Diferentes realidades

Enquanto Brasil discute fim da escala 6x1, na Noruega o normal é sair do trabalho às 15h

Sair do escritório no meio da tarde é a realidade dos trabalhadores noruegueses

Sair do escritório no meio da tarde é a realidade dos trabalhadores noruegueses, mesmo em um país cuja legislação prevê 40 horas semanais. Na prática, a jornada média é de 33 horas, e encerrar o expediente às 15h ou 16h passa despercebido entre empregadores e colegas, e é simplesmente a norma.

Essa rotina mais leve levanta uma pergunta: as pessoas estariam trabalhando além do necessário? A questão ganha peso quando cresce a pressão global por jornadas reduzidas, incluindo o Brasil, onde a escala 6x1 enfrenta críticas crescentes.

Números que justificam a mudança

Os indicadores noruegueses mostram que o país perde 2,2 milhões de dias de trabalho por trimestre. Desses afastamentos, 25% estão ligados a esgotamento, burnout e problemas de saúde mental relacionados ao trabalho. Entre os próprios trabalhadores, 27% consideram sair do emprego para dedicar mais tempo à família e à vida pessoal.

Esse descontentamento chamou a atenção da 4 Day Week Global, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para promover a transição para semanas de quatro dias. Com base em resultados positivos observados em países como a Islândia, a entidade decidiu testar a ideia por meio de programas-piloto.

O experimento na Noruega e na Suécia

Um programa de seis meses foi lançado no fim do ano anterior na Noruega e na Suécia, com previsão de se estender até o próximo verão. O teste observa como a população reage a começar o fim de semana. Já na tarde de quinta-feira — uma mudança menos radical do que parece para quem já trabalha 33 horas semanais.

A fórmula aplicada é conhecida como 100-80-100: os trabalhadores recebem 100% do salário, reduzem a carga horária para 80% do habitual e mantêm as mesmas exigências de produtividade. Experiência similar já foi testada em Valência, na Espanha, com resultados que sugeriram ser viável manter a eficiência operacional com menos horas na empresa.

Um padrão norueguês que facilita a adaptação

O hábito já consolidado na Noruega de encerrar o expediente no meio da tarde pode ser uma vantagem para esse teste. Diferentemente do que ocorre em culturas nas quais sair cedo ainda carrega o estigma de desempenho inferior. Lá, antecipar o fim de semana é visto como parte do equilíbrio entre vida profissional e pessoal, um valor amplamente aceito.

Se os resultados confirmarem que menos horas não prejudicam a produtividade, a semana de quatro dias deixará de ser apenas uma experiência isolada. E poderá virar referência para outros países que buscam conciliar produtividade com tempo livre em suas próprias leis trabalhistas.

História de superação

Ele nasceu sem braços e conquistou a CNH no Brasil dirigindo com os pés

A carteira de habilitação saiu há pouco mais de um mês.

25/09/2026 19h33

Foto: Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal

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Um carro adaptado em Pará de Minas mudou a rotina de Reiner Jesus Martins, de 20 anos. Estudante de agronomia em Lavras, no Sul de Minas, ele nasceu sem os dois braços e passou a dirigir usando as pernas.

A carteira de habilitação saiu há pouco mais de um mês e representa uma etapa dentro de uma trajetória construída desde a infância. Antes de chegar à aprovação, Reiner passou pela avaliação de uma junta médica do Detran, responsável por definir as adaptações necessárias ao veículo.

Como foi o caminho até a aprovação

Encontrar uma autoescola com carro compatível com as adaptações exigidas não foi tarefa simples. Foi em Pará de Minas que ele localizou a estrutura certa para iniciar as aulas práticas seguindo o laudo médico.

Nas primeiras tentativas ao volante, Reiner precisou entender na prática os movimentos que o laudo indicava. O nervosismo inicial deu espaço a uma sensação de conquista logo na primeira sessão. E a aprovação veio no dia 5 de agosto, num misto de alívio e emoção que ele carrega até hoje.

Espaço para melhorar o processo

Para ele, o caminho percorrido por pessoas com deficiência até a CNH ainda esbarra em entraves que vão além da parte técnica. Falta de acessibilidade, informações desencontradas e equipes de autoescola pouco preparadas tornam a jornada mais longa do que precisaria ser.

Ele defende trâmites menos burocráticos e profissionais mais capacitados para lidar com adaptações específicas. Um sistema assim, segundo ele, abriria caminho para que mais pessoas com deficiência tivessem a chance de dirigir e ganhar independência.

Uma bicicleta sem guidão na infância

Muito antes do carro, veículos adaptados já faziam parte da vida de Reiner. Um padrinho construiu para ele uma bicicleta sem guidão convencional, que podia ser conduzida com o apoio do tronco — peça que a família guarda até hoje.

Essa relação com formas alternativas de se locomover nasceu ainda em Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, cidade onde ele veio ao mundo. A mãe já sabia, durante a gravidez, que o filho nasceria sem os braços.

Terapias e autonomia desde cedo

Reiner passou por acompanhamentos terapêuticos ainda nos primeiros meses de vida, buscando formas próprias de realizar tarefas cotidianas. A Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e unidades da APAE em diferentes cidades fizeram parte desse acompanhamento, ao lado de sessões de terapia ocupacional, equoterapia e hidroterapia.

Um projeto de reflorestamento conduzido pela Universidade Federal de Viçosa e pela Universidade Federal de Lavras acompanhou o jovem em atividades ligadas ao curso de agronomia. Área que ele escolheu seguir na vida acadêmica.

Dentro de casa, a mãe incentivava cada gesto de independência. Escrever, comer, escovar os dentes e se vestir tornaram-se tarefas resolvidas majoritariamente com os pés, e em certas situações também com a boca, o queixo e o tronco.

Com a CNH nas mãos — ou melhor, nos pés —, Reiner soma mais uma conquista a uma vida marcada pela busca constante por fazer as coisas do seu próprio jeito.

Fim da humanidade?

Cientista simula os próximos 1.000 anos da humanidade e encontra única saída para o colapso

O estudo foi liderado pela matemática Celia Blanco.

25/09/2026 19h00

Foto: Zelch Csaba/Pexels

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Uma simulação matemática dos próximos 1.000 anos da humanidade revelou que civilizações tecnológicas podem evitar o colapso permanente se controlarem a velocidade de consumo de recursos.

O estudo, liderado pela matemática Celia Blanco e publicado como preprint no arXiv. Conecta esse problema ao paradoxo de Fermi — a pergunta clássica sobre por que ainda não detectamos outras civilizações inteligentes apesar da vastidão do universo.

Em vez de supor que civilizações desaparecem definitivamente, a pesquisa propõe que sociedades tecnológicas podem atravessar repetidamente ciclos de expansão, crise, recuperação e novo desenvolvimento. Para testar essa hipótese, os pesquisadores construíram 10 cenários diferentes com variações de recursos, governança, pressão ambiental e capacidade de reconstrução após catástrofes.

Dez futuros simulados em 1.000 anos

Os pesquisadores fizeram 200 simulações de cada cenário, cobrindo um horizonte de 1.000 anos. As sociedades podiam continuar se desenvolvendo até esgotar determinados recursos ou sofrer um risco existencial aleatório, como uma catástrofe ambiental ou falha tecnológica. Após um colapso, algumas sociedades tinham capacidade de reconstrução, dependendo da tecnologia, da infraestrutura e dos recursos sobreviventes.

Os resultados mostraram comportamentos distintos entre os modelos, e os cenários chamados Golden Age (Idade de Ouro) e Out of Eden (Fora do Éden) completaram as simulações sem sofrer colapsos. Porém, sete dos dez modelos terminaram em colapso em todas as execuções.

Um modelo chamado Living with the Land (Viver com a Terra) representava uma sociedade submetida a fortes restrições ecológicas e se manteve tecnologicamente ativa durante aproximadamente 38% do período simulado. Ouroboros, um modelo hierárquico que encadeava expansão, colapso e recuperação, alcançou cerca de 87%.

Dois fatores para a sobrevivência

A análise identificou duas variáveis especialmente sensíveis para a sobrevivência de longo prazo. A primeira é a velocidade com que uma sociedade consome seus recursos. A segunda é a quantidade de recursos que consegue conservar ou recuperar após uma crise.

Mudanças relativamente pequenas em torno de certos limites provocaram diferenças importantes na capacidade de uma civilização permanecer ativa por longos períodos. Com base nesses resultados, os autores apontam estratégias como reduzir o consumo, proteger conhecimentos essenciais e projetar infraestruturas capazes de resistir a falhas.

O que diferencia civilizações que prosperam daquelas que desaparecem não é a tecnologia avançada, mas a relação sustentável com o ambiente e a capacidade de manter registros críticos após catástrofes.

Por que isso importa para entender o universo

A pesquisa não pretende prever o futuro exato da Terra. Seu objetivo é demonstrar como diferentes formas de organização social alteram a probabilidade de sobrevivência de sociedades avançadas. Se civilizações tecnológicas frequentemente atravessam ciclos curtos de visibilidade cósmica.

Isso explicaria por que o universo parece silencioso — não porque a inteligência seja rara, mas porque civilizações detectáveis duram períodos breves demais.

Esse modelo muda a forma como o paradoxo de Fermi é interpretado. Bastaria que as sociedades tecnológicas permanecessem detectáveis durante intervalos relativamente breves para explicar o silêncio cósmico. A simulação sugere que o principal fator para a permanência de uma civilização está menos na inovação contínua e mais na estabilidade gerenciada e na preservação de recursos para períodos de recuperação.

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