José Saramago abriu seu discurso de recebimento do Prêmio Nobel de Literatura, em 7 de dezembro de 1998, com uma frase dedicada ao avô materno: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”. A declaração sintetizou uma das principais lembranças de sua infância e a importância que o escritor atribuía à sabedoria adquirida fora dos livros.
O homem homenageado era Jerónimo Melrinho, um criador de porcos que vivia em Azinhaga, no Ribatejo, em Portugal. Analfabeto, assim como a esposa, Josefa Caixinha, ele marcou a formação do escritor com experiências cotidianas, histórias e ensinamentos que permaneceram na memória do neto.
A infância pobre que marcou o escritor
No discurso, Saramago recordou a rotina difícil dos avós. Jerónimo levantava-se de madrugada para cuidar dos animais e, nas noites mais frias do inverno, o casal levava os leitões mais frágeis para a própria cama, numa tentativa de impedir que morressem de frio.
As lembranças também incluíam momentos de afeto. Durante o verão, o avô convidava o menino para dormir com ele sob uma figueira e contava histórias até que o neto adormecesse. Essas experiências ajudaram a construir o universo de memórias que o escritor levou para sua obra literária.
A despedida das árvores
Uma das passagens mais emocionantes do discurso descreve os últimos momentos de Jerónimo. Ao perceber que estava próximo da morte, ele saiu pelo quintal e se despediu das árvores uma a uma, abraçando-as e chorando por saber que não voltaria a vê-las.
Saramago também recordou a avó Josefa, que, já idosa, expressou tristeza diante da perspectiva de morrer, apesar de considerar o mundo bonito. Para o escritor, as palavras e os gestos dos dois revelavam uma compreensão profunda da vida, mesmo sem formação escolar.
O que a frase revela sobre sabedoria
A homenagem de Saramago destaca a diferença entre escolaridade e sabedoria. Ao escolher começar seu discurso mais importante com a lembrança de um homem analfabeto, o escritor colocou em evidência o conhecimento construído pela experiência, pelo trabalho, pela observação e pelos vínculos afetivos.
O episódio também mostra como as memórias familiares influenciaram sua trajetória literária. Ao recordar os avós diante da Academia Sueca, Saramago levou para a cerimônia internacional não apenas sua história pessoal, mas a realidade simples de uma família rural portuguesa.



