Riscos da solidão

Você pode fazer tudo certo pela saúde, mas a solidão pode encurtar seus anos livres de doença

Solidão reduz significativamente os anos que as pessoas vivem livres de doenças graves

A solidão reduz significativamente os anos que as pessoas vivem livres de doenças graves, mesmo quando seguem à risca todas as recomendações de hábitos saudáveis. Um estudo da Universidade Tulane com 277.489 participantes do Reino Unido revelou que isolamento social e solidão afetam a expectativa de vida sem doença.

A solidão e o isolamento social encurtam a expectativa de vida sem doenças de forma comparável à de fatores de risco tradicionais, como tabagismo e falta de exercício. Os conselhos sobre saúde costumam enfatizar o que fazer: comer bem, se mexer, dormir o suficiente e evitar fumar.

A vida social dificilmente entra nessa lista de prioridades. Pesquisadores descobriram, porém, que a sensação de isolamento pode ter efeitos tão sérios quanto negligenciar o exercício ou a alimentação quando o objetivo é permanecer livre de doenças crônicas.

Solidão e isolamento social não são a mesma coisa

A solidão se refere ao que a pessoa sente sobre suas relações — a percepção de falta de intimidade e conexão. O isolamento social é mais objetivo: significa ter pouco contato com outras pessoas. Alguém pode conhecer muita gente e ainda se sentir sozinho, enquanto outra pessoa que passa tempo sozinha pode não se sentir solitária.

O estudo separou esses dois conceitos na análise. Para medir solidão, os pesquisadores usaram duas perguntas simples: se a pessoa se sentia sozinha com frequência e se podia conversar intimamente com alguém próximo menos de uma vez por mês.

O isolamento social foi avaliado de forma diferente, considerando se a pessoa vivia sozinha, via amigos ou família menos de uma vez por mês e participava de atividades sociais menos de uma vez por semana. Uma pessoa era considerada socialmente isolada se pelo menos dois desses critérios se aplicavam.

Saúde mental sofre o maior impacto

Os maiores déficits apareceram na saúde mental. Mulheres que enfrentavam simultaneamente solidão e isolamento social tinham 3,7 anos a menos de vida sem depressão ou ansiedade do que mulheres sem esses problemas. Entre os homens, a diferença chegava a 5,8 anos.

Quando analisados separadamente, solidão e isolamento social ainda tinham efeito. Mulheres que se sentiam sozinhas perdiam 3,9 anos de vida sem depressão ou ansiedade, enquanto os homens perdiam 2,9 anos. O isolamento social, sozinho, custava 2,0 anos às mulheres e 3,0 anos aos homens, e esses estavam entre os maiores déficits encontrados na análise.

Doenças físicas também sofrem, mas com diferenças menores

O padrão se repetiu quando os pesquisadores analisaram apenas condições físicas, como diabetes tipo 2, doenças do coração e dos vasos sanguíneos, doenças pulmonares crônicas, demência e Parkinson. Mulheres com solidão e isolamento combinados tiveram 2,4 anos a menos livres dessas doenças, enquanto os homens do mesmo grupo perderam 1,7 ano.

Os dados vieram de 277.489 pessoas no Reino Unido que, no início do estudo, não apresentavam nenhuma das sete condições monitoradas. O professor Lu Qi, da Universidade Tulane, explicou que os resultados mostram como o isolamento social e a solidão afetam tanto as doenças físicas quanto as mentais.

Ao Earth, Lu Qi disse que esses achados reforçam o que pesquisas anteriores já apontavam sobre a conexão entre isolamento e morte prematura.

História de superação

Ele nasceu sem braços e conquistou a CNH no Brasil dirigindo com os pés

A carteira de habilitação saiu há pouco mais de um mês.

25/09/2026 19h33

Foto: Reiner Jesus Martins/Arquivo pessoal

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Um carro adaptado em Pará de Minas mudou a rotina de Reiner Jesus Martins, de 20 anos. Estudante de agronomia em Lavras, no Sul de Minas, ele nasceu sem os dois braços e passou a dirigir usando as pernas.

A carteira de habilitação saiu há pouco mais de um mês e representa uma etapa dentro de uma trajetória construída desde a infância. Antes de chegar à aprovação, Reiner passou pela avaliação de uma junta médica do Detran, responsável por definir as adaptações necessárias ao veículo.

Como foi o caminho até a aprovação

Encontrar uma autoescola com carro compatível com as adaptações exigidas não foi tarefa simples. Foi em Pará de Minas que ele localizou a estrutura certa para iniciar as aulas práticas seguindo o laudo médico.

Nas primeiras tentativas ao volante, Reiner precisou entender na prática os movimentos que o laudo indicava. O nervosismo inicial deu espaço a uma sensação de conquista logo na primeira sessão. E a aprovação veio no dia 5 de agosto, num misto de alívio e emoção que ele carrega até hoje.

Espaço para melhorar o processo

Para ele, o caminho percorrido por pessoas com deficiência até a CNH ainda esbarra em entraves que vão além da parte técnica. Falta de acessibilidade, informações desencontradas e equipes de autoescola pouco preparadas tornam a jornada mais longa do que precisaria ser.

Ele defende trâmites menos burocráticos e profissionais mais capacitados para lidar com adaptações específicas. Um sistema assim, segundo ele, abriria caminho para que mais pessoas com deficiência tivessem a chance de dirigir e ganhar independência.

Uma bicicleta sem guidão na infância

Muito antes do carro, veículos adaptados já faziam parte da vida de Reiner. Um padrinho construiu para ele uma bicicleta sem guidão convencional, que podia ser conduzida com o apoio do tronco — peça que a família guarda até hoje.

Essa relação com formas alternativas de se locomover nasceu ainda em Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, cidade onde ele veio ao mundo. A mãe já sabia, durante a gravidez, que o filho nasceria sem os braços.

Terapias e autonomia desde cedo

Reiner passou por acompanhamentos terapêuticos ainda nos primeiros meses de vida, buscando formas próprias de realizar tarefas cotidianas. A Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) e unidades da APAE em diferentes cidades fizeram parte desse acompanhamento, ao lado de sessões de terapia ocupacional, equoterapia e hidroterapia.

Um projeto de reflorestamento conduzido pela Universidade Federal de Viçosa e pela Universidade Federal de Lavras acompanhou o jovem em atividades ligadas ao curso de agronomia. Área que ele escolheu seguir na vida acadêmica.

Dentro de casa, a mãe incentivava cada gesto de independência. Escrever, comer, escovar os dentes e se vestir tornaram-se tarefas resolvidas majoritariamente com os pés, e em certas situações também com a boca, o queixo e o tronco.

Com a CNH nas mãos — ou melhor, nos pés —, Reiner soma mais uma conquista a uma vida marcada pela busca constante por fazer as coisas do seu próprio jeito.

Fim da humanidade?

Cientista simula os próximos 1.000 anos da humanidade e encontra única saída para o colapso

O estudo foi liderado pela matemática Celia Blanco.

25/09/2026 19h00

Foto: Zelch Csaba/Pexels

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Uma simulação matemática dos próximos 1.000 anos da humanidade revelou que civilizações tecnológicas podem evitar o colapso permanente se controlarem a velocidade de consumo de recursos.

O estudo, liderado pela matemática Celia Blanco e publicado como preprint no arXiv. Conecta esse problema ao paradoxo de Fermi — a pergunta clássica sobre por que ainda não detectamos outras civilizações inteligentes apesar da vastidão do universo.

Em vez de supor que civilizações desaparecem definitivamente, a pesquisa propõe que sociedades tecnológicas podem atravessar repetidamente ciclos de expansão, crise, recuperação e novo desenvolvimento. Para testar essa hipótese, os pesquisadores construíram 10 cenários diferentes com variações de recursos, governança, pressão ambiental e capacidade de reconstrução após catástrofes.

Dez futuros simulados em 1.000 anos

Os pesquisadores fizeram 200 simulações de cada cenário, cobrindo um horizonte de 1.000 anos. As sociedades podiam continuar se desenvolvendo até esgotar determinados recursos ou sofrer um risco existencial aleatório, como uma catástrofe ambiental ou falha tecnológica. Após um colapso, algumas sociedades tinham capacidade de reconstrução, dependendo da tecnologia, da infraestrutura e dos recursos sobreviventes.

Os resultados mostraram comportamentos distintos entre os modelos, e os cenários chamados Golden Age (Idade de Ouro) e Out of Eden (Fora do Éden) completaram as simulações sem sofrer colapsos. Porém, sete dos dez modelos terminaram em colapso em todas as execuções.

Um modelo chamado Living with the Land (Viver com a Terra) representava uma sociedade submetida a fortes restrições ecológicas e se manteve tecnologicamente ativa durante aproximadamente 38% do período simulado. Ouroboros, um modelo hierárquico que encadeava expansão, colapso e recuperação, alcançou cerca de 87%.

Dois fatores para a sobrevivência

A análise identificou duas variáveis especialmente sensíveis para a sobrevivência de longo prazo. A primeira é a velocidade com que uma sociedade consome seus recursos. A segunda é a quantidade de recursos que consegue conservar ou recuperar após uma crise.

Mudanças relativamente pequenas em torno de certos limites provocaram diferenças importantes na capacidade de uma civilização permanecer ativa por longos períodos. Com base nesses resultados, os autores apontam estratégias como reduzir o consumo, proteger conhecimentos essenciais e projetar infraestruturas capazes de resistir a falhas.

O que diferencia civilizações que prosperam daquelas que desaparecem não é a tecnologia avançada, mas a relação sustentável com o ambiente e a capacidade de manter registros críticos após catástrofes.

Por que isso importa para entender o universo

A pesquisa não pretende prever o futuro exato da Terra. Seu objetivo é demonstrar como diferentes formas de organização social alteram a probabilidade de sobrevivência de sociedades avançadas. Se civilizações tecnológicas frequentemente atravessam ciclos curtos de visibilidade cósmica.

Isso explicaria por que o universo parece silencioso — não porque a inteligência seja rara, mas porque civilizações detectáveis duram períodos breves demais.

Esse modelo muda a forma como o paradoxo de Fermi é interpretado. Bastaria que as sociedades tecnológicas permanecessem detectáveis durante intervalos relativamente breves para explicar o silêncio cósmico. A simulação sugere que o principal fator para a permanência de uma civilização está menos na inovação contínua e mais na estabilidade gerenciada e na preservação de recursos para períodos de recuperação.

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