O avanço das florestas plantadas e a chegada de novos empreendimentos industriais estão consolidando Mato Grosso do Sul como um dos principais polos mundiais de produção de celulose. O Estado já soma 2 milhões de hectares de florestas, área quase seis vezes maior do que a registrada em 2010, e deve ampliar esse número nos próximos anos com a implantação de novas fábricas.
Apesar das perspectivas de crescimento, o setor enfrenta desafios que podem comprometer a competitividade da atividade, principalmente relacionados aos custos de produção, à disponibilidade de mão de obra e às condições de financiamento.
Em entrevista ao Correio do Estado, o presidente da Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas (Reflore-MS), Júnior Ramires, avalia o desempenho do setor em 2026, projeta os próximos anos e aponta as oportunidades abertas pela expansão da cadeia florestal. Confira a entrevista.
Como avalia o desempenho do setor de florestas plantadas em Mato Grosso do Sul este ano? Quais foram os principais avanços e os fatores que mais influenciaram os resultados até agora?
Dois mil e vinte e seis é um ano de transição e de afirmação para o setor florestal de Mato Grosso do Sul.
Chegamos a cerca de 2 milhões de hectares de florestas plantadas – em 2010 eram pouco mais de 340 mil [hectares] – e acompanhamos a construção da fábrica da Arauco em Inocência, que já reúne mais de 11 mil trabalhadores no canteiro e deve entrar em operação no segundo semestre de 2027. Ao mesmo tempo, o projeto da Bracell em Bataguassu avança no licenciamento.
Do lado do mercado, o primeiro semestre foi de preços de celulose pressionados, real valorizado e custos em alta, sobretudo de fertilizantes e combustíveis, o que apertou as margens em toda a cadeia.
A partir do segundo trimestre houve sinais de recuperação dos preços, mas o cenário continua exigindo disciplina de custos.
Os fatores que mais pesaram foram o ciclo internacional da celulose, o custo dos insumos e o custo de capital.
Com juros elevados, financiar uma atividade de longo prazo como a floresta, que leva de seis a sete anos para gerar a primeira receita, ficou mais caro e exige mais cautela nos novos plantios.
No clima, 2026 foi um ano atípico, com chuvas bem acima da média e um período de estiagem mais curto, o que favoreceu o desenvolvimento das florestas.
Mesmo assim, mantivemos o alerta com toda a estrutura da campanha Fogo Zero, que a Reflore-MS coordena pelo 14º ano, com mais de 140 torres de monitoramento integradas entre as empresas associadas.
Quanto a área de florestas plantadas no Estado deve crescer nos próximos anos? Quais regiões concentram o avanço mais expressivo da atividade?
O governo do Estado trabalha com a perspectiva de chegar a 2,5 milhões de hectares nos próximos anos, e a entrada em operação das novas fábricas deve sustentar esse movimento. Pela nossa leitura, os dois novos projetos industriais, da Arauco e da Bracell, vão exigir juntos algo em torno de 700 [mil hectares] a 900 mil hectares de florestas em produção – parte em novas áreas e parte já incluída nos 2 milhões de hectares atuais.
A expansão se concentra na região leste, no chamado Vale da Celulose: Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Água Clara, Selvíria, Brasilândia, Inocência e, mais recentemente, Bataguassu e Santa Rita do Pardo.
E o efeito vai muito além do plantio: viveiros, preparo de solo, manejo, colheita, transporte, manutenção de máquinas, comércio e serviços formam uma cadeia que movimenta a economia desses municípios.
MS ainda tem espaço para ampliar significativamente a área de eucalipto ou o setor começa a se aproximar de um limite econômico e territorial? Quais fatores determinam esse potencial de expansão?
Há espaço, sim. O eucalipto ocupa pouco mais de 5% do território, e o Estado ainda tem milhões de hectares de pastagens de baixa produtividade.
Entre 2010 e 2025, a área de pastagem caiu cerca de 5 milhões de hectares, absorvidos pela soja, pelo eucalipto e pela cana, acompanhando a intensificação da pecuária. O limite, portanto, não é territorial.
O que existe é um limite econômico local. A floresta precisa estar a uma distância viável da fábrica, porque o frete pesa muito no custo da madeira. Nas regiões mais próximas das indústrias, a terra e o arrendamento já se valorizaram bastante, e o plantio vai se afastando, o que aumenta o custo logístico.
O potencial de expansão depende de demanda industrial firme, da distância até a fábrica, do preço da terra e da aptidão de solo e clima, com clones adaptados aos solos arenosos e ao deficit hídrico.
Mas hoje os dois fatores que mais limitam o crescimento são de infraestrutura. O primeiro é a infraestrutura logística do Estado: rodovias e ferrovias que não acompanharam o volume de madeira e celulose.
O segundo é a infraestrutura social dos municípios – moradia, saúde, educação e serviços – necessária para atrair e fixar os novos moradores e trabalhadores que toda a cadeia exige. Com esses fatores equilibrados, MS tem condições de seguir crescendo de forma consistente.
Com os projetos industriais de celulose e os investimentos anunciados para o Estado, qual é a perspectiva de crescimento da demanda por madeira? Há novos projetos ou ampliações que podem mudar a escala da atividade florestal?
A demanda por madeira vai crescer de forma expressiva. As fábricas em operação – da Suzano, em Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo, e da Eldorado, em Três Lagoas – já têm suas bases florestais estruturadas. A mudança de escala virá dos novos projetos.
A Arauco, em Inocência, terá capacidade de 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano, com investimento de US$ 4,6 bilhões e início de operação previsto para o segundo semestre de 2027.
A Bracell, em Bataguassu, está em licenciamento, com capacidade de cerca de 2,9 milhões de toneladas por ano e consumo estimado de 12 milhões de metros cúbicos de eucalipto por ano.
Hoje o cluster florestal do Estado – celulose, siderurgia a carvão vegetal, painéis e biomassa/cavaco – consome cerca de 35 milhões de metros cúbicos de madeira por ano. Somente os dois novos projetos de celulose devem acrescentar mais de 20 milhões de metros cúbicos por ano a essa demanda.
Há ainda uma demanda nova e crescente que merece atenção: a biomassa para as usinas de etanol de milho. Essas indústrias usam o cavaco de eucalipto como fonte de energia nas caldeiras e, com a expansão do etanol de milho em MS, passaram a ser compradoras relevantes de madeira.
É um mercado que diversifica os compradores além da celulose e abre oportunidades importantes, especialmente para o produtor florestal independente.
Esse crescimento abre espaço para produtores independentes e investidores, mas depende de demanda internacional firme e de infraestrutura para levar a madeira até a fábrica e a celulose até o porto.
Quais são hoje os principais componentes do custo de produção da madeira em MS? Como as despesas afetam a competitividade do setor?
O custo da madeira tem três grandes blocos. O primeiro é a terra, na compra ou no arrendamento, que se valorizou bastante nas regiões próximas às fábricas.
O segundo é a formação e a manutenção da floresta: mudas clonais, preparo de solo, fertilizantes, controle de formigas e de plantas daninhas, prevenção de incêndios e monitoramento de pragas.
O terceiro, e mais pesado, é colheita e transporte, um custo muito pesado na composição da madeira entregue na fábrica.
Há ainda um custo que muitas vezes fica fora da conta: o custo de capital. A floresta imobiliza recursos por seis a sete anos antes da primeira colheita, e com juros altos esse dinheiro parado fica muito mais caro.
Isso pesa diretamente na viabilidade de projetos de longo prazo e afeta principalmente o produtor independente, que não tem o mesmo acesso a crédito que as grandes indústrias.
Nos últimos anos, fertilizantes, defensivos, diesel e máquinas subiram acima da inflação, e o arrendamento acompanhou a valorização das terras. A mão de obra também ficou mais cara e mais escassa, o que acelera a mecanização.
A competitividade depende da produtividade por hectare e de reduzir a distância média entre a floresta e a fábrica. Cada quilômetro a mais no raio de transporte encarece a madeira. Por isso, logística e planejamento territorial são tão importantes quanto o custo de implantação.
Quais são os principais desafios ambientais para ampliar a área de florestas plantadas no Estado, especialmente diante das mudanças climáticas, da irregularidade das chuvas e da necessidade de preservar recursos hídricos?
O clima é hoje o principal risco ambiental e produtivo. Estiagens mais longas e chuvas irregulares afetam o crescimento das florestas, aumentam o risco de incêndios e favorecem algumas pragas.
A resposta passa pelo melhoramento genético, com clones mais tolerantes ao deficit hídrico e adaptados aos solos arenosos do Estado, e por um manejo que respeite a capacidade de cada região.
Os incêndios são a ameaça mais imediata. Por isso, a Reflore-MS coordena, há 14 anos, a campanha Fogo Zero, com mais de 140 torres de monitoramento integradas, compartilhamento de aeronaves e equipamentos entre as empresas e ações de educação nas comunidades.
Na fitossanidade, mantemos um grupo de trabalho dedicado ao monitoramento de pragas e doenças, como o gorgulho-do-eucalipto, em parceria com a Embrapa e o governo do Estado.
Quanto à água e à biodiversidade, as florestas plantadas são manejadas em mosaico com áreas de preservação permanente e reservas legais, e grande parte delas segue padrões internacionais de certificação, que exigem monitoramento de recursos hídricos e da fauna. O próximo passo é ampliar a conexão entre esses fragmentos, formando corredores ecológicos.
A expansão das florestas e das fábricas de celulose tem sido acompanhada pela formação de mão de obra na mesma velocidade?
Não na mesma velocidade. A expansão florestal e as obras industriais criaram uma demanda por pessoas maior do que a capacidade de formação dos municípios. Só o canteiro da Arauco, em Inocência, reúne mais de 11 mil trabalhadores, em um município de cerca de 9 mil habitantes.
Faltam principalmente operadores de máquinas florestais, como harvester e forwarder, mecânicos e técnicos de manutenção, motoristas habilitados para composições de carga pesada, técnicos florestais e de segurança do trabalho, além de brigadistas para a prevenção de incêndios.
Ao mesmo tempo, a mecanização, a automação e as ferramentas digitais exigem novas habilidades, o que torna a capacitação ainda mais importante.
Nos municípios menores, o desafio vai além do curso: envolve moradia, saúde, educação e transporte para fixar o trabalhador.
{ PERFIL }
Luiz Calvo Ramires Jr.
É empresário e executivo do setor de florestas plantadas, sócio-diretor das Empresas Ramires e CEO da Ramires Reflortec S/A, estando à frente da área florestal do Grupo Ramires há 30 anos.
Sua trajetória profissional está inserida na história de um grupo empresarial com mais de cinco décadas de atuação no setor florestal.
Em 2005, fundou a Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas (Reflore-MS), entidade que presidiu de 2005 a 2013 e de 2021 a 2025, seguindo à frente da associação este ano.
Sua atuação institucional também inclui a coordenação da Câmara Setorial de Florestas Plantadas em Mato Grosso do Sul, a presidência da Câmara Setorial de Florestas Plantadas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e a vice-presidência da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), entidade da qual é conselheiro.


