Boa vida

Miguel Delibes, escritor espanhol: "Uma boa vida se sustenta em quatro pilares básicos"

Segundo ele, uma boa vida está ligada aos vínculos que construímos ao longo da vida

A felicidade não depende apenas de dinheiro, sucesso profissional ou realizações pessoais. Ela está ligada aos vínculos que construímos ao longo da vida — convicção que marcou toda a obra de Miguel Delibes, escritor espanhol do século XX, cuja reflexão sobre a convivência humana continua relevante.

O escritor vallisoletano identificava quatro pilares fundamentais para uma vida plena: solidariedade, ternura, respeito mútuo e amor. Em um discurso pronunciado em Valladolid em setembro de 1986, Delibes sintetizou esse pensamento ao mencionar como essenciais para entender as relações humanas os sentimentos que acompanhavam seus personagens: amor, ternura, solidariedade, respeito mútuo e compaixão.

Os pilares da convivência segundo Delibes

A solidariedade, para o autor, significava estar atento às dificuldades alheias. Essa preocupação aparece em suas obras, nas quais personagens enfrentam pobreza, isolamento e injustiça. Em romances como Os santos inocentes, Delibes retratou desigualdades sociais e a fragilidade humana, mostrando como a dignidade e o trato com o próximo se tornam questões fundamentais.

A ternura e o respeito complementavam essa visão da convivência. Por meio de seus personagens, Delibes defendia o reconhecimento das necessidades e dos sentimentos alheios. Em suas narrativas, pequenos gestos cotidianos, como ouvir, acompanhar e demonstrar compreensão, ganham peso. Em relações duradouras, não basta compartilhar experiências. É preciso respeitar as diferenças e cultivar os laços pessoais.

 

O sentido de acompanhar o outro

O amor completava a reflexão de Delibes sobre os relacionamentos. Em seu discurso de 1986, o escritor expressou uma ideia central: todo ser veio a este mundo para aliviar a solidão de outro ser. Essa reflexão resume uma de suas contribuições mais conhecidas: a importância de estar presente na vida dos demais e encontrar propósito por meio das conexões pessoais.

Para Delibes, a solidão e a necessidade de afeto faziam parte da experiência humana e não deveriam ser ignoradas. Acompanhar o outro, portanto, não era um favor, mas responsabilidade de cada pessoa em relação aos demais.

Um legado que perdura

Delibes faleceu em 2010, deixando uma obra marcada pela sensibilidade humana e pela defesa da dignidade. Suas reflexões permanecem atuais em uma sociedade onde obrigações diárias dificultam o cuidado dos vínculos. Solidariedade, ternura, respeito mútuo e amor continuam sendo valores essenciais para construir relacionamentos mais profundos e encontrar bem-estar na convivência com os outros.

O que significa cuidar dos vínculos em um dia comum

Delibes enfatizava que construir relações duradouras não exige grandes gestos. Significa avaliar diariamente pequenas ações: ouvir de verdade quando alguém fala, acompanhar quem está sozinho e demonstrar compreensão nos momentos difíceis. Na prática, isso pode significar estar presente quando um amigo está triste, lembrar-se de perguntar como alguém está ou reconhecer que as diferenças entre as pessoas não precisam afastá-las.

Nessa visão, a felicidade não é um prêmio que se alcança sozinho. Ela surge quando os relacionamentos recebem a mesma dedicação que o trabalho e o sucesso. Quem prioriza o avanço profissional e deixa amizades e família em segundo plano ignora um dos pilares que sustentam uma vida plena.

Reflexão e superação

A reflexão de Jorge Luis Borges: "Quem se conhece melhor do que o cego?"

Escritor enfrentava a cegueira e trazia grandes reflexões

29/10/2026 08h39

Imagem: Grete Stern/Wikimedia Commons

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Jorge Luis Borges perguntou "Quem se conhece melhor do que o cego?" no Teatro Coliseo, em Buenos Aires, durante uma palestra realizada em 1977. O escritor argentino já enfrentava a cegueira havia décadas e refletia sobre as grandes obras da literatura universal.

A reflexão vinha de uma experiência vivida: Borges perdeu gradualmente a visão na infância por uma degeneração genética da retina transmitida pelo pai. Em 1950, já não conseguia enxergar, mas se recusou a deixar de escrever. Amigos e familiares passaram a registrar suas palavras conforme ele as ditava, e o obstáculo se tornou parte de seu método criativo.

A palestra que se transformou em testamento

Quando subiu ao palco do Teatro Coliseo em 1977, Borges enfrentava depressão e estava emocionalmente abalado. Mesmo assim, escolheu conectar sua trajetória à história da escrita humana. A apresentação foi registrada em áudio e depois transcrita, e o processo resultou em uma série de livros repletos de erros de transcrição.

Dois anos depois, em 1979, surgiu a oportunidade de reunir tudo em um único volume. Borges aceitou com uma condição inflexível: seria ele mesmo o revisor e corretor de cada página. Mesmo cego, ouvia cada trabalho ser lido em voz alta pelo menos três vezes para garantir a precisão.

O resultado foi "Siete Noches" — livro que o próprio autor reconheceu como seu legado final, seu testamento literário deixado para as gerações futuras.

 

O autoconhecimento na ausência de luz

A pergunta de Borges ultrapassa a experiência física da cegueira. Ao questionar quem melhor se compreende do que aquele privado da visão, ele sugere que a ausência de estímulo visual libera a memória. A imaginação e a introspecção — ferramentas que o escritor argentino dominou como poucos.

Sem a distração do mundo externo, restam apenas as camadas internas da consciência. Essa reflexão sobre o conhecimento que emerge da escuridão marca a obra de Borges, para quem a cegueira nunca significou isolamento intelectual.

Faleceu em 1986, mas a frase que pronunciou no Teatro Coliseo permanece como prova de que as limitações podem abrir portas para uma compreensão profunda — e de que a escuridão exterior nem sempre equivale à cegueira do espírito.

Se Borges não conseguia enxergar, como revisava seus textos?

Borges usava um método simples, mas que exigia disciplina: mandava alguém ler em voz alta cada página do trabalho que havia ditado. Ao escutar, verificava se as palavras correspondiam exatamente ao que havia imaginado e expressado. Não se tratava de corrigir a ortografia, mas de garantir a preservação do sentido, do ritmo e da precisão.

Por isso, insistiu em ouvir cada trabalho de "Siete Noches" no mínimo três vezes, para confirmar que nada havia se perdido na transcrição ou na interpretação de quem registrava suas palavras.

A formação que preparou Borges para reinventar sua criação

Antes de ficar cego, Borges já havia construído uma trajetória intelectual que o prepararia para essa reinvenção. Estudou em instituições educacionais na Suíça e na Inglaterra, passou por universidades e trabalhou como bibliotecário. A profissão o colocava em contato direto com textos, catálogos e sistemas de organização do conhecimento.

Como diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, cargo que assumiu em 1955, conhecia profundamente a forma como a informação era estruturada e recuperada.

Estudiosos reconhecem que a progressiva cegueira ajudou Borges a criar novos símbolos literários com a imaginação, porque "os poetas, como os cegos, podem ver no escuro". Sua formação ampla em literatura, filosofia e línguas múltiplas fornecia o material de que precisava para continuar atuando no mundo das ideias, mesmo sem acesso visual aos livros. Ele carregava sua biblioteca na memória.

O que a condição de Borges revelou sobre o processo criativo

A história de Borges desafia a ideia comum de que escrever exige ver. Seu trabalho mostrou que a criação literária vai além da percepção visual: está na memória, na linguagem falada e na capacidade de estruturar pensamentos sem depender de uma página à sua frente.

Ao ouvir suas obras depois que alguém as ditava, Borges demonstrava que a revisão também pode ser um ato de escuta e refinamento auditivo, não apenas visual.

Isso tem consequências práticas para qualquer pessoa que cria: sugere que o verdadeiro obstáculo não é a limitação física, mas a rigidez em adaptar o método de trabalho. Borges não tentou enxergar do jeito que enxergava antes — ele reinventou completamente como recebia informação, processava e corrigia seus textos.

Sua aceitação de um método radicalmente diferente, longe de diminuir a qualidade, resultou em "Siete Noches", que ele mesmo reconheceu como seu testamento literário.

Oportunidade italiana

Itália oferece casas por 1 euro em pequena vila cercada por montanhas

Iniciativa busca atrair novos moradores e até movimentar economia local

29/10/2026 07h46

Foto: Renan Martini/Pexels

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Farini, município da região italiana de Emilia-Romanha com 1.044 habitantes, oferece casas por 1 euro a quem se comprometer a restaurá-las. A iniciativa busca atrair novos moradores, reativar a economia local e evitar a deterioração de edifícios abandonados.

Uma das propriedades disponíveis fica em Blucchi, localidade de Cogno San Bassano, na província de Piacenza, a 880 metros de altitude, nos Apeninos. As construções de pedra precisam de obras de recuperação antes de serem utilizadas. O preço simbólico reduz a barreira de entrada para quem pretende investir na região.

Como funciona o programa

Os imóveis pertencem a proprietários particulares, e a prefeitura intermedeia a relação entre donos e compradores. O programa busca reocupar as construções e fortalecer atividades residenciais, turísticas e comerciais na região. Ao comprar o imóvel por 1 euro, o comprador assume o compromisso de restaurá-lo e mantê-lo em condições apropriadas.

As propriedades podem ser usadas para diferentes fins: habitação, seja como residência principal ou segunda casa; hospedagem turística; atividades comerciais e artesanais; ou projetos de organizações comunitárias sem fins lucrativos, desde que respeitem as normas locais.

Quem pode participar e quais são os requisitos

O programa não se restringe aos moradores de Farini, e cidadãos italianos, europeus e de países fora da União Europeia podem apresentar propostas. Também podem participar empresas, cooperativas, empreendimentos comerciais e artesanais e organizações que atendam aos critérios municipais.

Comprar uma casa por 1 euro exige compromissos concretos e prazos rigorosos. O comprador precisa formalizar a compraventa em até três meses após aprovação da adjudicação. Dentro de seis meses da assinatura do contrato, deve apresentar um projeto detalhado de renovação.

Os trabalhos devem começar em até três meses após a emissão da licença de construção, e a restauração completa deve terminar em dois anos. Ambos os prazos podem ser prorrogados mediante justificativa.

A prefeitura exige também uma garantia econômica de no mínimo 5.000 euros, válida por três anos inicialmente, para assegurar que o comprador cumpra todos os compromissos assumidos.

O que significa na prática receber um imóvel com "obras de recuperação necessárias"

Isso significa que o comprador não recebe uma casa pronta para morar. O edifício pode ter telhado danificado, paredes comprometidas, instalações antigas ou até problemas estruturais. Antes de qualquer uso — seja para moradia, turismo ou comércio — é necessário fazer reformas significativas.

O preço de 1 euro não inclui essas obras: o comprador paga pelo terreno e pela construção como ela está e assume toda a responsabilidade de recuperá-la dentro do prazo de dois anos.

Passo a passo para comprar uma casa a 1 euro em Farini

  • Apresente sua proposta à prefeitura descrevendo o que pretende fazer com o imóvel (moradia, turismo, comércio ou atividade comunitária)
  • Aguarde a aprovação da adjudicação pelo município
  • Assine o contrato de compravenda em até três meses após aprovação
  • Apresente o projeto detalhado de restauração em até seis meses após assinar
  • Obtenha a licença de construção junto ao município
  • Comece as obras em até três meses depois de receber a autorização
  • Conclua toda a restauração em dois anos (com possibilidade de prorrogação se justificada)
  • Mantenha o imóvel em condições apropriadas conforme contratado

Se a casa custa 1 euro, por que é preciso desembolsar 5 mil euros de garantia?

A garantia de 5 mil euros não é uma taxa de compra nem um depósito do comprador. É uma garantia apresentada ao programa para demonstrar a capacidade financeira de cumprir a restauração. Ela fica bloqueada por três anos enquanto o comprador trabalha no imóvel. Se o comprador cumprir tudo conforme combinado, a garantia é liberada.

Se não cumprir os prazos ou as condições, o município pode usar o dinheiro para cobrir prejuízos ou completar as obras. É uma proteção para o município, não um custo adicional da compra.

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