Boris Pasternak recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1958, mas as autoridades soviéticas o coagiram a recusar a honraria logo depois de aceitá-la. A Academia Sueca justificou o prêmio "pelas suas importantes realizações no domínio da poesia lírica contemporânea e no da tradição épica russa".
O verdadeiro motivo por trás do reconhecimento, porém, foi o sucesso internacional do romance "Doutor Jivago", que narra o desencanto de um médico-poeta com a revolução comunista. Moscou nunca perdoou essa exposição e tratou o livro como ameaça ao regime.
Um poeta que virou romancista tardio
Nascido em 10 de fevereiro de 1890, em Moscou, Pasternak construiu seu nome décadas antes de escrever prosa. Lançou o livro de versos "Um gêmeo nas nuvens" em 1914 e, em 1917, publicou "Além das barreiras", com forte influência simbolista.
A fama literária consolidou-se nos anos seguintes, mas ele só terminou "Doutor Jivago" em 1955, sua única obra em prosa mudaria sua vida para sempre. Nenhuma editora soviética aceitou publicar "Doutor Jivago" quando o romance foi concluído.
A obra proibida que circulou pela Europa
Um manuscrito do romance chegou às mãos do editor italiano Feltrinelli, em Milão, que o lançou em 1957. O livro foi banido do território soviético, mas uma edição em russo circulou na Holanda, contornando parte da censura local.
A repercussão internacional irritou o Kremlin, que passou a tratar Pasternak como inimigo do Estado. Expulso da União dos Escritores e rotulado de traidor, ele viu o Nobel virar motivo de perseguição, não de celebração.
O exílio interno e a renúncia forçada
Para escapar do desterro, Pasternak foi obrigado a abrir mão do prêmio e recolher-se a Peredelkino, nos arredores de Moscou. Ali viveria seus últimos anos, isolado, até morrer de câncer de pulmão em 31 de maio de 1960.
A frase “A felicidade solitária não é felicidade” é atribuída ao escritor e poeta russo Boris Pasternak, autor de Doutor Jivago, e resume o paradoxo de sua trajetória: reconhecido pelo mundo, mas impedido de desfrutar essa glória em seu próprio país.
Omar Sharif e a adaptação que driblou censuras
A versão para o cinema ampliou o alcance da história para além dos leitores. Dirigido por David Lean em 1966, o filme com Omar Sharif e Julie Christie venceu cinco Oscars: fotografia, trilha sonora, direção de arte, figurino e roteiro.
Sharif levou o Globo de Ouro pela atuação no papel-título. Durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), a censura liberou o filme para maiores de 18 anos. Harry Stone, ex-vice-presidente da Motion Picture Association para a América Latina, obteve a liberação para maiores de 16 anos.
A reabilitação e o legado que resistiu
Na União Soviética, "Doutor Jivago" só foi publicado oficialmente em 1988, após a reabilitação de Pasternak pela União dos Escritores. Desde então, o romance se tornou presença constante entre os mais vendidos no país que um dia o proscreveu.
Omar Sharif morreu em 10 de julho de 2015, aos 83 anos, vítima de um ataque cardíaco num hospital do Cairo, no Egito, seu país natal. Sua atuação como Jivago segue como uma das adaptações literárias mais lembradas do cinema, mantendo viva a obra que o regime soviético tentou silenciar.


