O planeta pode conservar muito mais terra do que indicam os registros oficiais, embora ainda existam lacunas importantes na proteção da biodiversidade, segundo uma pesquisa coordenada por Helen O'Neill, da Zoological Society of London, e Bob Smith, do Durrell Institute of Conservation and Ecology, da University of Kent.
Quase todos os países se comprometeram a preservar 30% das terras e oceanos do mundo até 2030, mas os dados governamentais apontam apenas 18,5% — uma diferença que parecia intransponível. Quando pesquisadores incluem parques, reservas e terras comunitárias registradas apenas em arquivos nacionais, o cenário muda: cerca de 27% da terra do planeta já está conservada de alguma forma.
A pesquisa analisou uma amostra que cobre um décimo das terras globais, e os resultados sugerem que a proporção real é provavelmente ainda maior.
Onde está a terra não contabilizada
O banco de dados oficial sobre a proteção global é mantido pelo UN Environment Programme World Conservation Monitoring Centre e publicado na plataforma Protected Planet. A maioria dos registros inclui apenas parques e reservas administrados pelo Estado, porque muitos países só começaram a informar outras categorias recentemente.
A pesquisa identificou três tipos de áreas conservadas, e o primeiro inclui terras já no banco de dados global: em 2022, essas áreas protegidas cobriam 15,79% da terra do planeta. O segundo tipo atende à definição de área protegida mas nunca foi reportado, frequentemente porque é propriedade privada — isso adicionou cerca de 3,6%.
O terceiro tipo vai além: são terras com fronteiras definidas e um grupo responsável pela gestão de longo prazo que conserva a natureza, mesmo que esse não seja o objetivo inicial. É o caso de territórios indígenas, terras comunitárias e propriedades privadas.
Essas últimas recebem o nome oficial de "medidas de conservação baseadas em áreas de fato efetivas", ou OECMs. Quando os pesquisadores contabilizaram sítios que poderiam se qualificar, acrescentaram outros 7,4%. Juntos, os três tipos somam uma estimativa de 26,81% — cerca de 3 pontos percentuais abaixo da meta, e não 11,5 como sugerem os números oficiais.

Como a pesquisa foi feita
Mapear cada área de conservação da Terra levaria anos, e por isso, a equipe trabalhou com uma amostra definida em um estudo anterior para representar o planeta inteiro. A amostra cobre, total ou parcialmente, 25 países e territórios, representa cerca de um décimo das terras mundiais e foi selecionada para refletir 89 características ambientais e geográficas distintas.
Os pesquisadores reuniram 65 conjuntos de dados nacionais e regionais daqueles países, mais dois globais. A maioria veio de especialistas locais, e pesquisadores em cada país verificaram como cada sítio havia sido classificado. A equipe então calculou cobertura em 1 mil conjuntos de quadrados, cada um de 100 quilômetros de lado.
O método produziu uma margem de erro de 16,15% para as áreas protegidas oficiais, próxima do índice global de 15,79%, o que validou a abordagem.
Os desafios que permanecem
Apesar de o mundo estar mais perto da meta de 2030 do que o imaginado. Contar mais terra não resolve o problema central: a maior parte dessa área não contabilizada está nos mesmos tipos de lugares que já têm proteção. As terras adicionais cobrem as mesmas regiões e pouco fazem para corrigir as lacunas na proteção de habitats.
A distribuição desigual de conservação permanece como o principal desafio para garantir que a biodiversidade global seja verdadeiramente protegida.
Por que os pesquisadores não contabilizaram terras indígenas e comunitárias como áreas protegidas oficiais logo de início?
Essas áreas recebem a classificação especial OECMs (outras medidas de conservação baseadas em áreas de fato efetivas) porque sua função principal nem sempre é proteger a natureza. Podem ser territórios habitados há séculos ou terras de uso comunitário tradicional.
Estudos mostram, porém, que elas mantêm ecossistemas tão intactos quanto os parques formais e conservam a natureza de maneira efetiva, mesmo sem esse ser o objetivo inicial. A pesquisa as contabilizou porque demonstram funcionar como proteção real e contribuir com cerca de 7,4% da cobertura global de conservação.


