Reflexão

Guimarães Rosa deixou uma lição sobre a vida: "A colheita é comum, mas o capinar é sozinho"

Refere-se àquele esforço prévio que só quem o realiza conhece bem.

Desde 1956, quando Guimarães Rosa publicou Grande Sertão: Veredas, uma sentença permanece pouco citada entre os brasileiros — apesar de traduzir com exatidão a experiência de quem trabalha nos bastidores, invisível. A frase, dita pelo ex-jagunço Riobaldo, captura algo que passa despercebido nas vidas de milhões: o esforço que precede qualquer reconhecimento.

A sentença "A colheita é comum, mas o capinar é sozinho" descansa entre centenas de reflexões no fluxo de consciência do personagem. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul apontou a obra como uma das que mais incorporam aforismos à literatura em língua portuguesa.

Todavia, essa frase específica nunca ganhou o mesmo destaque de "viver é muito perigoso" — talvez justamente porque retrata aquilo que ninguém vê.

O que Rosa quis expressar

Riobaldo fala de um lugar de vivência: cruzou o sertão baiano a cavalo, enfrentou emboscadas, carregou culpas que não podia compartilhar. Quando menciona o capinar solitário, transcende a imagem da lavoura. Refere-se àquele esforço prévio que só quem o realiza conhece bem — o trabalho que brota de dentro, sem testemunha.

O romancista de Cordisburgo construiu sua narrativa sobre essa tensão permanente: Riobaldo combate em grupo, mas padece sozinho. Ama em silêncio, e questiona calado, e a colheita, fruto coletivo, leva nome de todos, e o suor de cada um, porém, jamais se divide.

Rosa inventava palavras porque as existentes não comportavam a profundidade que tinha a dizer — desse modo, suas frases funcionam como princípios universais, independentes de época, região ou classe.

A travessia contemporânea

Pense no entregador que pedala dez horas para o jantar chegar quente na mesa alheia. Observe a educadora que redige planos de aula madrugada adentro, para que trinta crianças entendam frações no dia seguinte. Veja o operário que constrói cada parede com seus próprios braços, possibilitando teto para outra família — enquanto seu nome fica fora das escrituras.

O capinar segue sendo tarefa de uma pessoa só, e a colheita, porém, vem no contrato de outro.

Rosa não descrevia o trabalhador urbano moderno — escrevia sobre jagunços e vaqueiros do São Francisco. Contudo, a força contida nessas sete palavras ultrapassa o sertão original. Sua liberdade com a linguagem permitiu que cada reflexão funcionasse como um provérbio: válida hoje, válida em qualquer contexto, válida para quem quer que a leia.

O infinito dentro do relato

A última palavra do romance é "travessia", com um ponto final que precede um símbolo de infinito. Riobaldo termina sua narrativa sem encerramento — pois sua vida não se conclui naquele capítulo. A travessia designa o estado contínuo de estar vivo: seguir em frente, tropeçar, reparar o erro, prosseguir novamente.

Fora das páginas, o termo expandiu-se em canções, títulos de obras, conversas cotidianas — ganhou peso de palavra que nomeia a condição de quem respira e tenta. Sete palavras do século passado ainda espelham quem madruga no Brasil inteiro, invisível, plantando o que outros colherão como seu.

Arte

Após seis décadas longe dos olhos do público, pintura de Van Gogh reaparece em Hong Kong

A pintura deve alcançar cerca de US$ 180 milhões quando for comercializada.

14/10/2026 14h01

Continue Lendo...

Uma obra rara de Vincent van Gogh saiu do anonimato esta semana em Hong Kong, atraindo centenas de curiosos que enfrentaram filas para vislumbrar a tela antes de sua ida a um leilão em Nova York.

A pintura, ausente do circuito público há mais de seis décadas, deve alcançar cerca de US$ 180 milhões quando for comercializada pela Sotheby's em 18 de novembro. O mercado de arte de luxo se mantém resiliente diante das incertezas econômicas globais, com colecionadores continuando a buscar obras raras e procuradas.

Este leilão se apresenta como um teste importante dessa vitalidade, especialmente considerando o recorde que a obra pode estabelecer.

A importância histórica da obra

"Châtaigniers en fleurs", ou "Castanheiros em Flor", foi pintada em maio de 1890, durante um dos períodos mais produtivos e expressivos da vida de van Gogh. Criada na vila francesa de Auvers-Sur-Oise, a tela integra o conjunto de obras que o artista realizou após sua saída de um manicômio em Saint-Rémy-De-Provence. Poucos meses antes de sua morte aos 37 anos.

A composição retrata um enorme castanheiro em flor com uma copa que domina todo o espaço visual. Segundo Scott Niichel, especialista do departamento de arte moderna e contemporânea da Sotheby's em Nova York, a obra sintetiza o momento em que van Gogh se encontrava em seu auge criativo: "um período de extraordinário otimismo, energia frenética, entusiasmo, paixão e cor".

Uma coleção de mestres impressionistas

A pintura será vendida como parte de um conjunto de 12 obras que permaneceram fora de circulação por décadas. O grupo inclui trabalhos igualmente notáveis de Paul Cézanne e Claude Monet, ampliando significativamente o apelo do leilão junto a colecionadores, instituições de arte e investidores.

Cinco obras da coleção já foram exibidas na filial londrina da Sotheby's no final de setembro, entre elas "Arlequin", de Cézanne, e "Le Jardin des Tuileries", de Monet. A escolha de Hong Kong para a exibição prévia reflete a importância crescente do mercado asiático de arte de alto valor.

O interesse do público e colecionadores

A oportunidade de ver pessoalmente uma obra que desapareceu do domínio público há tanto tempo mobilizou admiradores de toda a região. Li Shanshan, uma apreciadora de 50 anos residente em Shenzhen, viajou aproximadamente duas horas e meia para estar entre os primeiros a observar a pintura diante de seus olhos.

Trabalhos produzidos por van Gogh durante seus últimos meses em Auvers-Sur-Oise raramente chegam ao mercado de leilões, tornando este evento particularmente raro. O leilão de novembro reunirá aqueles que desejam adquirir uma das criações mais significativas do período final do artista holandês.

Curiosidades

Enquanto homem correu 319 km em 24 horas, tubarão nadou 54 mil km e quebrou recorde

Macho chamado Milo atravessou oceanos.

14/10/2026 13h27

Foto: Derek Keats/Pexels

Continue Lendo...

Durante quase uma década de rastreamento contínuo, um tubarão-baleia macho chamado Milo atravessou oceanos por mais de 54 mil quilômetros, estabelecendo um marco sem precedentes para a espécie. A trajetória revela como esses gigantes marinhos se deslocam entre continentes e retornam periodicamente a zonas de alimentação.

Monitorado desde 2017 por pesquisadores da Universidade Nova Southeastern e da Universidade de Rhode Island. Milo recebeu seu quinto transmissor por satélite em julho de 2026, permitindo uma continuidade de registro nunca antes alcançada para nenhum tubarão. Esse acompanhamento oferece insights valiosos sobre padrões migratórios e comportamento de repouso desses animais.

Para se ter uma ideia, o recorde oficial de maior distância percorrida por um homem é de 319,614 km, estabelecido em 24 horas de corrida contínua pelo atleta lituano Aleksandr Sorokin em 17 de setembro de 2022, em Verona, na Itália

De 2017 para cá: os cinco transmissores

O primeiro rastreador, instalado em 2017, funcionou apenas semanas Enquanto os pesquisadores refinavam a técnica. Dispositivos subsequentes foram fixados à nadadeira dorsal em 2018, 2020, 2023 e 2026, cada um fornecendo meses de dados sobre localização e profundidade de mergulho.

Reencontrar Milo diversas vezes foi possível porque o animal volta regularmente à região da Península de Yucatán. No México, onde se concentra anualmente para alimentar-se de ovos e larvas de peixes próximos à superfície. Identificar tubarões-baleia individualmente é possível pelos padrões únicos de manchas no corpo e formato da nadadeira dorsal de cada indivíduo.

Os gigantes do Oceano e seus hábitos

Chegando a quase 19 metros de comprimento, os tubarões-baleia contam-se entre os maiores peixes existentes. Apesar da reputação de solitários que realizam migrações extensas, reúnem-se em grupos numerosos quando há abundância de alimento numa área específica.

Nos verões do Hemisfério Norte, centenas desses tubarões e raias-manta chegam ao Golfo do México e à costa norte do Atlântico próxima à Península de Yucatán. A presença abundante de espécies menores na região os atrai, e a temporada 2026 registrou centenas de avistamentos diários.

Flexibilidade entre viagens de longa distância

Milo percorreu o Golfo do México, o Caribe setentrional, águas ao leste das Bermudas e áreas a norte de Massachusetts ao longo de sua trajetória. Simultaneamente, demonstrou capacidade de permanecer durante meses em áreas relativamente reduzidas, alternando entre expedições oceânicas e períodos de menor deslocamento. Essa adaptação a diferentes ambientes e escalas geográficas distingue a espécie entre os peixes migratórios.

Conforme informado à Revista Galileu, dados de longo prazo como esses são fundamentais para compreender o ciclo de vida completo de animais tão longevos, informando estratégias de conservação mais eficazes para a espécie, que atualmente é classificada como vulnerável pela União Internacional para Conservação da Natureza.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).