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Lula renova interesse pelo Brics em meio a diferenças no bloco e possível expansão

Lula voltou à Presidência e incluiu entre as suas promessas fortalecer o bloco que um dia ajudou o país a se projetar mundialmente

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"Os Bric já não são apenas um conjunto de letras. São uma referência incontornável na tomada das principais decisões internacionais", escreveu o então presidente Lula em 2010, às vésperas da segunda cúpula entre os dirigentes de Brasil, Rússia, Índia e China, ainda sem a África do Sul como parte do bloco.

À época, os quatro países que encarnavam o futuro da economia mundial segundo as previsões do mercado financeiro tinham acabado de se apropriar do acrônimo cunhado por Jim O’Neil. Em vez de os Bric, no plural, viraram o Bric, singular —pouco depois, com a entrada da África do Sul, o Brics.

Agora, Lula voltou à Presidência e incluiu entre as suas promessas fortalecer o bloco que um dia ajudou o país a se projetar mundialmente —deixado um pouco à margem pelo governo Bolsonaro. Mas, na última década, o cenário mudou muito para esse grupo de nações, unido em torno da busca de mais influência nos principais organismos multilaterais e a construção de uma ordem internacional multipolar.

Há, ainda, desafios internos. A China, que se tornou a segunda maior economia mundial, e a Índia, a quinta, rivalizam em vários fronts, de rusgas militares na fronteira à participação de Nova Déli no Quad, grupo com Japão, Austrália e liderado pelos EUA com propósito aberto de se opor a Pequim. Já Brasil e África do Sul ficaram reféns de suas dinâmicas internas, passando por sucessivas crises políticas e econômicas. E a Rússia, cujas relações com o Ocidente já vinham se deteriorando, aprofundou esse cenário ao invadir a Ucrânia e dar início ao maior conflito em território europeu desde a Segunda Guerra.

Professor de relações internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Paulo Velasco afirma que a última década foi bastante hostil para parte do agrupamento. Se entre 2000 e 2011 os países do Brics tiveram uma média anual de crescimento de 17% em dólares nominais, de 2011 a 2019 esse índice caiu para 5%, de acordo com a revista britânica The Economist. Mesmo China e Índia não conseguiram manter o ritmo de crescimento que tinham no início dos anos 2000.

Ao mesmo tempo, as potências ocidentais recuperaram parte de seu poder relativo. "Houve uma inversão de lógica", diz Velasco, dando como exemplo o aumento de poder do G7, que reúne Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, em detrimento do G20, mais plural.

Ana Elisa Saggioro Garcia, coordenadora do Brics Policy Center e professora da PUC-Rio, observa que o próprio Brics passou por um processo de resfriamento. "As cúpulas anuais continuaram acontecendo, mas a discussão sobre o seu papel frente à hegemonia americana caiu um pouco em desuso."

Nesse cenário, a questão que se impõe é se faria sentido para o Brasil apostar mais uma vez num grupo que, mesmo em seus anos de maior projeção, foi tachado de politicamente irrelevante e criticado pelas agendas frequentemente contraditórias de seus integrantes. Some-se a isso o mal-estar gerado pela invasão da Ucrânia, e o maior crescimento da economia chinesa em comparação aos demais membros do bloco, o que levou o cientista político americano Graham Allison a sugerir que o acrônimo virasse "Ribs".

Assessor especial de Lula e principal conselheiro do petista para a política externa, Celso Amorim defende a relevância do grupo 15 anos após sua formação. Ele afirma que, apesar das disparidades entre os países-membros, sua existência é em última instância positiva para o equilíbrio mundial.

Amorim ecoa Lula ao dizer que o Brics pode ajudar a avançar as negociações de paz na Ucrânia. "O Brasil condena o uso da força, a quebra da integridade territorial, mas a Rússia é um país com 11 fusos. Isolá-la é uma ilusão", afirma.

"O primeiro passo é querer negociar. Tem muita gente que fala com o presidente da Ucrânia, o Brasil falará também. Mas quase ninguém fala com o presidente da Rússia. O Brics pode ter papel importante nisso, e não vejo uma contradição, mas uma necessidade adicional de persuasão."

Paulo Visentini, professor de relações internacionais da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), diz não ser tão otimista em relação à capacidade de articulação do país com o restante do Brics hoje.

Ele afirma que, ao condenarem as ameaças do ex-presidente Jair Bolsonaro ao sistema eleitoral, EUA e União Europeia demonstraram preferência por Lula. Mas esse tipo de apoio não vem sem cobranças.

"É muito claro que os EUA estão numa competição com China e Rússia. As pessoas acreditam que a política externa brasileira terá a mesma performance [que nos mandatos anteriores do petista], mas o quadro será de muitos grupos de pressão, o que tornará isso difícil", afirma ele.

Outros pesquisadores da área soam mais otimistas em relação a um possível fortalecimento do bloco. Antônio Jorge Ramalho, professor da UnB (Universidade de Brasília), diz que muitas das críticas dirigidas ao grupo não se sustentam, uma vez que ele nunca se propôs a ser uma organização tradicional.

Seu objetivo declarado é servir como um fórum para organizar os países-membros em torno de interesses comuns e, assim, agir em sincronia em fóruns mais amplos, como a ONU —sem atrapalharem uns aos outros. Iniciativas como o NDB (Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco do Brics), esta sim uma instituição nos moldes convencionais, seriam complementos bem-vindos, mas não a espinha dorsal.

"O Brasil fez menos uso do Brics do que poderia ter feito no governo Bolsonaro porque ele nunca teve uma diretriz clara de política externa", diz Ramalho. "Sua importância cresce no momento em que o país volta ao cenário internacional. É mais um fórum de diálogo em que ele pode alinhar posições em outros fóruns internacionais e construir respostas coordenadas a problemas compartilhados."

Velasco, da Uerj, afirma que o grupo ainda tem a vantagem de permitir ao país manter certa independência em relação a interesses de potências ocidentais sem arriscar prejuízos à sua imagem. "O Brasil sozinho tem muito menos peso específico do que via Brics. O grupo aumenta o nosso poder de barganha", diz ele.
Nesse sentido, uma eventual ampliação do bloco, discussão que voltou a ganhar tração no ano passado, poderia ser vantajosa, já que a participação de países de regiões hoje ausentes no Brics, como o Oriente Médio, com a Arábia Saudita, aumentariam a sua legitimidade perante o Sul Global.

Amorim, que já defendeu a adesão da Argentina, diz que a entrada de novos membros é positiva na medida em que eles possam agregar em economia e ambiente —a África do Sul, que preside o agrupamento neste ano, tenha afirmado que o processo pode ser iniciado até dezembro.

O assessor especial de Lula ressalta, porém, que a ampliação deve ser feita com cautela, talvez com um sistema de adesão em duas etapas, para que o grupo não perca sua densidade. "Ou então seria um novo G-77", diz, em referência à aliança das nações em desenvolvimento da ONU, que hoje abriga 134 países.

Garcia, do Brics Policy Center, afirma que o maior interessado em uma ampliação é Pequim —de quem quase todas as economias do grupo dependem hoje, à exceção da Índia.

"O Brics se sustentou todos esses 15 anos porque a China quis. Sempre foi importante para ela ter um espaço multilateral em que pudesse estar sem as potências tradicionais. E quanto mais espaços ela puder liderar sozinha, melhor", acrescenta ela, sublinhando que liderança não significa hegemonia. "Há muito diálogo ali."
*
RAIO-X DO BRICS

- Abrigam cerca de 40% da população mundial
- Responsáveis por cerca de 26% do PIB global
Brasil
Área: 8.515.770 km²
População: 217.240.060 (7ª maior do mundo)
Tipo de governo: república presidencial federalista
PIB: US$ 1,6 trilhão
PIB per capita: US$ 7.507
IDH: 87º
Índice de Democracia*: 47º
Rússia
Área: 17.098.242 km² (2 vezes a área do Brasil)
População: 142.320.790 (9ª maior do mundo)
Tipo de governo: semi-presidencialismo federalista
PIB: US$ 1,78 trilhão
PIB per capita: US$ 12.194
IDH: 52º

ex-deputada

Zambelli contrata novo advogado para contestar extradição e condenações no STF

Carla Zambelli está solta desde maio, após permanecer presa na Itália em meio ao processo de extradição para o Brasil

18/09/2026 21h00

Ex-deputada federal Carla Zambelli

Ex-deputada federal Carla Zambelli Fotos: Lula Marques/ Agência Brasil

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A ex-deputada federal Carla Zambelli contratou o advogado brasileiro Eduardo Maurício para reforçar sua defesa e contestar as condenações impostas a ela pela Justiça brasileira. O novo advogado passou a atuar no caso na quinta-feira, 17, e trabalhará em conjunto com o italiano Pieremilio Sammarco em medidas relacionadas aos processos e ao pedido de extradição de Zambelli.

Em nota, Maurício afirmou que pretende adotar medidas processuais para tentar anular as duas condenações. Segundo o advogado, as decisões seriam resultado de "perseguição política" e teriam sido tomadas em processos nos quais, na avaliação da defesa, não foram respeitados o devido processo legal, o contraditório, a ampla defesa e a busca pela verdade dos fatos.

A defesa também pretende contestar o segundo pedido de extradição feito pelo Brasil à Itália. De acordo com Maurício, a estratégia inclui questionar a imparcialidade dos julgadores envolvidos nos processos, citando os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.

"Estão sendo tomadas as medidas processuais para afastar a segunda extradição requerida pelo Brasil à Itália, justamente pelo fato dos julgadores serem os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, ambos envolvidos em polêmicas no STF ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro", afirmou o advogado em nota.

Maurício declarou ainda que, na avaliação da defesa, não haveria garantia de um julgamento justo e imparcial caso Zambelli seja entregue ao Brasil. O advogado afirmou que entregar Zambelli ao Brasil seria o mesmo que "condená-la à morte".

Em 2025, Carla Zambelli foi condenada pelo Supremo Tribunal Federal a dez anos de prisão por envolvimento na invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pela emissão de um falso mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes

A ex-deputada também recebeu pena de cinco anos e três meses de prisão por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma. O caso ocorreu no segundo turno das eleições de 2022, quando Zambelli perseguiu, com uma arma em punho, o jornalista Luan Araújo pelas ruas da região dos Jardins, em São Paulo.

A situação de Zambelli na Itália

Carla Zambelli está solta desde maio, após permanecer presa na Itália em meio ao processo de extradição para o Brasil. A Justiça italiana havia autorizado, em março deste ano, o envio da ex-deputada ao País para que ela respondesse às condenações impostas pelo Supremo Tribunal Federal.

O processo de extradição, porém, não foi concluído. A instância máxima do Judiciário italiano anulou, em duas ocasiões, as decisões que autorizavam a extradição, o que resultou na soltura de Zambelli. O Brasil voltou a pedir a extradição da ex-deputada, mantendo em aberto o processo para que ela seja enviada ao País e cumpra as penas determinadas pelo STF.

Eleições em MS

Herdeira do Itaú está entre as doadoras da campanha de Soraya Thronicke

Beatriz Bracher também doou recursos para a campanha de Marina Silva e Tábata Amaral

18/09/2026 18h09

Senadora Soraya Thronicke recebeu doação de Beatriz Bracher

Senadora Soraya Thronicke recebeu doação de Beatriz Bracher Divulgação

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A escritora e herdeira do Bnaco Itaú, Beatriz Sawaya Botelho Bracher, destinou R$ 65 mil para a campanha à reeleição da senadora Soraya Thronicke em Mato Grosso do Sul. 

Beatriz é filha de Fernão Bracher, fundador do banco BBA — instituição financeira que posteriormente foi vendida ao banco Itaú. Além de autora de livros premiados, a escritora tem forte ligação com causas culturais e atua como conselheira do Instituto Acaia, entidade sem fins lucrativos dedicada à educação. No pleito deste ano, a doadora passou a integrar o grupo dos maiores doadores das eleições, figurando entre os 20 principais nomes do país entre os dias 2 e 3 de setembro.

Apoio estratégico a candidaturas femininas

O repasse de R$ 65 mil a Soraya Thronicke faz parte de uma estratégia focada no financiamento de candidaturas femininas para os cargos de senadora e deputada federal. Ao todo, Beatriz direcionou R$ 905 mil exclusivamente para campanhas de mulheres, somando R$ 1 milhão em doações totais apuradas para a campanha deste ano.

A maior contribuição individual do ciclo foi concedida a Marina Silva (ex-ministra de Lula), que recebeu R$ 150 mil para sua candidatura ao Senado por São Paulo. 

Na sequência dos repasses para a mesma Casa Legislativa, figuram Áurea Carolina (MG), com R$ 140 mil, e Manuela D’Ávila (RS), contemplada com R$ 80 mil. 

Já para a Câmara dos Deputados, a escritora ajudou a financiar as candidaturas paulistas de Marina Helou e Tabata Amaral, repassando R$ 60 mil para cada uma.

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