Um vídeo da TV Nova Imagem Brodowski, originalmente exibido na década de 1990, circulou recentemente nas plataformas digitais. Na reportagem, o repórter Alessandro Felix entrevista Tia Té sobre a introdução vocal do Hino Nacional, atualmente restrita à versão instrumental. O material audiovisual serviu como catalisador para discussões sobre as transformações históricas do símbolo patriótico.
Entre 1879 e 1880, o presidente da província do Rio de Janeiro criou versos para acompanhar o prelúdio musical do hino. A letra enfatizava deveres cívicos como serviço militar e obediência às leis, refletindo valores do período imperial. A estrutura poética continha exortações (encorajamentos) marciais como “Eia! Avante, brasileiros! Sempre avante!”, alinhadas ao projeto de construção identitária do Segundo Reinado.

Contexto político da supressão
Historiadores apontam que a transição para a República em 1889 tornou a letra anacrônica. O caráter monárquico dos versos contrastava com a necessidade de novos símbolos nacionais. Embora especulações vinculem a exclusão à Era Vargas (1937-1945), documentos do Arquivo Nacional indicam que a versão oficial sem a introdução vocal foi consolidada em 1922, durante as comemorações do centenário da Independência.
Conteúdo dos versos excluídos
Os trechos suprimidos continham metáforas bélicas e referências explícitas ao estandarte imperial (lábaro). A exortação “Gravai com buril nos pátrios anais o vosso poder” revela a concepção de história como registro de feitos heróicos. A repetição de “Eia sus, oh sus!”, expressão latina para “erguei-vos”, reforçava o caráter mobilizador da composição original. Veja o trecho completo:
À brisa gentil o lábaro erguei do belo Brasil. Eia sus, oh sus!
Espera o Brasil que todos cumprai com o vosso dever.
Eia! Avante, brasileiros! Sempre avante!
Gravai com buril nos pátrios anais o vosso poder.
Eia! Avante, brasileiros! Sempre avante!
Servi o Brasil sem esmorecer,
Com ânimo audaz cumpri o dever,
Na guerra e na paz à sombra da lei,
À brisa gentil o lábaro erguei do belo Brasil. Eia sus, oh sus!
O resgate musical contemporâneo
Em 2009, o projeto “Hinos à Paisana” do cantor Eliezer Setton recuperou a versão completa com a introdução vocal. A gravação demonstra a complexidade rítmica da execução original, que exigia sincronia entre coro e orquestra. A iniciativa permitiu analisar as dificuldades técnicas que possivelmente contribuíram para o abandono progressivo da letra.




