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Reindustrialização no Brasil

As primeiras manufaturas foram abertas ainda durante o século 19

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A exemplo de experiências bem-sucedidas como as que aconteceram na Alemanha, no século 19, e na Coreia do Sul, no século 20, a industrialização no Brasil também é considerada um processo tardio e impulsionado pela figura do Estado.

As primeiras manufaturas foram abertas ainda durante o século 19, mas não se consolidaram em função do domínio político exercido pelos representantes do setor primário.

Com a Crise de 1929 e a derrocada das lavouras de café, o progresso da industrialização passou a ganhar prioridade, desta feita no contexto do governo Vargas e do Estado Novo. Nesse período, os capitais privados, provenientes dos cafeicultores, e o capital estatal foram a base para a construção de siderúrgicas, ferrovias e portos.

A chegada de Juscelino Kubitschek ao poder e o acirramento da Guerra Fria ensejaram oportunidades para uma nova etapa de industrialização, marcada pelo ingresso de empresas multinacionais e capital para o financiamento de novas plantas industriais no País.

A composição do capital estatal, privado, nacional e internacional promoveu a cadeia produtiva do automóvel, resultando no crescimento da malha rodoviária brasileira e na maior conexão do território nacional.

Durante os anos 1960 e 1970, houve um boom da industrialização no Brasil, com uma variedade de fábricas que produziam desde os bens de consumo não duráveis e bens de capital.

A partir de uma importante revolução produtiva associada à microeletrônica e às tecnologias da informação, passaram a ocorrer mudanças significativas no modo de produção.

Nesse cenário de fim da Guerra Fria e da cessação da oferta de capitais estrangeiros, a indústria brasileira, cada vez mais sucateada e menos competitiva internacionalmente, passou a ser objeto de medidas neoliberais, intensificando a concorrência interna com a maior presença das empresas estrangeiras.

Esse período foi marcado por uma onda de privatizações de organizações estatais, pelo processo de fusão e aquisição de companhias menores por outras de maior porte e pelo fechamento ou aquisição de diversas fábricas nacionais pelas internacionais.

Superados os desafios da crise da dívida externa e da hiperinflação, com o início do atual milênio, passaram a ser recorrentes as tentativas de reindustrialização do País.

Não obstante os PACs 1 e 2 tenham logrado êxito em alguns setores, como o da construção de infraestrutura, produção de energia limpa e petróleo, não se conseguiu criar um processo consistente de desenvolvimento sustentado a partir da indústria.

Seja pela ausência de foco das medidas do PAC 1 e 2, seja pela inexistência de um consenso político a respeito do tema, o fato é que a reindustrialização ainda não pegou.

Com a eleição do novo governo em 2022, o tema voltou à agenda de prioridades com o anúncio do PAC 3, quando o governo federal anunciou um valor previsto de R$ 1,7 trilhão, com a expectativa de desembolsos, até 2026, de R$ 1,4 trilhão.

Esse aumento dos investimentos tem a potência de elevar a taxa de investimentos para algo em torno de 21,5% do PIB, com efeitos multiplicadores caracterizando um novo ciclo de reindustrialização ou neoindustrialização.

Dessa forma, entendendo-se esse processo como a reedição da indústria em novos setores sustentáveis, nos quais o Brasil poderá ter maiores vantagens competitivas.

Detentor da melhor matriz energética do mundo, além de futuro produtor com saldo de carbono zero e exportador de energia sustentável, o Brasil tem potencial para se destacar como ofertante internacional de produtos verdes.

Esses fatores podem ainda ser potencializados a partir das sinergias com a produção do agronegócio e com o aumento da preocupação mundial com a aceleração das mudanças climáticas.

Todavia, há alguns óbices relevantes para a consecução dessa nova etapa de industrialização.

Primeiramente, é indispensável a participação do capital privado nacional e internacional no processo, mas esses dependem, logicamente, da construção de um relativo consenso político a respeito da importância do tema.

Outra questão importante é a superação de alguns gargalos no transporte e na infraestrutura (aero) portuária, além da falta de qualificação no Brasil, que não dispõe da oferta de ensino de qualidade e tem a presença de jovens brasileiros reduzida nas universidades.

EDITORIAL

O bolso também vai às urnas

Renegociação de dívidas alivia o orçamento, mas não resolve a distância entre o desejo de consumo, a renda e a capacidade de pagamento

19/09/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado mostra que os feirões de renegociação de dívidas e programas como o Desenrola, embora tenham permitido a milhões de brasileiros reorganizar suas finanças, não têm sido o suficiente para resolver o problema do endividamento. Renegociar uma dívida pode aliviar juros e recuperar parte da capacidade de pagamento, mas não elimina as causas que levaram o consumidor a comprometer sua renda.

A explicação para isso tem várias camadas. Em primeiro lugar, os hábitos de consumo não apenas do brasileiro, mas do cidadão do mundo ocidental, mudaram. O aumento da escala de produção tornou mais acessíveis produtos e serviços que antes eram restritos a uma parcela menor da população. Ao mesmo tempo, as redes sociais turbinaram a exposição a esses produtos, criando e ampliando desejos de consumo que nem sempre correspondem à renda de quem os deseja.

O problema surge quando a expectativa de consumo cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira. A sociedade passou a conviver com uma vitrine permanente de viagens, carros, roupas, eletrônicos, restaurantes e experiências. O que antes era visto como excepcional passou a ser apresentado diariamente como algo comum e desejável. O consumidor, porém, continua limitado pela renda que recebe.

Dessa distância entre desejo e capacidade de pagamento surgem dois problemas. O primeiro é a frustração de quem não consegue alcançar aquilo que gostaria de ter. O segundo, ainda mais grave do ponto de vista financeiro, é o superendividamento de quem recorre ao crédito para aproximar sua realidade do padrão de consumo que deseja. O crédito, que deveria ajudar principalmente na aquisição de bens duráveis e no planejamento financeiro, acaba sendo utilizado para antecipar uma renda que não existe.

É por isso que os feirões e programas de renegociação, por mais importantes que sejam, não podem ser vistos como solução definitiva. Eles atacam a dívida já existente, mas não necessariamente modificam os hábitos de consumo, as expectativas ou a relação do cidadão com o crédito. Sem essa mudança, existe o risco de que a renegociação apenas abra espaço para um novo ciclo de endividamento.

Essa realidade também terá reflexos sobre as eleições que se aproximam. O bolso do cidadão é uma dimensão concreta da vida pública e pode pesar na forma como parte do eleitorado avalia governos, políticas econômicas e candidatos. Questões como corrupção, rachadinha e soberania continuarão presentes no debate, mas podem dividir espaço com preocupações muito mais imediatas para quem enfrenta dificuldades para fechar as contas do mês.

No fim, a questão é simples e, ao mesmo tempo, complexa: quanto maior a distância entre aquilo que o cidadão deseja consumir e aquilo que sua renda permite, maior tende a ser a pressão sobre seu orçamento e sua percepção sobre a realidade econômica. Compreender essa relação entre consumo, crédito, renda e frustração será importante para entender uma parcela do comportamento do eleitor nas eleições deste ano.

ARTIGO

Pelo fim dos superpoderes e a defesa da Constituição

19/09/2026 07h00

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Pedro Simon - Advogado, foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, em defesa de um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.

Hoje, assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.

Vivemos hoje a maior crise deste século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a sociedade civil e a comunidade internacional.

Enquanto o Poder Executivo é capturado por projetos de poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de Estado-nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o domínio dos mesmos grupos políticos fisiológicos.

Enquanto isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos os assuntos da República – mas, sob o comando de alguns de seus agentes e salvaguardadas honrosas exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e corruptores que se propõe a julgar.

As investigações em torno do escândalo do Banco Master e o embate público recente entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) expuseram, em todo o País, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso, tornou-se palco de disputas que corroem a sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos Três Poderes da República.

A recente deliberação do STF aprofunda essa crise de credibilidade institucional. Ao expor divisões internas e hesitar no rigor sobre as apurações do caso do Banco Master que envolvem membros da própria Corte, o Tribunal compromete a autocontenção e a neutralidade exigidas da magistratura. O episódio confirma que a ausência de controle externo efetivo e a resistência à transparência corroem a autoridade moral do guardião da Constituição.

Foi no Senado que passei 32 dos meus 60 anos de vida pública, ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um alerta: compete privativamente ao Senado, por força da Constituição Federal, processar e julgar os ministros do STF por crimes de responsabilidade. Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a erguer em 1988, e hoje ele está, na prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da mesa diretora, sem parecer e sem votação.

Em toda a nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever constitucional, seja por cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.

O Brasil precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure investigação regular e independente sobre os fatos revelados, assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o STF retome, sem subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o Banco Master sejam investigados, independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo quem julga a Nação, esteja acima da lei.

Chegou o momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então, àquilo em que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um só poder, mas no equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado: que não desistam da política, nem do Brasil. 

A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez, prevaleça.

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