Os sinais antepassados mais incríveis que conheci foram aqueles de fumaça usados pelos índios sioux, o Código Morse, as letras e seus inspiradores, os hieróglifos. É fantástico como os seres humanos os usaram para se comunicarem. Próximos ou distantes, para o amor ou para a guerra, venciam distâncias e aproximavam intenções.
Hoje, apesar do enorme conhecimento e das variadas tecnologias de informação e comunicação, nossa capacidade de decifrar códigos e sinais de comunicação entre pessoas parece insuficiente para promover um diálogo consensual.
Aquele capaz de usar a voz individual para construir um vozeirão coletivo, querendo neutralizar o predomínio do pessoal sobre o coletivo. Parece que os objetivos individuais prevalecem sobre os coletivos.
Aliás, definir objetivos tornou-se o mantra do século 21.
E o homem virou uma máquina de calcular resultados deles. Muitos sabidinhos chamam isso de racionalidade misturada com racionalização. Esse fator comportamental alimentou a fome do tempo a devorar coisas inúteis.
Não contagiou Manoel de Barros. Sua poesia era justamente feita de “coisas inúteis”. No entanto, só os sensíveis sabiam reciclá-las. Penso que ele sabia antes de nós, que nos tornamos práticos e apressados em tudo. No seu refúgio, pantaneiro ou urbanoide, não deixava ninguém distrair sua sensível convicção da inutilidade das coisas materiais.
Acho que gostava das coisas soltas no ar para ter a chance de pegá-las sem ninguém ver. Depois dividia com os outros em forma de letras e palavras. Seus sinais preferidos.
Criamos tecnologias para não sermos pegos de surpresa, como o satélite capaz de mudar a trajetória de um asteroide perigoso para a vida na Terra. A meteorologia criou cálculos e fórmulas para saber sobre o comportamento climático.
Depositou em suas tecnologias todo o saber sobre o tempo e o vento. Não precisava mais da antiga sabedoria popular dos anciãos da catinga nordestina, que se miravam nos sinais do frenesi do formigueiro, do avoar de pássaros e do cheiro do vento para fazer sua surpreendente previsão de chuva para o sertão ardendo em seca e quentura.
Era uma boa capacidade intuitiva de associar diferentes sinais do mundo natural. Tinham seus acertos festejados com a desejada chuva.
Desde o começo do século 21 estamos ignorando os sinais da atmosfera. Em especial naquilo de mais essencial à vida humana – o oxigênio em seu estado puro. Menosprezamos um princípio elementar de que em qualquer composição que se faça não pode haver excessos impositivos, entendendo que predomínios são prejudiciais à qualidade da composição.
Isso serve para o casamento de pessoas, de elementos orgânicos e inorgânicos, como os gases. Tal menosprezo chegou à atmosfera terrestre. O predomínio de alguns deles, como metano e o gás carbônico, por exemplo, bastou para desequilibrar a composição diplomática alcançada durante milhões de anos entre todos os componentes que deram origem à vida no nosso planeta.
Viramos o rosto para sinais desequilibrantes do conjunto atmosférico. Demos preferência em antecipar sinais que ameaçassem os negócios de produção e consumo e naquilo que nossa prepotência dominadora nos pedia.
Agora, com os sinais ignorados do caos climático, estamos com duas escolhas. Ambas dependerão de colocar pensamentos e desejos individuais para o benefício global.
Ou retrocedemos em nossas práticas sedentárias de consumo ou estes invisíveis e mortais gases de efeito estufa aniquilam toda uma espécie etnocêntrica – os humanos e sua “cadeia” alimentar. Bom frisar as aulas ginasianas de química inorgânica que dizia que o calor torna os gazes mais voláteis.
Trocando em miúdos: mais calor igual a mais ventos amalucados e imprevisíveis, com ou sem gotículas de água.
Daí é só relembrar tais aulas, enforcadas ou não, e imaginar a ansiedade dos cientistas climáticos na COP27, que insistem, junto dos indecisos governantes, em manter a temperatura do planeta em 1,5 grau. Acima disso, tudo ficará tão improvável quanto a dança louca dos ventos.
Melhor se inspirar em Manoel de Barros, um minimalista das letras, e suas provocadoras “coisas inúteis”. Talvez consigamos fazer do caos civilizatório que se aproxima um poema de reencontro do homem com a natureza abandonada. Essas coisas simples e inúteis não participam da COP27.
A falta de consenso sobre a existência, ou não, da crise climática foi vencida depois de 27 anos de encontros congressuais em muitos e variados lugares do mundo. Mas o caos climático bate à porta de indivíduos e nações. Não há rota de fuga. Com ou sem grana. É a cidadania a mais forte moeda corrente capaz de oferecer esperança.




