Colunistas

LEANDRO PROVENZANO

Agro mata?

Por que algumas pessoas ainda veem o agronegócio com maus olhos?

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Esses dias atrás, ao publicar um conteúdo sobre direito agrário na minha rede social fui perguntado por um seguidor se o agro mata.

Apesar dos números surpreendentes que vemos diariamente na mídia, bem como alguns dados que poucos têm acesso, como, por exemplo, o aumento da produtividade, mesmo sem o aumento das áreas de produção - o que foi conquistado graças a muito estudo científico produzido por empresas brasileiras, que são exemplos para o mundo – por que ainda há pessoas que veem o agronegócio como um vilão e não como um campeão nacional?

Alguns políticos, parte da imprensa e ambientalistas acabaram escolhendo o agronegócio como um vilão, um inimigo em comum, inimigo este relevante, até mesmo para colocar os holofotes nessa “luta” de narrativas, onde muitos acabam comprando essas histórias inventadas como verdade.

Para alguns políticos, essa narrativa de colocar o agro como vilão pode endossar projetos de lei como o que já foi votado no estado de Goiás com a taxação do agronegócio, já para imprensa, apoiar o politicamente correto também rende contratos de publicidade que são importantes para os cofres da empresa; para os ambientalistas, essa luta rende doações inclusive internacionais, uma vez que diversos países - a maioria deles que já destruíram suas florestas – realizam doações à organizações não governamentais e nem sempre com objetivos nobres como parecem.

Mas então por que alguns países têm interesse em prejudicar o agronegócio e, consequentemente nosso país? 

Essa resposta não é fácil de se encontrar, mas quando analisamos os países sob a ótica geopolítica (estudo das relações de poder entre os territórios e da articulação entre os diferentes países, considerando as vias diplomáticas e militares), os especialistas apontam o Brasil como um dos países com maiores condições de desenvolvimento a longo prazo, especialmente quando falamos na questão alimentar e energética.

Diferentemente da China, por exemplo, o Brasil é autossuficiente em alimentos, e importa muito pouco de outros países, já na questão energética, somos um dos poucos países que possuem um potencial de ampliação de suas fontes de energia gigantesco, e estamos falando de energia limpa, como a eólica e solar, por exemplo, muito diferente de outros países europeus que até hoje dependem de combustíveis fósseis para manter suas necessidades básicas e industriais.

Se compararmos o Brasil com a maioria dos países europeus, percebemos que há uma diferença gritante com a geração de energia.

A Alemanha que deixaria de usar energia nuclear por esta ser uma energia considerada “suja”, por exemplo, já reativou suas usinas, após a Rússia bloquear o fornecimento de gasoduto que alimentava as indústrias e residências alemãs, que utilizam cerca de 55% de sua energia proveniente daquele país.

Com dificuldade para manter o abastecimento de energia, esses países europeus não têm qualquer possibilidade de instalar mais indústrias na região, exceto se resolver esse problema, o que impede o crescimento industrial no país, uma vez que a criação de riquezas fica limitada às plantas fabris já instaladas. 

Por questão de estratégia então esses países acabam fazendo críticas ao agronegócio brasileiro, numa tentativa de taxá-lo como não sustentável, e incentivando com que alguns países suspendam a compra de produtos brasileiros.

Em regra, esses embargos não duram muito tempo, tendo em vista que para o mercado mundial o que importa é comprar alimentos por um bom preço, porém isso acaba manchando a imagem do agronegócio brasileiro.

Várias “forças invisíveis” pretendem manter o Brasil como país do futuro e jamais do presente. Por essas razões não podemos simplesmente replicarmos as notícias que vemos na mídia, porque o que muitas vezes está por trás disso tudo é uma verdadeira guerra geopolítica de narrativas que têm o intuito de prejudicar o crescimento nacional, de modo a evitar que o Brasil emerja no cenário mundial como uma grande potência.

Leandro Amaral Provenzano é advogado especialista em Direito Agrário, Tributário, Imobiliário e Direito do Consumidor. Membro das Comissões de Direito Agrário e Direito do Consumidor da OAB/MS. E-mail para sugestões de temas: [email protected] 

EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

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Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

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