Sobreviventes

Como pessoas sobreviveram a uma das maiores erupções vulcânicas da história?

Erupção devastou o sul do Japão há mais de sete mil anos

Uma erupção vulcânica devastou o sul do Japão há 7.300 anos e soterrou a região sob metros de cinza vulcânica. A pesquisa moderna, porém, mostra que, enquanto algumas áreas próximas ao vulcão se esvaziaram, outras, a centenas de quilômetros de distância, voltaram a ganhar população nos séculos posteriores à catástrofe.

Pesquisadores das universidades de Cambridge e Lund, em colaboração com colegas das universidades de Kyushu e Aarhus, analisaram 540 datações por radiocarbono de sítios arqueológicos espalhados pelas quatro principais ilhas do Japão.

Eles compararam os 750 anos anteriores à erupção com os 750 anos que se seguiram e reconstruíram padrões de sobrevivência, migração e crescimento populacional. Os resultados contrariaram expectativas simples sobre como desastres vulcânicos afetam as sociedades humanas.

A magnitude da catástrofe vulcânica

O vulcão Kikai-Akahoya é uma caldeira submarina localizada no Mar da China Oriental, cerca de 30 quilômetros ao sul de Kyushu, a ilha mais meridional do Japão. Sua erupção expeliu entre 332 e 457 quilômetros cúbicos de rocha e cinza — volume que rivaliza com poucas erupções desde o final da última era glacial.

Depois de três explosões sucessivas, o teto da câmara magmática colapsou e gerou avalanches de gases quentes e rochas. Elas atravessaram o mar em direção ao sul de Kyushu a velocidades superiores a 160 quilômetros por hora e atingiram temperaturas de 1.000°C. Terremotos devastadores e tsunamis gigantescos atingiram a região antes de ela ser recoberta por metros de cinza vulcânica.

A ponta sul de Kyushu recebeu entre 1 e 2 metros de deposição. A 150 quilômetros do vulcão, o material ainda mede entre 400 e 500 milímetros de espessura compactada.

Camadas com menos de 25 milímetros de cinza permitem que o solo sobreviva e que plantas retornem em uma estação, mas depósitos maiores que 150 milímetros matam o solo enterrado — a formação de novo solo leva séculos.

Publicado na revista Science Advances, o estudo reuniu dados de 540 datações por radiocarbono de sítios arqueológicos nas quatro principais ilhas do Japão.

Declínio populacional antes da erupção

Os primeiros ocupantes dessa região eram os Jomon, coletores-caçadores que se alimentavam de nozes, caça e frutos do mar, mantendo tradições cerâmicas duradouras. Registros de radiocarbono do sul de Kyushu indicam que a população já estava encolhendo antes da catástrofe. As grandes aldeias dos séculos anteriores haviam sido abandonadas há muito tempo, restando apenas pequenas bandas móveis.

A erupção acelerou esse declínio. O sul e o centro de Kyushu registram a queda mais acentuada nos materiais datados de todo o Japão, reflexo de uma combinação de mortes e partidas.

Em Numerikawa Nº 2, no sul de Kyushu, a cinza espessa repousa diretamente sobre um acampamento, sem deixar rastro do estilo cerâmico "sobrevivente" encontrado em outras localidades.

Migração, inovação e crescimento costeiro

Quando as pessoas retornaram à região, deixaram raspadores em vez dos pesados moedores usados por seus predecessores. Os 27 utensílios de obsidiana usados por elas vinham de jazidas situadas mais de 200 quilômetros ao norte.

Brincos de pedra fendida, encontrados apenas em sítios do sul antes da erupção, aparecem em sítios do norte logo depois, sinalizando a formação de novas alianças.

O norte de Kyushu surpreendeu os pesquisadores: embora tenha recebido uma camada espessa de cinza vulcânica, o litoral norte não se esvaziou. Ao contrário, continuou ganhando população nos séculos seguintes à erupção, possivelmente em ritmo acelerado. O mesmo ocorreu na costa norte de Honshu ocidental, nas atuais prefeituras de Shimane e Tottori.

Grupos exploraram ilhas de 40 a 80 quilômetros da costa para caçar mamíferos marinhos, enquanto pontas de arpão de pedra se multiplicavam nas costas do norte.

 

Por que algumas regiões sofreram mais que outras

Regiões distantes, como o centro e o leste de Honshu, desaceleraram ou reverteram seu crescimento depois da erupção, apesar de receberem poucos centímetros de cinza. A baía de Ise, no centro de Honshu, registrou declínio, e o norte distante, incluindo Tohoku, continuou crescendo.

Possíveis causas incluem mudanças climáticas de curto prazo provocadas pelo vulcão e desgaste dentário em veados e javalis que comiam plantas cobertas de cinzas, reduzindo o suprimento alimentar dos Jomon. O fluoreto da cinza pode ter envenenado pessoas e animais, enquanto partículas finas podem ter danificado os pulmões.

Os pesquisadores advertem que a profundidade da cinza, sozinha, não permite prever o que aconteceu em uma região. Camadas espessas ocultam sítios arqueológicos, então parte do declínio no sul pode refletir perda de visibilidade, e não de população. O estudo não conseguiu determinar quanto da cinza explica os padrões observados.

Para investigar as regiões distantes, a equipe pretende medir o desgaste dentário e as deformidades ósseas em restos animais e humanos ao longo da faixa de deposição de cinza, antes e depois da erupção.

Resiliência e adaptação humana

Sobreviventes migraram, formaram novas relações sociais e criaram novas formas de subsistência para viver nas condições pós-desastre. As comunidades não apenas resistiram: aquelas que conseguiram se deslocar e se integrar a novos territórios prosperaram nos séculos seguintes.

Oportunidade nórdica

Noruega procura voluntários para morar de graça em uma fazenda e cuidar de 6 cavalos, 1 cão e 2 gato

Anfitrião confirmou que não é preciso ter experiência prévia com máquinas

26/10/2026 09h48

Foto: Engin Akyurt/Pexels

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Uma fazenda na Noruega busca voluntários para trocar trabalho manual por hospedagem gratuita. A oferta, divulgada na plataforma Worldpackers, pede ajuda para cuidar de seis cavalos, um cachorro e dois gatos em uma propriedade na cidade de Arendal, no sul do país.

Quem aceitar a oferta vai trabalhar 20 horas por semana e, em troca, receberá um quarto privativo durante a estadia. A rotina inclui ainda dois dias de folga para descansar ou explorar a região ao redor da fazenda.

Como funciona a rotina na fazenda

Quatro dos animais pertencem ao anfitrião, enquanto os outros dois são de uma pessoa que aluga espaço nos estábulos da propriedade. Os cavalos puxam troncos retirados da floresta, que mais tarde viram lenha para o inverno.

As tarefas vão além dos cuidados com os animais. Os voluntários também ajudam com pintura, pequenos reparos, carpintaria e limpeza da casa, além de transportar madeira e preparar lenha. Em algumas semanas, o anfitrião se ausenta, e os hóspedes assumem sozinhos os cuidados com os animais.

Quem pode se candidatar à vaga

Segundo o próprio anfitrião, não é preciso ter experiência prévia com máquinas de cortar lenha, embora parte do trabalho exija esforço físico. A candidatura exige fluência em inglês ou nível intermediário de alemão.

Também é necessário contratar seguro-viagem e se comprometer a ficar no local por, no mínimo, três semanas. A oferta aceita tanto viajantes solteiros quanto casais ou duplas de amigos interessados na experiência.

O que a propriedade oferece aos hóspedes

Além do quarto privativo, a fazenda conta com cozinha equipada, internet de alta velocidade e serviço de lavanderia sem custo adicional. Bicicletas ficam à disposição para quem quiser se deslocar pelos arredores nos períodos de descanso.

Quem se interessar precisa procurar a vaga diretamente na Worldpackers, verificar a disponibilidade, revisar as condições da experiência e combinar os detalhes com o anfitrião antes de embarcar para a Noruega.

Reflexão sobre o ser

María Zambrano: "Não se passa do possível para o real, mas do impossível para o verdadeiro"

Filósofa foi uma das vozes mais relevantes do pensamento do século XX

26/10/2026 09h15

Imagem: Fundación María Zambrano / Wikimedia Commons

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Uma frase que María Zambrano escreveu em 1939 continua atravessando decisões e buscas pessoais quase um século depois. A filósofa espanhola, uma das vozes mais relevantes do pensamento do século XX, escreveu: "Não se passa do possível para o real, mas do impossível para o verdadeiro".

Zambrano escreveu a frase no prólogo de Filosofia e Poesia, obra em que investigou a relação entre o pensamento filosófico e a criação poética. O trecho surgiu do relato sobre como seu livro havia se formado em meio a uma situação de extrema impossibilidade.

O que a frase de Zambrano quer dizer

A separação entre o possível e o verdadeiro é o centro do raciocínio da pensadora. Aquilo que chamamos de possível nasce das condições que já conhecemos e conseguimos projetar a partir delas.

Já o impossível marca uma fronteira: parece não caber dentro da realidade tal como ela se apresenta. Ao colocar esse limite ao lado da ideia de verdade, Zambrano sugere que certas experiências, ideias e criações não seguem um caminho previsível — elas surgem exatamente de atravessar essa barreira.

A reflexão funciona como um convite a não tratar o que parece inalcançável como algo sem sentido, embora isso não signifique que toda ideia imaginada vá se tornar realidade.

A Guerra e o exílio por trás do texto

O peso da frase muda quando se conhece o momento em que foi escrita. No prólogo de Filosofia e Poesia, a autora afirmou que o próprio livro havia nascido, e não sido construído. Recorreu a essa mesma lógica entre o impossível e o verdadeiro para explicar o processo.

A obra veio a público em 1939, durante a Guerra Civil espanhola e o exílio da pensadora. Depois de deixar a Espanha, ela chegou ao México, onde deu continuidade ao seu trabalho intelectual. Naquele mesmo ano, publicou dois livros fundamentais: Filosofia e Poesia e Pensamento e Poesia na Vida Espanhola.

 

Razão e poesia como formas de conhecimento

O projeto intelectual de Zambrano questionava os limites da razão tradicional e defendia que a poesia também constitui uma via legítima de conhecimento. Para ela, filosofia e poesia se aproximavam da verdade por caminhos distintos: uma pela reflexão racional, outra pela experiência, pela intuição e pela palavra poética.

Essa fusão entre pensar e sentir explica por que a frase escrita em meio ao exílio segue atravessando contextos e decisões pessoais quase um século depois.

Como o impossível se transforma em verdadeiro

A lógica de Zambrano inverte a ordem que normalmente esperamos. Quando algo parece impossível, isso não significa que lhe faltem realidade ou valor. Significa apenas que não cabe nas condições que já conhecemos e conseguimos projetar.

Para ela, o verdadeiro não é aquilo que podemos antecipar a partir das possibilidades conhecidas, mas o que nos força a atravessar uma barreira de compreensão.

Isso explica por que experiências, ideias e criações genuínas frequentemente surgem de lugares onde a razão tradicional diria "é impossível". Não é magia nem pensamento positivo — é o reconhecimento de que existem descobertas que não podem ser completamente antecipadas a partir do que já sabemos.

O que muda quando acreditamos nessa ideia

Aceitar que o verdadeiro vem do impossível, não do possível, muda a forma como reagimos diante de barreiras. Em vez de descartar algo como "irrealizável" porque não conseguimos projetar seu caminho a partir do que conhecemos, a perspectiva de Zambrano nos convida a reconhecer que talvez ainda não compreendamos como aquilo funcionaria.

Na prática, isso significa não confundir "inalcançável hoje" com "sem valor ou sem sentido". Não é uma promessa de que tudo que imaginamos se tornará realidade, mas um alerta contra desistências prematuras baseadas numa razão que conhece apenas suas próprias limitações.

Quando essa lógica não se aplica

A frase de Zambrano não funciona como uma garantia universal. Ela não significa que todo impossível eventualmente se torna verdadeiro, ou que basta acreditar em algo para que ele se realize.

A distinção que ela propõe — entre o que podemos projetar a partir do conhecido e o que atravessa essa barreira — descreve como certas descobertas acontecem, mas não promete que todos os desejos ou ideias imaginadas seguirão esse caminho.

Se algo é impossível, como pode se tornar verdadeiro?

O impossível aqui não significa "que desafia as leis da natureza", mas aquilo que parece não ter lugar dentro da realidade tal como a entendemos naquele momento. Quando Zambrano escreve isso em 1939, em meio ao exílio e à Guerra Civil, ela descreve como seu próprio livro surgiu de circunstâncias que pareciam não permitir sua existência.

O livro não seguiu a lógica do "possível": nasceu ao atravessar aquela barreira. Muitas criações, descobertas e experiências genuínas funcionam assim, e elas não seguem um caminho previsível porque não cabem nas condições que já conhecemos até o momento em que passam a existir.

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