Um veículo-robô chinês identificou formações minerais que podem indicar a existência de um antigo lago raso coberto por gelo em Marte. A descoberta ocorreu em Utopia Planitia, uma extensa planície do planeta, e sugere que água líquida pode ter existido na superfície há cerca de 760 milhões de anos.
O achado foi feito pelo rover Zhurong, da missão chinesa Tianwen-1. Ao analisar imagens e medições coletadas pelo veículo, pesquisadores identificaram placas de rocha clara com cristais em leque e estruturas semelhantes a pequenas árvores de Natal, características que ajudaram a determinar a composição do material.
Cristais revelam possível presença de água
O estudo, publicado na revista científica Nature Astronomy, identificou o mineral como selenita, uma variedade de gipsita formada por cristais grandes e bem desenvolvidos. Alguns deles medem entre 5 e 10 centímetros de comprimento.
A equipe comparou a aparência das formações com amostras terrestres e analisou dados espectrais e químicos obtidos pelos instrumentos do rover. A combinação dessas evidências sustenta a interpretação de que os cristais se formaram pela precipitação de sais em água líquida, em vez de surgirem apenas pela circulação de fluidos dentro de rochas.
Como um lago poderia existir em Marte
A descoberta chama a atenção porque a região pertence ao período Amazoniano, marcado por condições predominantemente frias e secas. Nesse cenário, a existência de um lago aberto e duradouro seria difícil de explicar.
Os pesquisadores propõem que atividade magmática subterrânea possa ter derretido depósitos de gelo e impulsionado água salgada para a superfície. Ao entrar em contato com o ambiente gelado, a parte superior da água teria congelado, formando uma camada protetora de gelo.
A perda gradual de água por sublimação teria concentrado os sais na salmoura restante, favorecendo o crescimento dos cristais de gipsita. Esse processo poderia ter mantido água líquida sob o gelo durante tempo suficiente para formar as placas minerais observadas.
O que os cristais podem revelar sobre vida
A hipótese também desperta interesse para a busca de vida extraterrestre. Durante o crescimento, cristais de gipsita podem aprisionar pequenas porções da água em que se formaram, conhecidas como inclusões fluidas.
Esses bolsões poderiam preservar informações sobre a composição química da antiga salmoura marciana. Caso organismos tenham existido no ambiente, também é possível que alguns vestígios orgânicos tenham ficado preservados no interior dos cristais.
Entretanto, o estudo não encontrou evidências diretas de vida em Marte. A possibilidade de preservar sinais biológicos ainda depende de investigações adicionais, inclusive sobre os efeitos da radiação e das condições da superfície marciana ao longo de milhões de anos.
Uma descoberta que ainda exige confirmação
O Zhurong percorreu pouco mais de 1,9 quilômetro antes de entrar em hibernação, em maio de 2022, e não voltou a operar. Mesmo assim, os dados enviados pelo veículo continuam disponíveis para novas análises científicas.
Os autores reconhecem limitações na interpretação: não há amostras físicas das placas para análises laboratoriais, e as evidências foram obtidas por imagens, espectros e medições feitas à distância. O cenário de um lago raso sob o gelo é a explicação proposta pela equipe, mas ainda não representa uma confirmação definitiva.
Se a hipótese estiver correta, as formações poderão ajudar a identificar ambientes de Marte que mantiveram água líquida em um período relativamente recente da história do planeta, ampliando a busca por locais que possam ter oferecido condições favoráveis à vida.


