Colunistas

CLÁUDIO HUMBERTO

"O pior que podemos fazer é tapar o sol com o dedo"

Luis Lacalle Pou, presidente do Uruguai, sobre Lula distorcendo fatos com "narrativas"

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Lula desagrada esquerda e direita no continente

Sob forte influência do ativista radical tardio Celso Amorim, 81 anos, Lula (PT) agora conseguiu desagradar presidentes de esquerda e de direita, no continente, reunidos em Brasília. Pagou o mico de ouvir críticas abertas do conservador uruguaio Luis Lacalle Pou e até do comunista chileno Gabriel Boric, inconformados com sua lorota de que a ditadura venezuelana seria uma “narrativa”. A mentira irritou os presidentes que, ideologicamente antagônicos, têm em comum o respeito à democracia.

Só pisando na bola

Após passar vergonha endossando Putin e recuar perante o G7, Lula ganhou o desprezo de Zelensky e correu para foto com Nicolás Maduro.

Boric viu o horror

O esquerdista Gabriel Boric insistiu que a ditadura de Maduro não é uma narrativa, é algo “real e sério”. Mais: “vi o horror dos venezuelanos”.

Tapando sol com o dedo

“O pior que podemos fazer é tapar o sol com o dedo”, afirmou Lacalle Pou, referindo-se à distorção que Lula faz da realidade na Venezuela.

Mentira virando ‘verdade’

Ao conclamar Maduro a “mudar a narrativa”, Lula parecia tentar passar ao ditador a própria experiência vitoriosa de criar narrativas contra fatos.

Valdemar ataca Salles para preservar cargos em SP

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, tornou público ontem seu incômodo com o crescimento no campo conservador da candidatura do deputado Ricardo Salles à prefeitura de São Paulo, classificando o ex-ministro como alguém de “extrema direita”. Não é a questão ideológica que está em jogo. Valdemar está irritado porque assumiu compromisso de apoiar a reeleição do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que retribuiu com o controle da secretaria do Verde e Meio Ambiente e duas subprefeituras.

Ninguém tasca

Político à moda antiga, Valdemar controla cargos e vontades na secretaria municipal e nas subprefeituras de Campo Limpo e do Butantã.

Firmando posição

Apesar do ataque a Salles, Valdemar deixou claro também que o ex-presidente Jair Bolsonaro irá definir o candidato do PL à prefeitura.

Rebordosa à direita

Após o post nas redes sociais, Valdemar passou a ser alvo de críticas duras de bolsonaristas que não querem a reeleição do atual prefeito.

Vai uma narrativa aí?

Mesmo autorizada a fazer perguntas ao ditador, a repórter Delis Ortiz foi covardemente agredida por um capanga de Nicolás Maduro. Ao tirano resta seguir conselho de Lula e arrumar uma “narrativa” para o episódio.

Virou caso de polícia

O Itamaraty confirmou processo contra o embaixador Alfredo César Martinho Leoni, agora despachado para investigação da Polícia Federal, Ministério Público e TCU. Mas foi arquivado “na esfera correcional”.

Ditadura tranquila

Coube a Lula entregar a má influência: o aspone Celso Amorim disse a ele que “nunca viu, desde o tempo que a gente frequenta a Venezuela, uma tranquilidade... que ta tendo [no país]”. Como se uma ditadura feroz, que prende, tortura e mata, permitisse manifestações de protesto.

A diferença

“O ‘autoritário’ Bolsonaro, que falava bastante o que não praticava, jamais perseguiu ninguém, nem mesmo Lula”, disse o ex-senador e ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB) nas redes sociais.

Poder afrodisíaco

Lula adorou saber que, como ele, octogenário assessor se apaixonou por uma petista radical de apenas 38 anos. “O poder é afrodisíaco”, brincou, citando frase célebre do saudoso Fernando Lyra, ex-ministro de Sarney.

Há opções no PL

Valdemar Costa Neto, cacique do PL, diz não acreditar em inelegibilidade de Jair Bolsonaro, mas tem plano B, caso ocorra. Disse que tem muita gente boa no partido. Como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

No cangote

A acusação de importunação sexual de Márcio Jerry (PCdoB-MA) contra a deputada Julia Zanatta (PL-SC) finalmente chegou ao Conselho de Ética. A representação foi apresentada pelo partido da parlamentar.

Dano moral

O ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal Silvinei Vasques entrou com ação contra o André Janones (Avante-MG) por ter sido ofendido com palavras como “bandido”. O pedido de indenização é de R$312 mil.

Pensando bem...

...“narrativas” transformaram um corrupto em “perseguido” e punição por crime de responsabilidade em “golpe”.

 

PODER SEM PUDOR

Elegante pregador

Durante a Constituinte que escreveu a atual Constituição, o senador Afonso Arinos (PSDB-RJ) não relaxava na pregação parlamentarista. Certa vez, em conversa com repórteres no Congresso, ele começou a discorrer sobre as crises do presidencialismo, ao longo da História. Os jovens jornalistas não pareciam muito interessados. Afonso Arinos captou a mensagem. “Meus filhos, isto para vocês é História, mas entendam: para mim, é memória...”, ensinou.

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EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

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Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

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