Quem mora em Buenos Aires e tem notado mais morcegos voando perto de casa ou no jardim durante a primavera não precisa se assustar. O aumento das temperaturas atrai insetos, e esses mamíferos aparecem para caçá-los.
Segundo informações divulgadas pelo Governo da Cidade de Buenos Aires, a primavera também coincide com o período reprodutivo dessas espécies, quando a oferta de alimento aumenta. Por isso, os morcegos sobrevoam pátios e áreas verdes com mais frequência nesta época do ano.
Por que eles se aproximam das casas
Os morcegos ficam escondidos durante boa parte do dia e só saem ao anoitecer para procurar alimento, percorrendo diferentes espaços em busca de insetos. Com o calor, essas presas se multiplicam, e como a maioria das espécies encontradas em Buenos Aires é insectívora, pátios e jardins se tornam pontos de caça durante a noite.
O período reprodutivo reforça esse comportamento. Durante a primavera, as fêmeas de algumas espécies formam colônias para cuidar dos filhotes, o que torna a estação decisiva para a criação de novas gerações. Avistar um deles rondando o quintal não indica nenhum problema com a casa — apenas um comportamento natural de busca por comida.
O lado positivo dessa presença
Esses mamíferos funcionam como controladores naturais de pragas que costumam incomodar em residências e jardins. Eles devoram mosquitos, mariposas e outros insetos que cruzam seu caminho durante o voo noturno, ajudando a manter essas populações sob controle sem uso de produtos químicos.
Há ainda um papel ecológico mais amplo: integram as cadeias alimentares e colaboram para o equilíbrio dos ecossistemas em áreas urbanas. A presença deles também beneficia plantas e hortas, já que eliminam insetos que costumam atacar diferentes cultivos e espécies vegetais.

Cuidados e quando procurar ajuda
A presença de um desses animais no jardim, por si só, não indica que o ambiente esteja em equilíbrio ecológico. Embora seja importante preservá-los, evite o contato direto, e nunca tente tocá-los ou segurá-los com as mãos.
Se um deles entrar em casa, o recomendado é afastar os animais de estimação, evitar qualquer contato e procurar o Instituto de Zoonosis Luis Pasteur ou o serviço local de zoonoses.
Em caso de mordida ou contato direto, procure atendimento médico imediatamente. Morcegos podem transmitir raiva, doença responsável por 23 casos de infecção humana no Brasil desde 2010.
Pesquisadores continuam investigando a diversidade de vírus presentes em morcegos de São Paulo para identificar patógenos capazes de infectar humanos, reforçando a importância de evitar contato direto com esses animais.
Como os pesquisadores identificam vírus perigosos em morcegos
O processo começa com a coleta de órgãos de morcegos, como intestino, pulmão, rins, baço e fígado, que são analisados em laboratório. Os pesquisadores extraem o DNA e o RNA do material e usam técnicas de biologia molecular, como testes de PCR, para buscar vírus específicos.
Quando encontram um fragmento promissor, fazem o sequenciamento genético para compará-lo com vírus já conhecidos na literatura científica. Se a pré-análise parecer relevante, realizam o sequenciamento completo do genoma viral usando uma tecnologia de alta velocidade. Depois, tentam isolar o vírus em laboratório usando linhagens celulares. Se as conhecidas não funcionarem, criam novas, especializadas para isso.
Com o vírus isolado, conseguem identificar qual receptor celular ele usa e avaliar se teria potencial de infectar humanos, determinando assim seu risco real.
Por que o Brasil tem alto potencial para doenças emergentes
Pesquisadores apontam que o Brasil está entre as regiões do mundo com maior potencial para o surgimento de novas doenças infecciosas. Isso não acontece apenas pela população numerosa, mas pela combinação de fatores: a imensa diversidade de animais silvestres, o desmatamento acelerado, as queimadas e outras pressões humanas sobre a natureza.
Quando esses ambientes são alterados, animais selvagens se aproximam mais de cidades e pessoas, aumentando as chances de transmissão de vírus.
Por essa razão, pesquisadores do Institut Pasteur de São Paulo fazem vigilância ativa em morcegos de diferentes áreas, como florestas urbanas e rurais, além de locais próximos a fazendas e plantações. O objetivo é entender quais vírus existem nesses animais e qual é o risco real de cada um infectar humanos.
É um trabalho de prevenção: quanto mais se conhece sobre os vírus em circulação, mais preparados ficam os sistemas de saúde para lidar com possíveis emergências.



