Gênio da música

John Lennon: "Não sei o que vai acabar primeiro, o rock 'n' roll ou o cristianismo"

Comentário acabou se tornando um dos episódios mais conturbados da carreira dos Beatles

Um comentário feito meses antes por John Lennon em uma entrevista concedida na Inglaterra viria a se transformar, em julho de 1966, em um dos episódios mais turbulentos da carreira dos Beatles nos Estados Unidos. Lennon comparou a popularidade da banda à de Jesus Cristo, mas o comentário só ganhou dimensão quando a revista Datebook o republicou naquele mês.

A fala havia sido registrada em 4 de março de 1966 pela jornalista Maureen Cleave, que preparava para o London Evening Standard uma série de perfis sobre a rotina de cada integrante da banda, intitulada "Como vive um Beatle?". Na Inglaterra, o trecho passou despercebido, incorporado ao cotidiano da banda. A repercussão mudaria quando ele atravessasse o Atlântico e chegasse aos leitores americanos do Cinturão Bíblico.

A provocação que incendiou os Estados Unidos

Na ocasião, Lennon previu o declínio do cristianismo, argumentando que a popularidade da banda já superava a de Jesus, e colocou em dúvida se seria o rock ou a fé cristã a desaparecer primeiro. Sem grande expressão até aquele momento, a publicação deu destaque à frase dentro de uma reportagem sobre as dez figuras adultas mais admiradas e mais odiadas pelos jovens leitores. As vendas chegaram a cerca de um milhão de exemplares.

A repercussão foi imediata nas regiões de maior conservadorismo religioso. Emissoras de rádio retiraram as músicas dos Beatles da programação, e igrejas organizaram protestos e atos públicos de repúdio à declaração de Lennon nos Estados Unidos.

Fãs atearam fogo em discos e lembranças da banda em praças públicas, o episódio mais lembrado desses atos aconteceu no Texas, onde a emissora KLUE organizou uma queima pública de discos da banda em sinal de protesto. Ameaças de morte circulavam contra os músicos e suas famílias, enquanto uma turnê americana já estava marcada para os meses seguintes.

A coletiva de imprensa em Chicago

Pressionado pela repercussão, Lennon compareceu a uma coletiva de imprensa em Chicago em 11 de agosto para esclarecer a declaração. Ele disse que mencionar a televisão em vez dos Beatles teria evitado a reação, pois usara a banda apenas como exemplo de como a juventude britânica via a religião naquele momento.

O Beatle negou qualquer intenção de desrespeitar Jesus Cristo ou colocá-lo no mesmo patamar de uma pessoa comum, atribuindo toda a controvérsia a uma interpretação equivocada de suas palavras. A resposta tentava reconectar com o público religioso americano, mas o estrago já estava feito — a turnê de 1966 se tornaria a última série de shows comerciais realizada pelo grupo.

 

Reconciliação institucional décadas depois

Com o tempo, a polêmica deixou de ser tratada como uma ruptura definitiva entre os Beatles e comunidades religiosas. Em 2010, quando o fim da banda completou 40 anos, o jornal oficial do Vaticano, L'Osservatore Romano, revisitou o episódio e tratou a fala de Lennon como um acontecimento do passado, já superado pela história.

O texto reconhecia os excessos vividos pelo grupo no auge da fama, mas defendia que a controvérsia pertencia ao passado. A publicação destacava como as composições de Lennon e McCartney permaneciam influentes décadas depois, sugerindo reconciliação simbólica entre a instituição e os músicos.

Ringo Starr reagiu à posição do Vaticano em entrevista à CNN. O baterista afirmou que o Vaticano não havia dito que eles eram satânicos e ainda assim os perdoava, questionando se a instituição não teria coisas mais importantes a dizer além dos Beatles.

O padrão que se repetiria no rock

O episódio de 1966 abriu precedente para confrontos semelhantes entre o rock e instituições religiosas. Décadas depois, bandas de heavy metal como Black Sabbath, Judas Priest, Iron Maiden e Ozzy Osbourne enfrentariam censura comparável à que atingiu os Beatles.

Um caso notório ocorreu em julho e agosto de 1990, quando Judas Priest foi levado a tribunal em Reno, Nevada, acusado de usar mensagens subliminares em "Better by You, Better Than Me", do álbum Stained Class, para induzir dois jovens a um pacto suicida em 1985 — o juiz inocentou a banda.

Mais recentemente, o Sepultura teve show cancelado no Líbano em abril de 2019 sob acusação de "adoração ao demônio", mas bandas de rock locais se reuniram no horário do evento para tocar as músicas do grupo brasileiro.

Décadas depois, costuma-se apontar aquela declaração de Lennon sobre Jesus, feita em julho de 1966, como a origem de um dos primeiros grandes casos de "cancelamento" vividos pelo rock.

Quando a Igreja muda de opinião e a polêmica não desaparece

Em 2010, o Vaticano publicou no L'Osservatore Romano um artigo que classificava a declaração de Lennon como "uma bravata de um jovem às voltas com sucesso inesperado" e elogiava as composições dos Beatles como fontes de inspiração para gerações de músicos. A posição representava um perdão oficial da maior instituição cristã do mundo, o tipo de gesto que poderia encerrar a controvérsia no plano institucional.

A reação de Ringo Starr, porém, mostrou que a reconciliação oficial não encerra a controvérsia. O baterista respondeu com ironia à posição do Vaticano e questionou por que a Igreja precisava dizer que os perdoava, insinuando que a instituição nunca tivera autoridade para condená-los. Para os sobreviventes, o "perdão" de uma instituição poderosa décadas depois soava mais como apropriação de uma narrativa do que como justiça.

Ciência

Após décadas estudando a felicidade, especialistas contam o que mudaram em suas vidas

Juntos, trouxeram mais de 600 anos de pesquisa e trabalho profissional.

27/10/2026 12h27

Foto: Kampus Production/Pexels

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Pesquisadores que dedicaram décadas a investigar o que torna a vida feliz passaram a viver de forma diferente depois de chegar a essas conclusões. Eles dedicaram mais tempo à família, procuraram amigos com regularidade e passaram a valorizar pequenos prazeres que antes deixavam passar despercebidos.

Em janeiro de 2026, 13 estudiosos se reuniram em uma videochamada de três horas para debater essas transformações pessoais e o campo que ajudaram a construir. Juntos, trouxeram mais de 600 anos de pesquisa e trabalho profissional.

Como a felicidade ganhou legitimidade científica

Muitos pesquisadores descartavam a felicidade como algo vago demais para ser estudado com rigor. Um colega disse a Ed Diener que nenhum cientista investigaria o tema, levando-o a trabalhar em outras áreas antes de retomar o assunto.

Diener cunhou o termo "subjective well-being" (bem-estar subjetivo), que se tornou padrão no campo, para dar ao trabalho uma base mais rigorosa. Diener e Easterlin morreram desde então, e o filho de Diener, Robert Biswas-Diener, representou o pai na videochamada de 2026, enquanto a economista Kelsey O'Connor representou Easterlin, seu antigo professor.

Easterlin também havia enfrentado dificuldades para publicar pesquisas sobre a relação entre crescimento econômico e felicidade, porque a comunidade científica duvidava do valor dos dados sobre felicidade. As pesquisas desses pioneiros receberam mais de 1,6 milhão de citações, contra 4 mil de um professor típico ao longo de toda a carreira.

Relacionamentos emergiram como prioridade

O tema mais consistente entre os pesquisadores foi dedicar tempo a outras pessoas. Muitos disseram ter investido mais em casamentos, amizades, encontros cotidianos e convivência com filhos e netos. Alguns até reservavam dias específicos da semana exclusivamente para a família.

Lara Aknin, professora de psicologia social da Simon Fraser University, explica que relacionamentos duradouros geram bem-estar porque não são comparados nem provocam adaptação como os bens materiais. Contar com uma única pessoa já produz efeitos importantes, e quanto mais relacionamentos uma pessoa tem e mais comunidades integra, mais forte é seu senso de bem-estar.

Generosidade e mudanças de rotina

Vários pioneiros observaram que ajudar outras pessoas a serem mais felizes melhorou a própria felicidade. Eles relacionaram essa descoberta a pesquisas sobre generosidade e sobre como as emoções se propagam pelas redes sociais. As pessoas retribuem com frequência atos de bondade e os repassam adiante.

A generosidade não é um jogo de soma zero: quando uma pessoa doa ou ajuda, não esgota sua capacidade de ser generosa, e pelo contrário, a amplia.

Carpe diem

Fernando Pessoa deixou uma reflexão: "Colhe o dia, porque és ele"

Ele defendia fielmente o ideal do "carpe diem"

27/10/2026 11h11

Imagem: domínio público/Wikimedia Commons

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Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, escreveu uma poesia que celebra o momento presente com serenidade e equilíbrio. Influenciado pelo epicurismo e pelo estoicismo greco-latinos, o heterônimo defendia o ideal do "carpe diem": aproveitar o dia porque você é ele, não suas lembranças ou esperanças.

Os versos questionam por que as pessoas fixam o olhar no passado ou no futuro quando a verdadeira segurança está no presente. Também reconhecem que o tempo flui inevitavelmente e que, no mesmo ato em que vivemos, morremos. Essa constatação não gera desespero, mas convida à aceitação tranquila da condição humana.

A visão de Ricardo Reis sobre o presente

Um dos poemas mais conhecidos de Ricardo Reis, publicado em suas "Odes", apresenta dois grupos de pessoas: uns observam o passado e veem o que não existe mais, enquanto outros fixam os olhos no futuro tentando prever o impossível.

O heterônimo questiona essa dispersão da atenção — por que buscar segurança tão longe quando ela está aqui, neste momento que é quem somos.

A mensagem central é clara: colher o dia não significa ignorar a morte ou o futuro, mas reconhecer que apenas o presente oferece realidade tangível e possibilidade de ação genuína. Ricardo Reis procurou atingir a paz sem sofrer desnecessariamente, considerando a vida como uma viagem cujo fluir e fim são inevitáveis.

A formação multifacetada de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888, filho de Joaquim de Seabra Pessoa e Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa. Aos 5 anos, ficou órfão de pai, vítima de tuberculose, e deixou a família em estado de pobreza.

A trajetória de Pessoa foi marcada por perdas significativas desde cedo. Em 1894, com apenas 6 anos, criou seu primeiro heterônimo denominado Chevalier de Pas — o primeiro sinal de sua natureza multifacetada. Em 1895, sua mãe casou-se novamente com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, e a família mudou-se para a África do Sul.

Novas tragédias familiares marcaram sua infância: sua irmã Madalena Henriqueta faleceu em 1901 com apenas 3 anos, e Maria Clara morreu em 1904 com 2 anos. A educação na África — primeiramente num colégio de freiras e depois na Durban High School — moldou sua formação intelectual sob forte influência inglesa.

 

Heteronímia e a renovação literária portuguesa

Pessoa não foi apenas poeta, e também atuou como crítico literário e político, editor, jornalista, publicitário, empresário e astrólogo. A criação de heterônimos — Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Bernardo Soares — refletia essa natureza multifacetada: cada personalidade literária tinha estilo, filosofia e temática próprios.

Em 1902, aos 14 anos, a família retornou a Lisboa. Três anos depois, Pessoa matriculou-se no curso de Filosofia da Faculdade de Letras, mas não o concluiu. A partir de 1915, fundou a Revista Orfeu com modernistas portugueses e transformou a publicação em uma plataforma central da literatura modernista.

Sua obra consolidou Fernando Pessoa como um dos maiores poetas portugueses do modernismo e um dos maiores poetas de língua portuguesa.

Como o "carpe diem" de Ricardo Reis funciona na prática poética

A filosofia de Ricardo Reis não é um simples "aproveite tudo sem pensar". Ela se baseia na aceitação consciente de que o tempo flui inevitavelmente e de que vivemos e morremos no mesmo instante. Essa percepção não gera desespero, mas serenidade, e o poeta busca a paz sem sofrer desnecessariamente.

Não se trata de buscar prazer frenético, mas de compreender que a segurança real está apenas no presente, porque passado e futuro são inacessíveis.

Seus versos funcionam questionando por que desperdiçamos o momento atual buscando segurança em tempos que não controlamos. Ao reconhecer essa verdade, Ricardo Reis propõe que a ação genuína e o bem-estar surgem naturalmente de quem aceita estar aqui, agora, sem a ansiedade de tempos distantes.

Por que Ricardo Reis é discípulo de Alberto Caeiro

Ricardo Reis não criou sua filosofia isoladamente, e ele é discípulo de Alberto Caeiro, outro heterônimo de Pessoa considerado o mestre de todos os heterônimos. Caeiro valorizava a simplicidade e ensinava que sentir era mais importante do que pensar, atribuindo o conhecimento à experiência sensorial direta. Essa influência marca Ricardo Reis: enquanto Caeiro buscava conhecimento pelos sentidos.

Reis traduzia essa lição em uma filosofia de vida que valoriza a experiência presente em vez da reflexão abstrata sobre o passado e o futuro.

A relação entre mestre e discípulo explica também por que Ricardo Reis mantém uma linguagem clássica e erudita — sua formação em Medicina e sua educação em colégio de jesuítas contrastam com a simplicidade de Caeiro, mas ambos compartilham a rejeição ao sofrimento desnecessário e à dispersão mental causada por tempos inacessíveis.

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