As demandas sociais estão surgindo em uma velocidade de Fórmula 1. Não que tenhamos deficiência de conhecimento, grana e estrutura para fazer frente a elas. Geramos mais problemas do que soluções.
E quais seriam os fatores que turbinam essa discrepância? Vai um ponto de vista, que não é governamental. De quem observa tudo a meia distância. Quase um olhar de um ermitão urbanoide.
No livro “A Estrutura das Revoluções Científicas”, de Thomas Kuhn, as crises surgem quando os paradigmas (conjunto de pensamentos e conceitos) utilizados não conseguem mais responder às soluções para problemas ou crises que surgem na dinâmica social. Trocando em miúdo: muita conversa boa, mas de pouca resolutividade.
Nas coisas mais simples podem estar as soluções mais revolucionárias. Mas, como tudo gira em torno da famosa especialidade, a crença perde força e a dúvida cresce. Pronto, é o ambiente para a insegurança e a desconfiança. O pequeno grande problema das especialidades é que seu conjunto de conhecimentos e teorias ocorre na direção vertical. Isso quer dizer que uma hora ela acaba revelando sua limitação. Caminha só. Não se articula com outros saberes.
Diferentemente do conhecimento sistêmico ou, como se referem os leigos, holístico, o conhecimento é articulado com outras realidades. É um conhecimento horizontal. Um exemplo do conhecimento vertical vem da medicina. O cardiologista não atende gente com problemas no estômago ou no ouvido.
E assim por diante. Crianças têm de ter seu especialista. Quando não há ou são difíceis de encontrar, pobres crianças.
Influenciada pelo modelo sistêmico, ou holístico, como queiram, a Organização Mundial da Saúde estabeleceu como conceito de saúde “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de afeções e enfermidades”. O que vemos é uma supremacia do modelo biomédico.
Aquele que tem suas práticas na intervenção clínica assentada no tripé sintomas, remédios e hospitais. Não está mais dando conta das demandas. E não tem nada a ver com aumento populacional. O mais provável é que esta longeva crise esteja sendo pressionada pelas mudanças climáticas e por um modelo ultrapassado.
Além, é claro, de uma categoria malformada e resistente a uma atualização de suas práticas, que nada tem a ver com o aparato tecnológico.
Focaram tanto nos distúrbios no corpo biológico que, diante da ação criminosa em Santa Catarina, em uma pequena creche no interior do País, a sociedade foi obrigada a recorrer ao botão do pânico e a câmeras “de segurança”. Me lembra o livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley.
Apressados demais em ser capitalistas selvagens, em que enriquecer é a prioridade, fomos deixando de lado os remédios mais antigos e eficientes. Não estou me referindo aos chás de nossas avós, mas às inesquecíveis brincadeiras de criança. Como alimentavam sonhos, fantasias e sociabilização! O mundo infantil hoje é entre quatro paredes, na frente de um computador, longe da terra e das praças. Enfim, a ludicidade humana se perdeu no mesmo caminho em que apareceu a competição desenfreada e a agressividade.
Gostaria de ressaltar às “autoridades” que o lazer é o melhor botão do pânico. Não compreendo como menosprezaram essa mágica ferramenta de socialização. Lazer, arte e cultura foram rebaixados à categoria de acessórios chiques na sociedade capitalista de consumo.
Quer mudanças na matriz do comportamento coletivo? Comece e continue levando arte e cultura para todas as praças. Nada daqueles brinquedinhos idiotas de pula-pula (não sei se é o nome correto), mas, geralmente, quando querem fazer uma bondade na periferia, colocam esses brinquedos inúteis com cachorro-quente de segunda categoria para diversão da criançada. Um horror!
Arte, lazer cultural, teatro do bom e oficinas de artesanato com música pouco barulhenta e que tenha boa mensagem em suas letras podem ser os remédios que farmácias não vendem e os governantes não controlam.
Tomara que a ministra Margareth Menezes não seja mais uma especialista. Sonho que ela utilizará a verba e a estrutura disponível para competir, em saúde mental e social, com o Ministério da Saúde.
Agora, nada de querer resultados para ontem. Os efeitos desse remédio aparecem no médio prazo. Desfazer-se desse condicionamento, de que tudo tem de ter resultado imediato e com retorno político, não é tarefa fácil. Mas, que funciona, funciona. As pessoas estão precisando relaxar e reaprender a brincar. É um santo remédio para o humor das pessoas. Claro, do tecido social também.
O novo secretário de Cultura de MS parece estar mais preocupado com a sua carreira política, tal como um monte de pessoas que ocupam cargos vitais para o bem-estar coletivo. E nós, contribuintes, obedientemente pagamos tais carreiras.





