Reflexão e Filosofia

Clóvis de Barros Filho refletiu sobre o que realmente precisamos para ter uma boa vida

O que torna a existência verdadeiramente boa?

Uma vida boa se resume a três movimentos simples: desejar o que falta, alegrar-se com o que já se tem e aliviar o sofrimento de quem está por perto, segundo o professor Clóvis de Barros Filho. A síntese parte de uma pergunta antiga, repetida em palestras e entrevistas: o que torna a existência verdadeiramente boa?

A resposta organiza uma sequência que expõe o conflito entre avançar e aproveitar o presente. Para o professor, sem desejo a pessoa se acomoda; mas desejar sem pausa para sentir alegria é correr atrás de algo que nunca se alcança.

Desejar sem esquecer de viver o agora

Fomos treinados para mirar sempre o que ainda não conquistamos. Mal alcançamos um objetivo, surge outro mais distante, e a satisfação da vitória se esvai antes de ser sentida.

Clóvis de Barros Filho defende um ajuste nessa lógica: manter o impulso de buscar novos objetivos, mas aprender a saborear o caminho já percorrido. Não se trata de parar de querer mais, e sim de equilibrar dois tempos na mesma vida: o do movimento e o da pausa para sentir gratidão pelo que já está nas mãos.

Por que a alegria sozinha não dura

O segundo movimento trata da duração da felicidade: vivida isoladamente, ela tende a desaparecer rápido. Uma conquista sem ninguém para comemorar perde força e se esvazia na solidão.

Segundo o professor, dividir a vitória e convidar outras pessoas para celebrá-la prolonga a sensação boa. Cuidar de quem está ao redor e aliviar o peso emocional alheio também traz leveza a quem ajuda, afastando o foco constante em si mesmo.

A formulação que resume a ideia

Para o professor, diminuir a tristeza de quem está perto é o ponto mais alto desse raciocínio: o momento em que a pessoa deixa de agir apenas pelo próprio interesse e consegue superar sua "animalidade feroz" em prol do outro. A alegria que nasce dessa atitude vai além do egoísmo.

Se pudesse levar uma única ideia para uma ilha deserta, levaria esta: fazer com que as pessoas ao redor vivam menos tristemente. Clóvis de Barros Filho é professor livre-docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde construiu boa parte de sua trajetória acadêmica discutindo ética e o bem viver.

Ele também assina com Leandro Karnal o livro "Felicidade ou morte", que trata de ética e bem viver.

Reflexão e Poesia

A constatação de Fernando Pessoa: "A morte é a curva da estrada. Morrer é só não ser visto"

Algo que obscurece a visão, mas não interrompe o caminho.

29/10/2026 13h02

Foto: Reprodução

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O poema ortônimo de Fernando Pessoa, escrito em 23 de maio de 1932, apresenta o fim da vida não como extinção, mas como transformação. Um dos versos mais conhecidos da poesia portuguesa encerra essa reflexão e oferece uma perspectiva serena diante da morte, sem o pavor que comumente a acompanha.

A morte, segundo o poeta, assemelha-se a uma curva na estrada: algo que obscurece a visão, mas não interrompe o caminho. Nessa concepção, morrer é simplesmente deixar de ser visto por quem fica — uma desaparição da presença no sentido físico e imediato, não uma cessação total da existência.

A persistência através da audição e da memória

O verso seguinte desenvolve essa ideia: "Se escuto, eu te oiço a passada". Quem se foi deixa rastros: seus passos ainda podem ser ouvidos, e sua essência continua acessível pela lembrança e pelo reconhecimento de quem persiste.

O poema sugere que a morte não apaga totalmente aquele que partiu. Ela transforma sua presença em algo diverso, mas não menos real.

Essa ideia permite ao eu lírico afirmar "Existir como eu existo", sugerindo que há múltiplas formas de existência e que a morte representa apenas uma mudança de estado em um espectro mais amplo. O que desaparece é a visibilidade, não a essência ou o legado de quem viveu.

A harmonia cósmica que dissolve o medo

Os versos finais ampliam o tema da morte e oferecem uma visão unificadora do universo. "A terra é feita de céu" rompe a separação convencional entre os mundos material e imaterial, sugerindo que tudo participa de uma mesma realidade fundamental.

A mentira não tem ninho, estabelecendo a verdade como princípio inviolável. Ao mesmo tempo, sustenta-se que nunca ninguém se perdeu, removendo qualquer possibilidade de desaparecimento absoluto.

A conclusão do poema — "Tudo é verdade e caminho" — sintetiza esta visão integradora. Não há equívoco, não há desvio irrecuperável, e a vida e a morte, o visível e o invisível, formam um trajeto contínuo onde cada etapa é tanto verdade quanto caminho a seguir.

Essa visão apresenta a morte como parte natural de uma jornada que vai além da experiência linear do tempo.

Reflexão e Poesia

João Guimarães Rosa: "Quem passa três rios grandes esquece o seu bem-querer"

A cena pertence ao conto "Duelo", que integra Sagarana.

29/10/2026 12h29

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Um fugitivo atravessa dois rios para aliviar o remorso, e antes de entrar em um terceiro, repete consigo mesmo um antigo ditado sobre distância e esquecimento. A cena pertence ao conto "Duelo", que integra Sagarana, livro de estreia de João Guimarães Rosa, publicado em 1946.

O ditado — "quem passa Três Rios grandes esquece o seu bem-querer" — expressa uma crença popular elementar: o sacrifício da viagem e a separação geográfica conseguem apagar os afetos. O conto, porém, desmente essa sabedoria logo depois.

Quem pronuncia a frase não consegue se libertar do amor, por mais que a distância e a água o separem do que deixou para trás.

Quem é Turíbio todo e por que foge

Turíbio Todo é o nome do fugitivo, e durante a fuga, após atravessar dois rios e hesitar diante de um terceiro, ele pronuncia o ditado consigo mesmo. Acredita ter se vingado matando Cassiano Gomes, o homem que mantinha um relacionamento com sua esposa, Dona Silivana. O erro é fatal — literal e narrativo: Turíbio matou a pessoa errada.

Diante dessa culpa dupla, Turíbio busca nas travessias algo além da fuga física. Na estrutura simbólica do conto, cada margem que deixa para trás representa um passo em direção ao recomeço, uma tentativa de se purificar do passado como quem se banha em águas sagradas.

A ironia do ditado que o personagem enuncia

A sabedoria que Turíbio repete para si mesmo promete alívio. Sugere que atravessar rios grandes — enfrentar a correnteza e chegar a uma margem nova — equivale a deixar o bem-querer, a pessoa amada, dissolver-se na memória. A distância se transforma em cura.

A vida de Turíbio contradiz essa máxima, e mesmo depois de passar pelas águas, o peso afetivo persiste. O amor não desaparece como sugere o ditado; permanece pesado e presente durante a fuga. Rosa constrói a força do trecho justamente nessa contradição: uma sabedoria popular enunciada com convicção, mas desmontada pela experiência real de quem a pronuncia.

Rios como símbolos literários

Na literatura ocidental, rios funcionam frequentemente como marcadores de transformação. Eles separam dois momentos da vida — um antes e um depois, um estado e outro. Atravessar uma correnteza costuma encerrar uma fase e abrir caminho para a seguinte, como se as águas dissolvessem o que era e preparassem o que será.

Em Sagarana, porém, Guimarães Rosa coloca essa função simbólica sob pressão. A geografia do sertão mineiro, tão essencial em sua obra, funciona como cenário e personagem, mas não resolve o conflito interno do fugitivo, e a natureza não cura; apenas acompanha.

Sagarana e o lugar do conto na obra de Rosa

Sagarana reúne nove contos, entre eles "O Burrinho Pedrês", "Sarapalha", "Minha Gente" e "A Hora e Vez de Augusto Matraga". O livro nasceu de uma versão anterior, inscrita por Rosa sob pseudônimo em um concurso literário em 1938, quando conquistou segundo lugar. Essa coletânea é também a primeira publicação que o autor nunca renegou, diferente de trabalhos anteriores.

Rosa recebeu prêmios pela obra, entre eles o Prêmio Filipe d'Oliveira e o Prêmio Humberto de Campos. Em Sagarana já despontam a linguagem inventiva e os temas atrelados à vida rural de Minas Gerais que definiriam toda a trajetória literária do escritor.

"Duelo" exemplifica bem esses traços: um enredo que parece simples — fuga, arrependimento, travessias — mas que revela camadas de significado quando se examina a relação entre o que o personagem diz e o que ele vive.

A distância percorrida não cura o que ficou para trás, por mais rios que se atravessem no caminho. Essa é a lição que o conto sussurra ao leitor, desmentindo em silêncio o ditado que Turíbio repete enquanto busca uma absolvição que as águas nunca lhe darão.

O espaço sertanejo como personagem vivo em Sagarana

Rosa compunha suas histórias a partir do mundo que conheceu na infância e na juventude no interior de Minas Gerais, uma paisagem de fazendas e vaqueiros. Em Sagarana, esse espaço não é pano de fundo mudo: ele "confunde lugares e paisagens, mesclando o real, o imaginário e o lendário".

Os rios que Turíbio atravessa pertencem a uma geografia do sertão que existe tanto no mapa quanto na lenda popular. O livro é "regionalista universalista" porque trata de uma questão local — um homem fugindo pelo sertão mineiro — dentro de conflitos existenciais universais: a impossibilidade de escapar do remorso e o fracasso da distância para curar feridas afetivas.

O espaço não resolve o conflito; apenas serve de palco para seu desenrolar.

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