Reflexão

Schopenhauer, filósofo: "O homem comum preocupa-se em passar o tempo; o inteligente, em como usá-lo"

Essa máxima está presente em sua obra Parerga e Paralipómena.

A relação que cada pessoa estabelece com o tempo revela muito sobre sua vida interior. Arthur Schopenhauer, filósofo alemão nascido em 1788, sintetizou que o homem comum quer deixar o tempo passar, enquanto o inteligente reflete sobre como aproveitá-lo bem.

Essa máxima, presente em sua obra Parerga e Paralipómena, publicada em 1851, expõe uma divisão profunda entre dois modos de estar no mundo. De um lado, quem foge do vazio interior através de distrações superficiais; do outro, quem cultiva sua própria riqueza mental como defesa contra o tédio.

A forma como cada um passa as horas não é trivial — ela define, para Schopenhauer, a qualidade da existência e o grau de liberdade pessoal.

A luta entre o desejo e o tédio

Reconhecido como o principal expoente do pessimismo filosófico do século XIX. Schopenhauer via a existência humana como uma oscilação constante entre dois polos: o sofrimento causado por desejos não realizados e o tédio que surge quando esses desejos são saciados. Nesse intervalo, o tempo se torna um fardo.

Sem interesses profundos que o mobilizem, o homem comum sente as horas como inimigas a serem destruídas.

Ele busca fugir em entretenimentos banais, como fofocas, jogos de azar e diversões que adormecem o pensamento. Assim, evita enfrentar o vazio da própria mente. Para Schopenhauer, essa atitude condena a pessoa à banalidade, a uma vida passiva em que o tempo apenas transcorre sem deixar marcas de significado.

A inteligência como ponte para o significado

Em contraste, o homem inteligente não teme a solidão nem o ócio. Ele vê no tempo uma oportunidade para criar, aprender e conhecer. Sua capacidade de pensar transforma as horas em matéria-prima para a construção pessoal por meio da leitura, da ciência, da arte e da observação da natureza.

A contemplação estética era, para Schopenhauer, uma das principais formas de aliviar o sofrimento e preencher a existência com propósito.

O filósofo afirmava que a felicidade verdadeira brota de dentro do sujeito. Quanto mais rico é o espírito, menos espaço sobra para o tédio ocupar. Isso não significa estar sempre fazendo algo: significa escolher conscientemente atividades que tragam valor real. Ler com atenção, ouvir música com presença ou descansar de forma consciente constituem formas legítimas de construção pessoal.

Uma reflexão para o tempo presente

Autor de O mundo como vontade e representação, publicado originalmente em 1818, Schopenhauer construiu seu pensamento sob forte influência das teses de Immanuel Kant. Destacou-se pela prosa clara, rara entre os filósofos de sua época, e manteve atuais suas reflexões sobre morte, felicidade e religião.

Hoje, em uma sociedade que valoriza a produtividade visível, a filosofia schopenhaueriana oferece um convite à pausa reflexiva. A pergunta central permanece válida: cada pessoa gasta suas horas em objetivos que importam, ou apenas procura formas de escapar da angústia?

O filósofo não pregava o trabalho frenético como sinônimo de sucesso — apenas que a qualidade do tempo depende inteiramente do propósito que cada um lhe atribui. A diferença, no fim, reside na decisão consciente de quem usa sua inteligência para transformar o vazio em um espaço de crescimento pessoal.

Quando aproveitar bem o tempo não significa estar sempre ocupado

A distinção de Schopenhauer entre o homem comum e o homem inteligente não está em quem trabalha mais ou faz mais coisas. Descansar conscientemente, sem culpa, também é uma forma inteligente de usar o tempo.

Dormir bem, repousar a mente e estar em silêncio — atividades aparentemente "passivas" — podem contribuir para a construção pessoal quando feitas com presença e intenção, não como fuga.

O erro seria pensar que o homem inteligente está sempre produzindo algo visível. Schopenhauer deixa claro que a felicidade verdadeira brota de dentro, e às vezes isso requer simplesmente parar. A qualidade do repouso importa mais que a ausência dele.

O que significa transformar sua vida interior em defesa contra o tédio

Se a vontade irracional causa sofrimento constante e o tédio surge quando os desejos são atendidos, a pessoa fica presa entre dois males. Schopenhauer propõe cultivar uma vida interior rica, por meio da leitura, do aprendizado e da contemplação, para reduzir o espaço ocupado pelo tédio.

Um espírito vazio sente as horas como um peso; um espírito rico tem recursos próprios para preenchê-las.

Na prática, essa autossuficiência mental se torna a melhor proteção. A pessoa deixa de depender tanto de distrações externas, de outras pessoas ou de situações para se sentir viva. A autonomia valorizada por Schopenhauer consiste em usar a inteligência para não se tornar escravo do tédio nem do desejo desesperado.

Literatura

Machado de Assis: "A amizade é como um círculo e como um círculo não tem começo nem fim"

Escritor deixou marcas profundas na literatura portuguesa e brasileira

30/10/2026 12h05

Imagem: Marc Ferrez/Wikimedia Commons

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Machado de Assis (1.839-1908) deixou marcas profundas na literatura portuguesa e brasileira. Sua vida pessoal, porém, também foi marcada por histórias intrigantes. O escritor carioca viveu experiências que moldaram seu caráter e sua criação artística, revelando um homem de muitas facetas além das páginas que o tornaram imortal.

Entre as frases frequentemente associadas ao escritor está a reflexão: “A amizade é como um círculo e como um círculo não tem começo nem fim”. O pensamento representa a continuidade e a natureza duradoura dos laços afetivos. No entanto, a autoria não é confirmada: não há registro oficial dessa frase em nenhuma obra canônica de Machado de Assis.

Nascido no Rio de Janeiro, Machado cresceu em um ambiente de escravidão e teve acesso a uma oportunidade educacional rara para a época. Seu avô havia sido escravo em uma chácara no morro do Livramento, onde o próprio escritor veio ao mundo e foi batizado por Maria José de Mendonça Barroso, dona da propriedade.

Foi ali que Machado aprendeu a ler — o primeiro passo de sua trajetória.

Tradutor, fundador e presidente

Machado não se limitava à criação original: foi responsável por uma das primeiras traduções de O Corvo, de Edgar Allan Poe. O escritor brasileiro dominava o francês — há relatos de que aprendeu o idioma com um padeiro — e também verteu Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, para o português.

Essa versatilidade linguística era rara entre os intelectuais brasileiros do século XIX. Machado foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e recebeu a cadeira número 23. Na época, a cadeira número 1 havia sido designada a José de Alencar. Ele também foi o primeiro presidente da instituição, consolidando seu lugar como figura central da cultura nacional.

O xadrez, seu passatempo intelectual, também o levou a competir. Machado ficou em terceiro lugar no primeiro Campeonato Brasileiro da modalidade, e as peças que utilizou continuam expostas na Academia até hoje.

 

A genialidade científica antes da ciência

Em seu romance Anjo Rafael, Machado descreveu uma condição que a medicina ainda não havia identificado. A narrativa relata como uma filha é "contagiada" pela loucura do pai e também desenvolve a doença. Pesquisadores batizariam esse fenômeno de folie à deux anos depois.

Na mesma obra, Machado já sugeria a cura: afastar a pessoa saudável de quem padecia do transtorno mental. Sua vida pessoal se dividia entre a solidão e a companhia. Machado foi casado por 35 anos com Carolina Machado, quatro anos mais velha. Não tiveram filhos, mas Carolina era muito inteligente e ajudava com rigor na revisão dos textos.

Quando Carolina faleceu, Machado sofreu uma profunda depressão e escreveu ao amigo Joaquim Nabuco sobre sua dor e sua filosofia dos laços humanos.

Apelidos, erros e carreiras múltiplas

Os vizinhos passaram a chamá-lo de "Bruxo do Cosme Velho" depois de vê-lo queimar cartas em um caldeirão na Rua Cosme Velho, onde morava. O apelido ganhou força quando o poeta Carlos Drummond de Andrade compôs A um bruxo, com amor, poema que reverenciava o escritor.

Antes de morrer, Machado já havia atuado como crítico teatral, desde os 21 anos, escrito nove textos para o teatro e trabalhado como jornalista. Na juventude, também vendeu doces feitos pela madrasta e engraxou sapatos.

Em 1888, o imperador Dom Pedro 2º o condecorou com a Ordem da Rosa. Meses depois, Machado foi indicado para a Secretaria da Agricultura e ocupou o cargo de diretor-geral da viação da Secretaria da Indústria. Sua vida profissional corria em paralelo à criação literária: dividia-se entre responsabilidades públicas e a literatura.

Também enfrentou preconceito por ser mulato para conseguir o reconhecimento que merecia. Machado era epilético, apresentava sinais de gagueira e tinha personalidade insegura e reclusa. Um episódio ilustra sua atenção minuciosa: no prefácio da segunda edição de Poesias Completas, publicada em 1902, a palavra "cegara" (na expressão "lhe cegara o juízo") foi substituída por "cagara" — um erro tipográfico humilhante.

Há relatos de que o próprio Machado teria se envolvido em um mutirão para corrigir os exemplares antes da distribuição, mas alguns escaparam pela cidade, perpetuando a gafe.

Por que Machado de Assis enfrentava preconceito apesar de seu talento?

Machado era negro — ou, como se dizia na época, mulato — e enfrentava um obstáculo imenso no Brasil do século 19: o preconceito racial. Também era gago, sofria de epilepsia e vinha de uma família pobre, de origem humilde. Seu pai era pintor de paredes, e sua mãe, lavadeira.

Mesmo bem-sucedido como escritor e funcionário público, Machado teve de enfrentar preconceito para conseguir o reconhecimento que merecia. Apesar dessas barreiras, construiu uma carreira literária e pública que o consolidou como figura central da cultura brasileira.

Reflexão sobre alma

Camilo Castelo Branco: "As almas infelizes envelhecem cedo"

Camilo foi o primeiro escritor de língua portuguesa a conseguir viver exclusivamente com os ganhos em suas obras

30/10/2026 11h34

Imagem: Autor desconhecido/Wikimedia Commons

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Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa em 16 de março de 1825 e se tornou um dos maiores romancistas da literatura portuguesa do século XIX.

Sua obra, que ultrapassa 260 títulos entre romances, novelas, contos, peças teatrais, poesia, crônicas, textos históricos e traduções, consolidou-o como figura central do ultrarromantismo português. A importância de Castelo Branco na literatura portuguesa, porém, não se resume à quantidade e à qualidade de suas criações.

Ele foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver unicamente dos ganhos de suas obras, transformando a escrita em uma atividade economicamente viável numa época em que ela era, para muitos, apenas um passatempo secundário. O reconhecimento veio em 1885, quando o rei D. Luís I o agraciou com o título de 1.º Visconde de Correia Botelho.

A orfandade que moldou o criador

A trajetória pessoal de Castelo Branco começou marcada por perdas precoces. Aos dois anos, perdeu a mãe; aos nove, ficou órfão de pai. Essas experiências marcariam sua vida e sua obra.

A orfandade o colocou cedo diante de uma realidade dura. Castelo Branco transformou essa experiência em tema recorrente de seus escritos, com personagens marcados pela dor, pelo abandono e pela busca de sentido em um mundo hostil.

O ultrarromantismo valorizava o sofrimento individual e o conflito interior. Castelo Branco transformou a própria experiência de perda em narrativas que refletiam a visão de mundo do movimento e tocavam seus leitores.

Sua versatilidade em múltiplas formas de expressão literária — do romance à crônica, da poesia à tradução — permitiu que explorasse o sofrimento humano sob diversos ângulos.

 

O escândalo que marcou vida e criação

Em 1860, Castelo Branco iniciou um relacionamento com Ana Plácido, casada com Manuel Pinheiro Alves. O caso provocou um dos maiores escândalos públicos de Portugal no século XIX. Os dois foram presos na Cadeia da Relação, no Porto, acusados de adultério, crime que sofria forte condenação social e legal na época.

Embora ambos tenham sido posteriormente absolvidos, a experiência deixou marcas profundas em sua vida pessoal e em sua produção literária. Após a absolvição, Castelo Branco e Ana Plácido casaram-se e ela permaneceu como sua companheira nos anos seguintes.

Durante esse período de turbulência e encarceramento, sua capacidade criativa não arrefeceu. Foi nessas circunstâncias que escreveu Amor de Perdição em apenas 15 dias, romance que se tornaria sua obra-prima e um de seus textos mais lembrados. O livro mostra como sua criação literária se manteve mesmo sob condições adversas.

O fim trágico de um homem atormentado

Os últimos anos de Castelo Branco foram marcados por sofrimento crescente. A sífilis o levou progressivamente à cegueira, enquanto a depressão profunda debilitava suas forças físicas e mentais.

Em 1º de junho de 1890, aos 65 anos, suicidou-se com um tiro em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão. Sua existência terminou de forma tão trágica quanto as histórias que havia criado.

Seu fim reflete, de forma amarga, a própria filosofia que permeia suas obras: a luta constante contra a infelicidade, o declínio inexorável e a impossibilidade de escape diante do sofrimento.

A sentença que se tornou sua marca — "as almas infelizes envelhecem cedo" — sintetiza não apenas a visão de mundo que atravessa sua criação literária, mas também a trajetória de um homem que viveu intensamente a condição humana em seus momentos mais vulneráveis e sombrios.

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