Economia

PECUÁRIA

Arroba do boi sobe 16,6% em um mês no Estado e registra tendência de valorização

Escoamento da produção e demanda do varejo local ditarão os preços ao consumidor, que podem voltar a subir

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Depois de meses seguidos registrando desvalorização da arroba do gado, a cadeia produtiva mostra reação em Mato Grosso do Sul. Dados da Granos Corretora apontam que, entre setembro e outubro, o preço da arroba do boi gordo subiu 16,59% no mercado físico estadual, saindo de R$ 200,29 no mês passado para R$ 233,53 na cotação deste mês.

No início de setembro, o gado passou a apresentar variação positiva no Estado. O presidente da Associação de Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul), Guilherme Bumlai, destaca que a conjuntura se dá em virtude da redução da oferta de gado gordo e também da atividade dos frigoríficos, que já não dispõem de um bom volume de gado pronto para abate. 

"Essa reação é generalizada, ocorre em todas as praças produtoras, portanto, não é mais vantajoso buscar animais em estados próximos a MS, tendo em vista o custo do transporte".

A consultora técnica da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Sistema Famasul), Eliamar Oliveira, explica que a valorização recente no preço da arroba tem seus motivos. 

"É reflexo da dificuldade das indústrias em realizar negócios com os preços anteriores, preencher escalas de abate e atender à demanda", analisa a consultora. 

Para Bumlai, o cenário sinaliza tendência de valorização do boi gordo, que deve se estender até o último trimestre de 2023, aliada a fatores sazonais. 

"Entramos na reta final do ano, e a proximidade com as festas de fim de ano sempre causam aumento no consumo doméstico", pontua ele, que ainda acrescenta o fato de que o abate de gado vem aumentando, trazendo segurança, readequação no mercado, ajustes de preços e melhoria no valor da arroba.

Eliamar reitera que as comemorações e festividades de fim de ano, o aumento da renda com pagamento de décimo terceiro salário e as contratações temporárias devem puxar a valorização no setor. 

"A melhora do consumo contribuirá para a manutenção dos preços da arroba, potencializada pela oferta menor de animais", reforça.

Economista do Sindicato Rural de Campo Grande, Rochedo e Corguinho (SRCG), Staney Barbosa Melo aponta que o comportamento dos preços pagos ao produtor rural será ditado de agora em diante pela oferta potencial. 

"Com a recuperação de preços, aqueles produtores que estavam aguardando uma recuperação certamente aproveitarão o momento para escoar parte da produção, e os preços devem responder conforme a intensidade dessa oferta", analisa.

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VALORIZAÇÃO

Tendo como referência o dia 10 de cada mês de 2023, é possível observar que os primeiros meses do ano demonstraram uma tentativa de reação do valor do boi, que chegou a custar R$ 275 em abril. 

A partir de maio, a arroba passou a sofrer oscilações negativas, caindo a R$ 246 no quinto mês do ano, R$ 226,50 em junho, R$ 241,63 em julho e em agosto recuou a R$ 217,52. Em setembro, a arroba chegou ao menor valor praticado desde julho de 2020, custando R$ 200,29. 

Após um início de mês com queda expressiva, o gado começou a registrar valorização em setembro e neste mês segue acumulando alta de preços.

De acordo com a consultora Eliamar Oliveira, o que se observa é uma recuperação no preço da arroba depois de um período depreciado, com valor inferior a R$ 200. 

"A cotação da primeira semana de outubro volta à casa dos R$ 235 a R$ 240 por arroba, aproximando-se do valor praticado em julho, mas está distante dos R$ 270 a R$ 275 praticados em setembro de 2022", compara.

CONSUMIDOR

Na ponta final da cadeia produtiva, os preços dos cortes bovinos tiveram recuo em 2023. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) apontam que, de janeiro a setembro, a queda foi de 13,38%, considerando o preço médio dos cortes de primeira (coxão mole, patinho e coxão duro).

No primeiro mês do ano, o quilo da proteína animal era comercializado a R$ 39,58 e, em setembro, o preço médio foi a R$ 34,28.

A supervisora do Dieese em MS, Andreia Ferreira, explica que a coleta de preços é feita para os três tipos de cortes. "Fazemos uma ponderação desses cortes, os mais consumidos em Mato Grosso do Sul. Há redução, mas ainda aquém do que as pessoas esperam", indica.

O economista Eduardo Matos afirma que recentemente houve um embate entre produtor rural e varejo. 

"Depois de muita pressão e de os frigoríficos reduzirem o preço pago ao produtor, o varejo não baixou o preço de venda na mesma magnitude e foi acusado de se aproveitar da situação para operar com margem de lucro mais elevada", afirma.

Eliamar ainda aponta que, apesar de ter tendência de alta, a carne bovina não deve subir muito.

"A conjuntura de renda limitada inibe valorizações expressivas da carne bovina, porque desestimulará o consumo ou prejudicará a competitividade dessa proteína em relação às demais", detalha a técnica do Sistema Famasul.

Mato Grosso do Sul

Concessionária vai à Justiça para barrar ferrovia bilionária da Arauco

Way alega invasão da faixa de domínio da MS-112, pede o desfazimento de um viaduto ferroviário e trava disputa judicial que pode impactar obra de R$ 2,8 bilhões da multinacional chilena em Inocência

06/07/2026 04h40

Construção de viaduto da via férrea sobre a MS-112 é motivo de controvérsia em Inocência

Construção de viaduto da via férrea sobre a MS-112 é motivo de controvérsia em Inocência Reprodução

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A concessionária de rodovias Way-112, que administra a rodovia MS-112, foi à Justiça para embargar a construção da ferrovia que está sendo construída pela Arauco, obra bilionária que marca o retorno de investimentos no transporte ferroviário em Mato Grosso do Sul.

O motivo para o atrito entre a Way-112 e a gigante da celulose é possessório. A concessionária da rodovia que liga a fábrica da Arauco à cidade de Inocência acusa a multinacional chilena de esbulho possessório por invasão da faixa de domínio e pede, na Justiça, a reintegração de posse da faixa de domínio e, ainda, o desfazimento das obras de um viaduto da via férrea sobre a rodovia concessionada pelo governo de Mato Grosso do Sul.

A Way-112 alega que não houve autorização da empresa, que é detentora da faixa de domínio (e cobra pelo seu uso), para as obras de construção da ferrovia da Arauco, que estão sendo executadas pela Construcap, uma das maiores empreiteiras do Brasil, que, no Estado, executou a ampliação do terminal de passageiros do Aeroporto Internacional de Campo Grande e, ainda neste ano, deve assumir a gestão do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS).

Já a Arauco, que simplesmente ignorou os pedidos da Way-112, entende que não precisa da anuência da concessionária da rodovia nem, tampouco, da Agência Reguladora de Serviços Públicos de Mato Grosso do Sul (Agems).

“Entendemos que a situação não se enquadra nas hipóteses típicas de cobrança pela ocupação de faixa de domínio”, afirmou a Arauco em documento enviado à Way-112, que insiste em cobrar que a gigante da celulose pague por usar sua faixa de domínio para construir um viaduto.

A multinacional chilena ainda cita jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) de que não é devida a cobrança pela utilização da faixa de domínio de um serviço público quando esta decorre de outro serviço público, para sustentar que não precisa da autorização da concessionária estadual.

“No caso, considerando que a Arauco recebeu da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) autorização para implantação do ramal ferroviário EF-A35, localizado no município de Inocência (MS), entendemos que, em princípio, essa cobrança é indevida”, explicou.

A Arauco está investindo R$ 2,8 bilhões na ferrovia de 47 quilômetros que ligará a futura fábrica da gigante da celulose à Malha Norte, em Inocência. Na megafábrica que está sendo levantada no município, o investimento é ainda maior: US$ 4,6 bilhões na planta que será a maior processadora de celulose do mundo, com capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas por ano.

CONFRONTO

O documento judicial detalha momentos de tensão entre as equipes de campo. Em registros operacionais realizados em junho deste ano, a concessionária relata que seus fiscais tentaram embargar a obra administrativamente, mas foram ignorados. Segundo o relatório de ocorrência, “o responsável pela empresa executora informou expressamente à equipe da concessionária que não acataria a determinação de paralisação, afirmando que eventual ordem deveria partir da própria Arauco”.

Para a Way-112, a resistência vai além de uma disputa financeira, trata-se de um risco direto aos usuários da rodovia. A petição destaca que as escavações profundas e a movimentação intensiva de máquinas pesadas na beira da pista foram feitas sem a aprovação de planos de sinalização técnica.

A concessionária afirma que “a execução de serviços por terceiros na faixa de domínio somente pode ocorrer após a anuência da concessionária e com o de acordo da agência estadual [Agems]”.

A Way-112 reforça que a faixa de domínio da MS-112 tem 40 metros de extensão e é “indisponível e insuscetível de posse e de alienação” por parte de entes privados sem o devido processo legal. Por isso, pede ao juiz que a Arauco seja condenada a promover a “restituição da área ao seu estado anterior (status quo ante), às suas expensas”, o que implicaria o desfazimento do que já foi construído.

CAUTELA

O juiz Edimilson Barbosa Ávila, em decisão interlocutória proferida em 11 de junho deste ano, optou pela cautela. Apesar da urgência alegada pela concessionária, o magistrado decidiu postergar a análise do pedido de liminar para depois da manifestação da Arauco, respeitando o princípio do contraditório.

O magistrado anotou em seu despacho: “No mais, quanto ao pleito de concessão da liminar, sua análise é mais adequada após o contraditório (postergo)”. Além disso, o juiz determinou que a Agems seja intimada para prestar informações em 15 dias, já que a questão central da disputa envolve a interpretação das normas regulatórias da agência estadual.

Até o fechamento desta edição, a Arauco não havia se manifestado oficialmente no processo. A obra do viaduto ferroviário segue como um símbolo da grandiosidade dos investimentos em Inocência, mas agora sob a sombra de uma batalha jurídica que pode definir novos precedentes sobre como as concessões de rodovias e ferrovias devem coexistir no território sul-mato-grossense.

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Espaço

Brasil disputa mercado espacial e prevê lançamento de foguete ainda este ano

O Brasil firmou um acordo de salvaguardas tecnológicas com os Estados Unidos em 2019, no governo Bolsonaro

05/07/2026 17h00

Lançamento de foguete sul-coreano em Alcântara.

Lançamento de foguete sul-coreano em Alcântara. Divulgação / Sgt Vanessa Sonaly

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O Brasil está tentando abocanhar uma fatia do mercado espacial, que movimenta bilhões ao redor do mundo e tende a crescer mais nos próximos anos, puxado por SpaceX, Blue Origins e dezenas de outras empresas menores, mas relevantes.

Neste momento, há cerca de 20 contratos em negociação entre o governo federal e multinacionais para "alugar" o Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão. A expectativa é que ao menos um lançamento ocorra ainda neste ano, servindo de chamariz para outros contratantes.

A sul-coreana Innospace obteve, no dia 22 de junho, autorização da Agência Espacial Brasileira (AEB) para realizar um lançamento. A multinacional desenvolve veículos lançadores de pequenos satélites que atendem setores como telecomunicações, meteorologia e defesa.

A SpaceX, de Elon Musk, já avisou que busca centros espaciais ao redor do mundo para expandir suas atividades - e o Brasil tem condições de entrar no páreo, dizem especialistas.

"Estamos interagindo com empresas com interesse em lançar seus veículos do Brasil. São aproximadamente 20 empresas, de América, Europa, Ásia e Oceania, sendo algumas em estado mais avançado de negociação", conta o diretor de projetos e negócios da Empresa de Projetos Aeroespaciais (Alada), Paulo Ricardo da Silva Mendes

A Alada é a estatal criada em 2024 pelo governo Lula com o objetivo de prospectar clientes para uso da infraestrutura e dos serviços de lançamentos de Alcântara, bem como intermediar a interação desses clientes com os órgãos públicos locais que emitem as autorizações.

O faturamento dos contratos será convertido em investimentos na própria infraestrutura local. A base vinha sendo pouco utilizada. Agora, pode transformar-se em um trunfo, pois faltam centros espaciais disponíveis no planeta

Nessa preparação, o Brasil firmou um acordo de salvaguardas tecnológicas com os Estados Unidos em 2019, no governo Bolsonaro. O acordo protege a tecnologia norte-americana, o que é considerado um passo essencial para viabilizar os lançamentos, uma vez que cerca de 80% da tecnologia empregada nos veículos vem de lá.

"O mercado aeroespacial cresceu rapidamente. Criou-se aí uma janela que o Brasil não pode perder. O que buscamos é explorar a capacidade de lançamento, a valor justo de mercado, e colocar o País dentro desse mercado mundial", diz Silva Mendes.

Mercado trilionário

O setor de satélites, foguetes e bases de apoio movimentou US$ 220 bilhões no mundo em 2025, com tendência de chegar a US$ 315 bilhões (cerca de R$ 1,6 trilhão) até 2034, segundo a consultoria Global Market Statistics.

A quantidade de satélites ativos em órbita deve saltar de 11,7 mil, em 2025. para 30 mil, em 2030, chegando a 60 mil, em 2040, segundo relatório produzido pela Força Espacial dos EUA (o braço militar criado no primeiro mandato de Donald Trump).

Alcântara, por sua vez, tem potencial para atender cerca de 90% dos lançamentos, estima o coronel Adalberto de Rezende Rocha Júnior, diretor do centro espacial. "Alcântara está se transformando para absorver uma parte dessa demanda e ser um agente global", diz.

A infraestrutura dali é capaz de atender foguetes de pequeno e médio portes, com capacidade de levar para órbita entre 20 a 50 toneladas de carga, o que representa a maior parte dos lançamentos. A título de comparação, é uma faixa compatível com o Falcon, da SpaceX, que carrega até 23 toneladas, mas abaixo do 'supercargueiro' Falcon Heavy, de até 64 toneladas.

"Nossa infraestrutura já está totalmente adequada para o mercado. E se mais empresas vierem no futuro, aí precisaremos de investimentos", complementa Rocha Júnior.

Vantagens

O grande diferencial de Alcântara é a sua localização próxima da Linha do Equador, considerada o 'filé mignon' da órbita, onde fica a maioria dos satélites geoestacionários (que ficam 'parados' em relação à Terra, monitorando pontos específicos). Nessa latitude, o gasto de combustível para impulsionar o foguete é cerca 30% menor do que em outras partes do globo.

Outra vantagem é que o tráfego no Maranhão é baixo, sem necessidade de grandes mudanças no fluxo de aviões. A região tem poucos moradores e não tem histórico de desastres climáticos. Por fim, sua principal concorrente, Kourou, centro espacial da Guiana Francesa, já está praticamente lotada de lançamentos europeus, com pouca margem para crescer.

Dentro deste cenário favorável, o Brasil deve atingir a cadência de um lançamento por mês no curto a médio prazo, estima o coordenador de Licenciamento da AEB, Danilo Sakay.

"Já será um bom começo e com capacidade de expandir mais para frente". Segundo ele, a criação da Alada foi um passo importante para o Brasil entrar nesse mercado. "Existe uma logística por trás. Antes, eram só lançamentos brasileiros, então o próprio governo se arranjava. Agora vão envolver empresas estrangeiras, o que requer organização".

A sul-coreana Innospace fará em breve o seu segundo lançamento no Maranhão. O primeiro ocorreu em dezembro de 2025, mas o veículo explodiu após 33 segundos no céu devido a um vazamento de gases de combustão. A causa do acidente foi do projeto do foguete, não na base, diz o diretor da Alada.

"É como um avião. Se decolou e caiu, não é culpa da infraestrutura do aeroporto".

Virada

O Centro Espacial de Alcântara foi inaugurado em 1983 para ser o ponto de lançamento de um foguete brasileiro, mas isso não teve o sucesso esperado. Houve três tentativas. A última ocorreu em 2003, a maior tragédia do programa espacial brasileiro, quando a explosão do veículo matou 21 profissionais do setor.

"Junto com eles se foi também todo nosso conhecimento sobre foguetes. Eles eram nossa referência, nossos heróis. Aí ficamos parados no tempo", observa o diretor do espacial.

"Nessa época, a Índia estava no mesmo patamar que nós. Hoje, ela pousa no lado oculto da Lua e nós não", diz, referindo-se à missão indiana não tripulada que chegou ao polo sul lunar em 2023.

Nos anos seguintes, Alcântara foi reformada e passou a atender voos suborbitais - que não são capazes de lançar satélites em órbita, mas servem para experimentos científicos em ambientes de baixa gravidade. Já o projeto de um foguete próprio sofreu cortes de orçamento e dificuldades no desenvolvimento da tecnologia necessária.

Com o centro espacial pouco utilizado e o mercado crescendo, veio a virada na estratégia, com a busca de clientes corporativos.

"Ainda queremos lançar nosso foguete, mas vislumbramos esse lado comercial, pois o mercado está superaquecido", aponta Rocha Junior.

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