O tamanho de um animal nem sempre determina a intensidade do som que ele consegue produzir. Entre as aves, algumas espécies desafiam essa expectativa e emitem vocalizações tão potentes que podem rivalizar com ruídos de máquinas e equipamentos industriais.
Um estudo que analisou os cantos de 123 espécies de pássaros identificou três aves capazes de ultrapassar os 120 decibéis: o araponga-branco, o araponga-de-garganta-nua e a seriema-de-pernas-vermelhas. Os resultados ampliam o conhecimento sobre as vocalizações mais intensas do mundo animal e levantam novas questões sobre a evolução desses sons.
A pesquisa foi conduzida por João CT Menezes, que desenvolveu o trabalho durante sua pós-graduação na Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos, em colaboração com o biólogo Jeffrey Podos. As gravações e medições foram realizadas em Massachusetts e no Brasil entre o final de 2018 e o início de 2025.
Três espécies de aves ultrapassaram os 120 decibéis
Entre as 123 espécies analisadas, os pesquisadores encontraram uma diferença expressiva na intensidade das vocalizações. O beija-flor-de-garganta-escura apresentou o menor nível sonoro medido, com aproximadamente 64 decibéis, valor comparável ao de uma conversa em volume normal.
Na outra extremidade, indivíduos de três espécies ultrapassaram a marca de 120 decibéis. Os picos mais intensos registrados ficaram entre 127 e 131 decibéis, níveis que podem representar risco à audição humana, dependendo da intensidade e do tempo de exposição.
Além dessas aves, outras oito espécies superaram os 100 decibéis. Entre elas estavam o ganso-do-canadá, o tordo-dos-bosques e o tucano-de-garganta-branca.
Os resultados também indicaram que aves maiores e com bicos mais largos tendiam a produzir sons mais intensos. Entretanto, essa relação não foi suficiente para explicar completamente por que determinadas espécies desenvolveram vocalizações tão potentes.
Como os cientistas mediram o canto dos pássaros na natureza?
Medir o volume das vocalizações em ambientes naturais é uma tarefa complexa. Isso acontece porque a intensidade do som diminui à medida que ele se propaga pelo ambiente, de modo que a distância entre o observador e a ave pode alterar significativamente os resultados.
Para contornar essa dificuldade, os pesquisadores combinaram medidores de nível sonoro, semelhantes aos utilizados para monitorar ruídos em ambientes de trabalho, com medidores de distância a laser.
Durante cada registro, a equipe gravava o canto e calculava a distância exata entre o equipamento e o animal. Em seguida, os cientistas corrigiam as medições para estimar qual seria a intensidade do som a aproximadamente um metro da ave.
Esse procedimento permitiu comparar espécies de diferentes tamanhos e comportamentos em condições mais consistentes. Antes do estudo, segundo os pesquisadores, havia medições publicadas de intensidade sonora para apenas dez das 123 espécies investigadas.
A amostra incluiu aves pertencentes a 39 famílias, abrangendo desde pequenos beija-flores até espécies maiores, como gansos e tucanos.
Sons de até 131 decibéis podem prejudicar a audição humana
A escala de decibéis é logarítmica, o que significa que pequenas diferenças numéricas podem representar mudanças consideráveis na intensidade sonora. Por isso, a distância entre os sons mais baixos e os mais altos encontrados no estudo é maior do que os números sugerem à primeira vista.
De acordo com os pesquisadores, o canto mais intenso registrado apresentava mais de 800 vezes a pressão sonora do mais fraco. Os picos acima de 120 decibéis também entram em uma faixa que pode causar danos auditivos, especialmente quando a exposição ocorre em condições desfavoráveis.
A intensidade real percebida por uma pessoa depende, entre outros fatores, da distância até a ave e da duração do som. Ainda assim, os registros mostram que determinadas vocalizações de pássaros podem alcançar níveis que exigem atenção à proteção auditiva.
Qual é a ave mais barulhenta do mundo?
O pássaro-sino-branco já havia conquistado notoriedade por seu canto extremamente potente. Em 2019, Jeffrey Podos e um pesquisador brasileiro publicaram medições que estabeleceram um recorde de intensidade sonora para a espécie, posteriormente reconhecido pelo Guinness World Records.
Com os novos resultados, a identificação da ave mais barulhenta depende do critério utilizado. O araponga-de-garganta-nua apresentou os maiores registros individuais de intensidade, enquanto a seriema-de-pernas-vermelhas teve a maior média entre os indivíduos avaliados.
A distinção é importante porque um pico excepcional não significa necessariamente que uma espécie produza os sons mais intensos com maior frequência.
Em entrevista ao Earth.com, Menezes comparou a experiência de ouvir uma dessas aves de perto à de permanecer próximo a uma britadeira, equipamento cujo ruído pode exigir o uso de protetores auriculares.
Apesar dos avanços, os pesquisadores ainda não conseguiram determinar de maneira conclusiva por que algumas aves evoluíram para produzir sons tão altos. A descoberta mostra que o tamanho do animal não explica sozinho a potência de sua vocalização e reforça a necessidade de investigar como o comportamento, a anatomia e as condições ambientais influenciam a comunicação entre as espécies.


