Uma câmera submarina instalada a 260 metros de profundidade sob o gelo do Ártico registrou, na Groenlândia, um peixe nadando de ré. O comportamento é pouco documentado em estudos sobre a vida marinha em águas polares.
A gravação está disponível no YouTube e foi analisada em um estudo publicado na revista científica PLOS One. O cenário escolhido para o experimento foi o fiordo glaciar de Inglefield Bredning, uma região de difícil acesso e pouco explorada pela ciência.
Um plano pensado para narvais
A equipe pretendia acompanhar o comportamento de narvais nessas águas geladas. Para isso, combinou uma câmera de vídeo com um hidrófono, aparelho que registra sons do ambiente submerso. O equipamento foi lançado em 1º de agosto de 2025 e recuperado em 9 de agosto, depois de permanecer cerca de três dias a 260 metros de profundidade.
A equipe escolheu a luz vermelha porque essa cor interfere menos no comportamento dos animais marinhos do que outras tonalidades. Assim, foi possível observar a fauna em condições mais próximas do natural e captar cenas espontâneas sem alterar a rotina das espécies que vivem naquela profundidade.
O achado que surpreendeu os cientistas
Além de narvais, a gravação revelou um peixe-babosa nadando de costas, movimento pouco documentado em pesquisas desse tipo. O animal se deslocou para trás enquanto parecia se deixar levar pela corrente, com a cauda curvada, e permaneceu imóvel por cerca de 16 segundos antes de sair do enquadramento.
Ao todo, foram capturados 223 vídeos, que também registraram medusas, vermes poliquetas, camarões e vários outros peixes.
O hidrófono acoplado à câmera também captou sons do ambiente marinho. Embora os narvais tenham aparecido apenas uma vez diante da câmera, foram a principal fonte de sons biológicos registrados durante quase todos os dias do experimento. O equipamento captou ainda ruído de motores de embarcações e crujidos produzidos por icebergs, sinais da complexidade sonora do ecossistema ártico.
Essa combinação de imagem e áudio deu à equipe uma visão mais completa do que ocorre nas profundezas, onde observações diretas são raras por causa da dificuldade de acesso.

Por que o local é tão especial
O fiordo de Inglefield Bredning fica em uma área remota da Groenlândia, coberta por gelo durante boa parte do ano. Essa condição torna qualquer expedição complexa, já que exige equipamentos resistentes ao frio extremo e capazes de operar sem manutenção humana direta por longos períodos.
Por isso, episódios como o do peixe nadando ao contrário raramente são documentados. Cada operação com equipamentos submersos oferece uma oportunidade de registrar comportamentos que poderiam passar despercebidos pela ciência.
O estudo publicado na PLOS One reforça o valor de métodos não invasivos, como câmeras com luz vermelha e hidrófonos, para entender a vida marinha em regiões polares pouco estudadas. A expectativa é que novas expedições no mesmo fiordo revelem outros comportamentos ainda desconhecidos sob o gelo da Groenlândia.


