. Viajava, participava das festas da família em que gostava de beber sucos da cor de âmbar que tilintavam com o barulho do gelo. Ela adora, sua mãe dizia, e ela concordava entusiasmada com a cabeça.
Gostava de ir para a piscina com seu maiô de flores amarelas. Separava a tarde para ouvir músicas e dançar sentada em sua cadeira de rodas. Como uma menina que perde as tardes em devaneios da pré-adolescência no auge dos seus 60 anos, com o cabelo já grisalho com maria-chiquinha.
Em meio à história contada a cada visita minha, tentava conquistar sua confiança durante meu atendimento. Descobri que gostava de Almir Sater e, para desgosto da sua mãe, do Pablo Vittar e que nutria uma paixão platônica pelo jardineiro da sua casa. Parecia que eu estava conversando com uma menina que há pouco havia aprendido a ler e que ainda tinha medo do escuro. Mas as rugas no seu rosto me faziam lembrar todo o tempo do tempo que estava ali já estampado. Ela era doce, quase meiga. Havia dias que estava manhosa e chorosa. Ela era apaixonante. Daquelas almas leves que são tão raras de esbarrar nesse mundo. Sempre nos despedimos mandando um beijo uma para a outra.
Certo dia, me contaram que moraram em Londres por muitos anos. Ela entende inglês, se você preferir, me disseram. E foi nesse dia que ela me contou sobre seu melhor amigo. Aquele coelho surrado que estava no seu colo no primeiro dia que a conheci. A pelúcia estava gasta comprovando os mais de 50 anos que estavam juntos nessa caminhada. E me perguntei por quantas internações ela o segurou bem perto como um amuleto da sorte. Se ele pudesse me mostrar tudo o que havia já visto nessa vida desde que foi dado de presente para ela, concluiria que sua vida foi mais linda e mais bem vivida que de muita gente que conheço.
Ela me contou que o nome dele era Peter Mackenzie. Sua mãe entrava na fantasia dizendo para ela que ele veio de uma família abastada da Escócia. E que Peter Mackenzie tinha seu próprio armário de roupas. Naquele dia, ele estava de pijama listrado vermelho e azul, combinando com o elástico vermelho do cabelo dela. Mas que ele tem um smoking para ocasiões especiais.
Ele a acompanha em tudo. Em todas as consultas médicas. Festas de família. Internações hospitalares. Viagens. Enquanto come. Enquanto dorme. Assistem à TV. Flagrei um beijo e um carinho nas suas orelhas de forma despretensiosa e natural mais de uma vez. Um amigo imortal, incapaz de decepcioná-la. Quanta genialidade nesse presente e em mantê-lo com espírito vivo ao redor dela! Nunca vi tamanha sensibilidade e cumplicidade em toda uma família.
Certo dia, entro em seu quarto e ela está chorando copiosamente, por não querer que a enfermeira pulsione outro acesso em sua veia. Ela estava inconsolável e nenhuma promessa do que ganharia se deixasse o procedimento ser feito a convencia. Foi quando tive a certeza de que muitas pessoas simplesmente possuem o dom e a nobreza do cuidar.
A enfermeira, primeiramente, pegou a veia do Peter Mackenzie. Prendeu uma agulha ao redor da sua patinha de pelúcia com esparadrapo e o elogiou por sua coragem. E disse que agora havia chegado a sua vez. Ela respirou fundo, esticou o braço, olhou para o lado oposto e permitiu que a enfermeira fizesse o que tinha que ser feito. E foi.
Há quem não acredite que o amor vive onde menos esperamos. E que ele move o mundo. Move a mim e a você. E há quem não veja todas as coisas nas entrelinhas dessa estória. São 60 anos acreditando que ela é capaz de suportar só mais uma picada. E mais uma. E mais outra. E isso porque ela tem um Peter Mackenzie (ou vários) em sua vida.
Todas as picadas que vão além de uma dor física, mas do meu julgamento e do seu. Daquela piedade ao olhar para ela, quando na verdade ela não é digna disso. Ou do preconceito. Ou da estranheza que causa por ser singular. E assim ela compõe a sua história. Um dia de cada vez. Sem grandes planos. Sendo corajosa, pois ela pode não saber, mas tudo o que ela precisa, tem de sobra: amor.
* Fisioterapeuta e empresária



Nádia Bana Povh e Miguel Povh Filho, que hoje comemoram 63 anos de casamento (Bodas de Sândalo). Foto: Arquivo Pessoal
Maisa Monseff. Foto: Arquivo Pessoal


