Política

MERCOSUL

Lula assumirá presidência do Mercosul em meio a tensões com União Europeia

Presidente poderá discutir, finalmente, com os vizinhos suas insatisfações sobre novas exigências ambientais dos europeus para ratificar o acordo de livre comércio entre os dois blocos

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Depois de um hiato de 13 anos, o presidente Lula voltará a se sentar na cadeira de presidente do Mercosul. Seu aliado argentino Alberto Fernández lhe passará o bastão em meio a tensões com a União Europeia que devem dominar o encontro, na próxima terça (4), entre os líderes de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, além dos outros sete sul-americanos associados, exceto a Venezuela.

O brasileiro participará do bloco pela primeira vez neste mandato e poderá discutir, finalmente, com os vizinhos suas insatisfações sobre novas exigências ambientais dos europeus para ratificar o acordo de livre comércio entre os dois blocos, que tem travado as discussões desde o início do ano.

Outro tema que pode voltar à 62ª cúpula semestral do grupo, do lado argentino das Cataratas do Iguaçu, na cidade de Puerto Iguazú, é o desejo do uruguaio Luis Alberto Lacalle Pou de firmar um acordo bilateral com a China. Há expectativa de que o país siga insistindo no assunto, amplamente criticado pelos governos atuais de Brasil e Argentina.

Já um eventual retorno da Venezuela ao Mercosul ainda parece distante, mesmo com os acenos de Lula e a aproximação da região ao ditador Nicolás Maduro desde a última cúpula, em dezembro, à qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não foi. O país foi suspenso do bloco em 2016 por violar a cláusula democrática do grupo.

"[Se o Brasil] pretende levar [esse tema à reunião], eu diria que não. Agora, se é interesse do Brasil ter a Venezuela de volta? Sim. Mas para isso precisam ser cumpridas certas condições, as condições de ingresso de qualquer país do Mercosul", afirmou a embaixadora Gisela Maria Padovan, secretária de América Latina e Caribe do Itamaraty, a jornalistas na última quinta (29).

Segundo ela, a principal mensagem que Lula quer levar ao encontro é a "repriorização" do bloco e a integração da região não só no comércio, mas em áreas como infraestrutura, saúde e defesa. "Mas eu não posso antecipar [o que ele vai falar]. Claro que a gente faz os discursos, mas o presidente Lula sempre diz que não vai ler", disse ela, rindo.

Maior sinal disso são as falas reiteradas do presidente apontando para os europeus. "Vocês viram agora que o Congresso francês aprovou que não vai querer fazer acordo com o Mercosul, porque eles acham que o Brasil não vai poder cumprir as metas de Paris?", discursou ele na última terça (27), no lançamento do Plano Safra 2023-2024. "E quem cumpre? Quem deles cumpriu alguma meta agora mais do que nós?"

Negociado oficialmente desde 1999, o acordo Mercosul-União Europeia foi concluído em 2019, no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro (PL), mas ainda não foi ratificado pelos dois blocos. O principal impasse para isso é um anexo ao texto, chamado de "side letter", proposto pelos europeus no início deste ano, que tornaria obrigatórios alguns compromissos ambientais antes voluntários.

Enquanto a Europa quer garantir que a exportação de commodities com problemas ambientais seja vista como uma violação passível de sanções, o governo brasileiro considera as condições muito rígidas e vem subindo o tom das críticas. "Não é possível que haja uma carta adicional fazendo ameaças a parceiro estratégico", repetiu o petista na França, há uma semana.

Outro ponto do acordo que Lula tem insistido publicamente em rever são as compras governamentais. Esse capítulo prevê "tratamento nacional" a fornecedores estrangeiros contratados pelos Estados, mas também tem várias exceções para proteger as empresas nacionais. Ainda assim, Lula e principalmente o argentino Alberto Férnandez veem prejuízos às suas indústrias.

"Essa vai ser uma cúpula diferente, com um eixo Brasília-Buenos Aires muito mais forte em relação a 2022", diz a argentina María Victoria Alvarez, professora de relações internacionais da Universidade Nacional de Rosário. "A Argentina sempre foi bastante cautelosa, nos governos kirchneristas, em relação a tratados de livre comércio que abram sua indústria, e deve seguir defendendo essa questão", completa a especialista em União Europeia.

Uma aguardada resposta à carta da UE, porém, não deve sair nesta cúpula do Mercosul. "O governo está terminando sua avaliação de pontos específicos e está traduzindo as instruções do presidente Lula para um documento que será apresentado aos parceiros do Mercosul e depois à UE", diz Maurício Lyrio, secretário de assuntos econômicos do Itamaraty, afirmando que a proposta "está muito próxima" e "não tardará".

Antes do encontro de presidentes, nesta segunda (3) acontece a reunião do Conselho do Mercado Comum (CMC) com ministros do bloco, mas Fernando Haddad (Fazenda) não deve ir. Ele ficará em Brasília para se dedicar à articulação de projetos como o arcabouço fiscal e a reforma tributária, com votações pautadas na Câmara.

Estão confirmadas até agora as presenças do chanceler Mauro Vieira e do secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Rosa. Ao final dos dois dias de debates, Fernández passará a presidência semestral do bloco a Lula, que organizará a cúpula seguinte, em dezembro de 2023 ou janeiro de 2024.

"Na última cúpula, o assunto mais polêmico foi o acordo de livre comércio que o Uruguai quer fechar com a China. Esse debate é muito importante e deve retornar", afirma o professor Cairo Junqueira, coordenador do Observatório de Regionalismo, originado na Unesp, Unicamp e PUC-SP.

O país vizinho, que não assinou a declaração final da reunião de dezembro, defende fortemente que as restrições de acordos bilaterais fora do bloco "contribuem para aprofundar as assimetrias em detrimento das economias de menor dimensão econômica". Já Brasil e Argentina sustentam que eles ferem uma normativa de 2000 e podem destruir a Tarifa Externa Comum do bloco.

"Isso continua na agenda do Uruguai, porque está na agenda dos partidos que estão na coalizão de base do governo [de Lacalle Pou] e de atores do setor privado do país", diz Camilo Burian, professor de política externa sul-americana da Universidade da República Uruguaia (Udelar).

O Itamaraty indica que "não vê relevância nesse debate, porque não há novidades". Já o Ministério de Relações Exteriores do Uruguai afirmou que não daria declarações prévias à reunião -a Argentina e o Paraguai, governado por Mario Abdo Benítez, não responderam aos pedidos de entrevista. A Bolívia ainda está em processo de adesão.

Segundo o governo, o Mercosul movimentou US$ 46,1 bilhões internamente e US$ 727 bilhões no comércio com o resto do mundo em 2022. Os principais destinos das vendas do bloco são China, Estados Unidos e Países Baixos. A região também correspondeu a 6,5% das exportações e 6,9% das importações brasileiras no ano passado.

Redes Sociais

Deputada Mara Caseiro relata invasão e uso indevido de perfil oficial no Instagram

Parlamentar afirmou que mensagens, comentários e conteúdos publicados durante o período devem ser desconsiderados

23/08/2026 16h30

A deputada estadual Mara Caseiro f

A deputada estadual Mara Caseiro f Arquivo

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A deputada estadual Mara Caseiro (PSDB), e também candidata a uma cadeira na Câmara Federal  informou, por meio de uma publicação nas redes sociais, que seu perfil oficial no Instagram teria sido acessado e utilizado indevidamente por uma pessoa que integrava sua equipe de comunicação.

Segundo a parlamentar, durante o período em que a conta teria sido acessada, perfis foram bloqueados e ofensas foram publicadas em seu nome, sem autorização e sem participação da atual equipe de comunicação. “Peço que desconsiderem qualquer mensagem, comentário, solicitação ou conteúdo estranho enviado pelo meu perfil nesse período”, escreveu a deputada na publicação.A deputada estadual Mara Caseiro f

Mara Caseiro afirmou ainda que as providências necessárias já estão sendo tomadas para apurar o ocorrido, mas não detalhou quando o acesso indevido teria acontecido, por quanto tempo a conta permaneceu sob controle da outra pessoa ou quais conteúdos e comentários foram publicados.

O Correio do Estado entrou em contato com a assessoria de comunicação da deputada para obter um posicionamento e mais informações sobre a situação, mas não recebemos o retorno até a publicação desta matéria.

Eleições

Procuradoria eleitoral barra candidatura de dono de faculdade na fronteira

Doação irregular às vésperas de eleição municipal há seis anos foi determinante para derrubar candidatura

23/08/2026 09h45

Carlos Bernardo (União Brasil)

Carlos Bernardo (União Brasil) Foto: Divulgação

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Pela segunda vez em quatro anos, a Procuradoria Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul optou por barrar a candidatura de Carlos Bernardo (União Brasil), candidato a deputado federal e fundador da Faculdade de Medicina da Universidade Central do Paraguai em Pedro Juan Caballero, cidade fronteiriça a Ponta Porã, interior do Estado.

O pedido foi assinado pelo Procurador Silvio Pettengill Neto neste sábado (22), que manteve sua decisão anterior sobre a derrubada da candidatura. Em 2022 ele também foi impedido de disputar as eleições pelo mesmo motivo. 

A impugnação sobre a candidatura tem como base uma doação irregular de R$ 90 mil realizada por Carlos Bernardo à campanha de Rogério Rezende Silva, candidato a prefeitura de Itumbiara-GO em 2020. Em decisão colegiada, a Justiça determinou à época que o repasse ultrapassou o limite legal de 10% dos rendimentos brutos auferidos pelo doador em 2019.

Com base na declaração de imposto de renda, Carlos Bernardo poderia doar até R$ 20.767,55, contudo, o repasse ultrapassou em R$ 69.223,45 o limite permitido. 

Na ocasião, ele foi apontado como o maior doador da campanha de Rogério Rezende, valor que correspondeu a 26,58% da arrecadação total do candidato e 300% do que ele poderia doar.

Conforme a alegação do procurador Silvio Pettengill Neto, a doação "não deveria existir na realidade da
campanha eleitoral do beneficiário, de modo que a sua simples existência na conta bancária de candidato ou partido beneficiado, por óbvio, acarretou o desequilíbrio entre os candidatos em disputa."

De acordo com o Portal DivulgaCandContas, da Justiça Eleitoral, a doação aconteceu às vésperas do primeiro turno, 13 de novembro, dois dias antes do pleito. Rogério Rezende foi derrotado nas urnas. 

Desse modo, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul reconheceu a irregularidade, ratificou a sentença do juízo da 52ª zona eleitoral e impediu Carlos Bernardo de disputar as eleições há quatro anos, quando lançou-se candidato a deputado federal pelo MDB. 

"A Lei Complementar n. 64/1990, ao regulamentar as hipóteses de inelegibilidade infraconstitucionais, estabelece no art. 1º, inc. I, al. p, que 'são inelegíveis (...) para qualquer cargo (...) a pessoa física e os dirigentes de pessoas jurídicas responsáveis por doações eleitorais tidas por ilegais por decisão transitada em julgado ou proferida por órgão colegiado da Justiça Eleitoral, pelo prazo de 8 (oito) anos após a decisão, observando-se o procedimento previsto no art. 22'”.

Apesar da decisão colegiada impedir a candidatura de Carlos Bernardo por oito anos, ele disputou a prefeitura de Ponta Porã em 2024.

Na ocasião, a Justiça entendeu que a doação irregular realizada por ele ao candidato goiano não impactaria diretamente a disputa pela prefeitura ponta-poranense.

A determinação da Procuradoria Eleitoral será encaminhada à Justiça eleitoral que deve acatar o pedido nos próximos dias. 

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