O avanço da tecnologia passou a ser um aliado no combate aos incêndios florestais no Pantanal. Em Mato Grosso do Sul, um sistema de monitoramento com inteligência artificial (IA) instalado no Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro é capaz de identificar focos de calor e fumaça em poucos segundos, permitindo uma resposta mais rápida das equipes de combate e reduzindo os impactos ambientais provocados pelo fogo.
A iniciativa faz parte de uma parceria entre a Bracell e o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), dentro do programa Compromisso Um-Para-Um, por meio do qual a empresa apoia atualmente a preservação de 189,1 mil hectares de Unidades de Conservação (UCs) no Estado.
O projeto utiliza torres equipadas com câmeras de alta resolução, IA e plataformas integradas ao Corpo de Bombeiros para monitorar áreas estratégicas do bioma.
O gerente de Sustentabilidade da Bracell, João Carlos Augusti, explica como funciona a tecnologia, os resultados obtidos no Pantanal, os investimentos realizados pela empresa em Mato Grosso do Sul e os planos para ampliar o sistema de monitoramento para outras Unidades de Conservação do Estado. Confira a entrevista a seguir.
Como nasceu essa parceria entre a Bracell e o Imasul e qual é a espinha dorsal desse investimento no monitoramento ambiental?
Esta parceria nasceu do nosso Compromisso Um-Para-Um, uma diretriz pioneira da Bracell que estabelece a meta de, para cada 1 hectare de eucalipto plantado, preservar ou apoiar a preservação de 1 hectare de vegetação nativa.
A partir daí, buscamos o governo do Estado, por meio do Imasul, para atuar de forma direta no fortalecimento das Unidades de Conservação de Mato Grosso do Sul.
Dialogando com os gestores públicos, identificamos que a grande prioridade para a região pantaneira era dotar as reservas de um sistema automatizado de altíssima precisão para prevenção e detecção precoce de incêndios florestais.
E por que os esforços iniciais desse monitoramento tecnológico focaram o Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro?
O Parque do Rio Negro, localizado em Aquidauana, possui 76.852 hectares e foi integrado ao nosso compromisso em 2024. Ele é uma joia ecológica criada primordialmente para preservar os ecossistemas pantaneiros, funcionando como um verdadeiro santuário e berçário natural.
Segundo um levantamento consistente realizado em 2008, o parque abriga uma densidade faunística impressionante: 124 espécies de mamíferos, incluindo espécies ameaçadas como a onça-pintada, a ariranha e o cervo-do-pantanal; 463 espécies de aves, com destaque para araras-azuis, tuiuiús e colhereiros; 405 de peixes; e 50 de répteis, como o jacaré-do-pantanal.
Sua flora reúne mais de 772 espécies catalogadas, unindo influências do Cerrado, Amazônia e Chaco em um mosaico de baías, salinas e cordilheiras. Proteger essa riqueza era uma urgência absoluta.
Como funciona a tecnologia instalada no parque? Qual é a infraestrutura de hardware e o diferencial da inteligência artificial empregada?
Nós contratamos a startup Umgrauemeio, que entregou uma solução integrada do tipo turnkey, ou seja, uma estrutura completa “pronta para uso”, somando hardware e software de ponta.
Foram erguidas duas torres estratégicas, uma ao norte e outra ao sul do parque, equipadas com câmeras de alta resolução full HD, zoom óptico mínimo de 30 vezes e giro contínuo de 360 graus, funcionando dia e noite com energia solar própria.
O diferencial é que as torres contam com uma rede própria de transferência de dados por protocolo fechado (via rádio ou internet) e utilizam inteligência artificial.
Antes mesmo de surgir fumaça, o sistema analisa variáveis microclimáticas para calcular o risco de incêndio.
Havendo ignição, a IA detecta a fumaça em segundos, calcula a posição exata, a altura das chamas e o potencial de propagação com base na vegetação ao redor.
Mais do que uma solução tecnológica, estamos falando de uma ferramenta de proteção ambiental. Quanto mais cedo um foco é identificado, maior é a capacidade de preservar fauna, flora, recursos naturais e evitar impactos ambientais de grande escala.
Quando o risco é detectado, como a informação chega aos bombeiros? Quais plataformas foram disponibilizadas para a gestão em tempo real?
A resposta é imediata e integrada. Dentro da solução oferecida, o Imasul e o Corpo de Bombeiros receberam acesso a duas plataformas essenciais: o Pantera Web, que realiza o monitoramento e a detecção ampla com imagens de satélite, e o Pantera CIG [Central Integrada de Gestão], que é diretamente conectada às câmeras de alta definição das torres.
Quando uma câmera identifica fumaça no Parque do Rio Negro, o alerta surge instantaneamente na tela da central montada no Corpo de Bombeiros, em Campo Grande.
O operador vê a imagem ao vivo em full HD, aproxima com o zoom de 30 vezes e obtém as coordenadas exatas. Isso permite enviar a brigada certa, com o equipamento adequado, em questão de minutos.
Aqui, precisamos valorizar o papel desses agentes, a partir das notificações em centrais de monitoramento, a conexão entre Corpo de Bombeiros, Imasul, produtores rurais e ONGs parceiras cria um ecossistema que funciona perfeitamente em Mato Grosso do Sul.
Tudo isso, somado ao suporte da iniciativa privada, tem aumentado o sucesso nas operações a favor do meio ambiente.
Diante do histórico de secas severas no Pantanal, até que ponto a tecnologia altera a capacidade de prevenção versus o combate físico tradicional?
A tecnologia não substitui o trabalho braçal e heroico dos brigadistas e dos bombeiros, ela potencializa e direciona essa atuação.
O grande gargalo no Pantanal sempre foi o tempo de resposta: um foco isolado podia queimar por dias até ser percebido por satélites convencionais ou avistado por moradores.
Com as torres full HD e as plataformas Pantera Web e Pantera CIG, nós transformamos o combate a grandes incêndios no combate a pequenos focos. Tiramos as equipes do escuro, permitindo que a resposta ocorra quando o fogo ainda é totalmente controlável.
É a união perfeita entre a precisão dos algoritmos e a capacidade operacional do Estado. Isto é, em um contexto de eventos climáticos cada vez mais extremos, a prevenção torna-se ainda mais importante.
A tecnologia nos ajuda a aumentar a resiliência dos ecossistemas e a apoiar os esforços do poder público na proteção de áreas ambientais estratégicas.
A Bracell divulgou recentemente um balanço consolidado do Compromisso Um-Para-Um em MS. Quais são os números atuais e quais parques já fazem parte dessa rede?
Os números mostram a escala e o compromisso de longo prazo da Bracell com o Estado. Hoje, o Compromisso Um-Para-Um apoia exatamente 189.170 hectares de áreas protegidas em Mato Grosso do Sul.
Nossa atuação começou em 2023, apoiando o Parque Estadual das Nascentes do Rio Taquari, 30.618 hectares, em Alcinópolis, o Parque Natural Municipal Pombo, 8.032 hectares, em parceria com a prefeitura de Três Lagoas, e duas importantes Unidades de Conservação urbanas na Capital: o Parque Estadual do Prosa, 135 hectares, e o Parque Estadual Matas do Segredo, 188 hectares.
Em 2024, incorporamos os 76.852 hectares do Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro e, agora, em 2025, somamos os 73.345 hectares do Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema.
É um ecossistema completo de proteção. Esses números demonstram que o Compromisso Um-Para-Um não é uma ação pontual, mas uma estratégia de longo prazo. Nosso objetivo é gerar impactos positivos permanentes e contribuir para a conservação ambiental de forma estruturada e colaborativa.
A iniciativa ultrapassou metas importantes nos últimos anos. O que isso representa para a Bracell?
Representa a materialização de um compromisso assumido publicamente.
Em 2025, alcançamos 107% da meta estabelecida, apoiando mais de 300 mil hectares de áreas de conservação em nossas regiões de atuação.
Mais do que números, esse resultado reforça que é possível transformar compromissos ambientais em entregas concretas e mensuráveis para a conservação.
Como é feita a escolha de onde investir em cada uma dessas unidades ao longo dos anos?
Esse é o ponto central da nossa metodologia: a escuta ativa. Nosso acordo com o governo estadual tem horizonte de 10 anos, mas a Bracell não chega impondo projetos, quem define o uso dos recursos são os gestores das próprias Unidades de Conservação e o Imasul.
Eles avaliam as urgências anuais, sejam torres de monitoramento, equipamentos de brigada, insumos ou serviços, e apresentam a demanda. Estando alinhada ao propósito do Um-Para-Um, a Bracell faz o investimento e efetiva a entrega.
A experiência implementada com sucesso no Pantanal pode ser multiplicada para outras regiões do Estado e do País?
Sem dúvida alguma. A tecnologia de detecção precoce já é madura no setor florestal para proteger os plantios de eucalipto, mas a grande inovação da Bracell foi transferir essa tecnologia de ponta, em formato turnkey, para a conservação de biomas nativos em parques públicos.
O modelo deu tão certo no Parque do Rio Negro que a nossa intenção, em comum acordo com os órgãos ambientais, é de levar esse cinturão tecnológico para outras unidades, com a parceria da Bracell, como o Parque das Nascentes do Taquari, que também sofre forte pressão de fogo, e o das Várzeas do Rio Ivinhema.
Proteger o patrimônio natural é uma missão conjunta do setor público, das empresas privadas e da sociedade.
{Perfil}
João Carlos Augusti
É gerente de Sustentabilidade na Bracell. Tem uma trajetória sólida na gestão corporativa de padrões ESG, liderando equipes distribuídas por diversas regiões do Brasil e gerenciando projetos estratégicos no setor industrial e florestal. Graduado em Engenharia Florestal pela USP, tem MBA em Administração de Negócios e Gestão Empresarial pela Fundação Dom Cabral.

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