Sem esposa e sem filhos, o empresário John Poindexter, de 81 anos, escolheu um destino incomum para o patrimônio que construiu ao longo da vida: uma cidade quase abandonada no oeste do Texas. O magnata da indústria manufatureira de Houston vem direcionando parte de sua fortuna para reerguer Shafter, antigo povoado de mineração que hoje abriga cerca de 25 moradores.
A região onde fica a cidade enfrenta esvaziamento populacional acelerado. O Condado de Presidio registrou queda em seus habitantes na última década, segundo dados do Censo, e convive com renda familiar baixa e ocupação territorial rarefeita.

Uma fundação movimentando milhões
Quase US$ 67 milhões entraram na Fundação Tidewater and Big Bend desde o final de 2020, conforme documentos do IRS reunidos pela ProPublica. Só no ano fiscal encerrado em novembro de 2024, a entidade recebeu US$ 20,6 milhões e fechou o período com patrimônio líquido de US$ 62,5 milhões.
Shafter concentra o principal projeto da fundação, de acordo com o Big Bend Sentinel. Um resort e um museu de história viva fazem parte do plano, reconstruindo estruturas como saloon, loja de artigos gerais. E correio, junto a cerca de uma dúzia de casas de adobe destinadas a temporadas de aluguel.
Herança sem herdeiros diretos
Questionado sobre o destino de sua riqueza sem descendentes para recebê-la, Poindexter respondeu ao jornal americano que nunca se casou e não tem filhos. A resposta explica por que ele optou por transformar seu patrimônio em legado físico, erguido pedra sobre pedra numa cidade que praticamente desapareceu do mapa.
O percurso contrasta com o de Warren Buffett, que decidiu repassar seus US$ 140 bilhões a quatro fundações familiares para que elas definissem o destino dos recursos. Poindexter trilha outro rumo: sem herdeiros para passar o bastão, ele mesmo constrói a estrutura que vai perpetuar seu nome.
O rancho Cibolo Creek, de 12.144 hectares — local onde o juiz Antonin Scalia faleceu em 2016 — será herdado pela fundação, assim como todas as demais propriedades.
Da mina de prata ao abandono
Entre 1.883 e 1942, a mina Presidio de Shafter extraiu 35,2 milhões de onças de prata, segundo a Black Bear Minerals, empresa que hoje detém o local. O fim da exploração mineral esvaziou a cidade quase por completo, deixando-a entregue ao tempo por décadas.
No início de 2025, o bilionário já havia adquirido diversos imóveis em Shafter e proposto recuperar a igreja histórica situada na entrada da cidade, conforme relatou o Big Bend Sentinel.
Opiniões entre os moradores se dividem quanto ao projeto, mas um comércio novo. E um restaurante tendem a ser recebidos com simpatia — hoje, a compra de mantimentos exige viagem de 30 quilômetros até Presidio.
Expectativa de quem ficou na cidade
David Long, morador local e presidente da companhia de água de Shafter, avalia que os esforços de restauração podem atrair novos moradores para o povoado praticamente deserto.
Em entrevista ao Big Bend Sentinel, ele afirmou que a iniciativa funciona como um sinal de alerta para que a comunidade pense no futuro do lugar. E que a chegada de um sistema de abastecimento de água confiável deve impulsionar o crescimento da cidade.
A trajetória de Poindexter até acumular a fortuna também remete a décadas de serviço e Trabalho. Duas Estrelas de Prata e dois Corações Púrpura marcaram seus 14 anos no Vietnã, antes de fundar a JB Poindexter & Co, e após passagem pelo setor financeiro.
O modelo escolhido por ele ecoa outras iniciativas de preservação histórica guiadas por fortunas privadas, caso da restauração promovida pela Fundação Colonial Williamsburg na Virgínia. Enquanto isso, Shafter segue seu processo lento de reconstrução, com uma igreja restaurada e novas casas de adobe se somando ao pequeno punhado de moradores que resistiu ao esvaziamento da região.



