Contrato do diretório nacional com a Diniz Ação em Marketing prevê repasses milionários até julho de 2026 para "produção de conteúdo" no Mato Grosso do Sul
A direção nacional do Partido Liberal (PL) firmou um contrato, custeado integralmente com recursos do Fundo Partidário, com a agência de publicidade de Iara Diniz Contar, esposa do ex-deputado e atual pré-candidato ao Senado pelo partido em Mato Grosso do Sul, Capitão Renan Contar.
Firmado em dezembro de 2025, às vésperas do ano eleitoral, o acordo garante repasses mensais de R$ 150 mil à Diniz Ação em Marketing Ltda.. Coincide com a filiaçãoo de Contar ao PL, no dia 02 de dezembro de 2025, feita em Brasília e sem o conhecimento do diretório estadual do partido.
Entre janeiro e março de 2026, a legenda já desembolsou R$ 370 mil em favor da empresa, levantando suspeitas sobre potencial conflito de interesses e o uso indireto de verba pública para estruturar e impulsionar a pré-campanha do político sul-mato-grossense.
Filiação e contrato
A contratação da Diniz Ação em Marketing Ltda ocorreu no mesmo período em que Capitão Contar, que concorreu ao governo do estado em 2022 e chegou ao segundo turno contra Eduardo Riedel, consolidava sua filiação e pré-candidatura ao Senado pela legenda. O contrato, ao qual a reportagem teve acesso, foi assinado no dia 18 de dezembro de 2025 pelo representante legal do PL Nacional, Jucivaldo Salazar Pereira.
Apesar de o pagador ser o Diretório Nacional, sediado em Brasília, a Cláusula Primeira do contrato especifica que os serviços visam a “orientação de publicidade, marketing e produção de conteúdo do contratante no Estado do Mato Grosso do Sul e dos mandatários por ele indicados”. Na prática, a esposa do principal pré-candidato do partido no estado foi contratada para gerir a comunicação em Mato Grosso do Sul da sigla, apesar de representantes do partido em MS, que não quiseram se identificar, afirmarem que a agência não realiza nenhum trabalho para o PL/MS.
O vínculo tem validade estipulada até 31 de julho de 2026, data limite das convenções partidárias, momento em que a pré-campanha se converte em campanha oficial e as regras de financiamento eleitoral se tornam mais rígidas.
Achados fiscais
A análise dos controles de saída da conta bancária do PL revela uma rápida injeção de recursos logo no início de 2026:
09 de janeiro de 2026: Pagamento da Nota Fiscal nº 4483/U no valor de R$ 70.000,00.
06 de fevereiro de 2026: Pagamento referente à Nota Fiscal nº 4485/U, no valor bruto de R$ 150.000,00.
09 de março de 2026: Pagamento da Nota Fiscal nº 4487/U, totalizando mais R$ 150.000,00.
Um detalhe fiscal expõe a recente adaptação da empresa aos altos repasses. Uma “Nota Explicativa” interna do PL mostra que as duas primeiras notas fiscais (4483 e 4485) foram emitidas com a indicação de que a empresa não era optante pelo Simples Nacional, o que levou o partido a reter R$ 13.530,00 em impostos (IRRF, PIS, COFINS, CSLL) na fonte.
Dias depois, a agência de Iara Diniz contestou os descontos, apresentando um comprovante de que a empresa havia ingressado no regime do Simples Nacional exatamente no dia 1º de janeiro de 2026, apenas 13 dias após assinar o contrato de R$ 150 mil/mês com o PL. O partido, então, providenciou depósitos compensatórios nos dias 13 de fevereiro e em março para devolver os valores retidos à agência.
A descrição dos serviços nas notas fiscais engloba de forma genérica atividades de “marketing digital, produção audiovisual, criação de conteúdo e assessoria de imprensa”. Para especialistas em direito eleitoral consultados pela reportagem, embora a contratação de empresas de parentes de filiados pelo diretório não seja um crime explicitamente tipificado na legislação partidária fora do período eleitoral, o desenho da operação acende um alerta vermelho.
“Se a agência contratada com o Fundo Partidário estiver, na prática, trabalhando para construir a imagem de um pré-candidato específico disfarçada de ‘comunicação institucional’ do partido no estado, isso pode configurar desvio de finalidade dos recursos públicos e abuso de poder econômico pré-eleitoral”, explica o advogado Leonardo Avelino Duarte, do escritório Avelino Duarte, especialista em direito eleitoral.
“A Lei dos Partidos Políticos exige que o Fundo seja usado estritamente para a manutenção da sigla e campanhas institucionais”, salienta.
Outro lado
Com a palavra, a executiva do PL:
"Esse contrato que se referem é público, transparente e está integralmente registrado na Justiça Eleitoral e no Portal da Transparência, como exige a legislação para qualquer uso de Fundo Partidário. Quando alguém quer esconder algo, não firma um contrato público, com objeto, valores, prazos e notas fiscais disponíveis para conferência.
Trata-se de um trabalho técnico de comunicação, com escopo claro: branding e posicionamento, marketing digital, produção audiovisual, eventos, treinamentos, assessoria de imprensa e criação de conteúdo para o PL em Mato Grosso do Sul, dentro do período pré-eleitoral. Transformar isso em insinuação política, apenas porque sou esposa do Capitão Contar, é ignorar a legislação, a natureza do serviço e a minha trajetória profissional.
Minha agência tem mais de 25 anos de atuação em comunicação estratégica, com cases relevantes no setor público e privado, sempre contratados dentro da legalidade e submetidos aos órgãos de controle. O convite feito à Diniz é um reconhecimento dessa história profissional, não um privilégio, e foi formalizado em contrato com o diretório nacional do PL, com vigência e limites definidos.
Todos os pagamentos seguem as regras eleitorais e fiscais, com emissão de nota fiscal, recolhimento de tributos e registro nos sistemas oficiais. Inclusive, eventuais ajustes tributários, como a opção pelo Simples Nacional, foram documentados, esclarecidos ao partido e corrigidos de forma transparente, justamente porque não há nada a esconder.
Não é razoável tentar transformar transparência em suspeita nem desqualificar uma empresa super qualificada e idônea, quando o que está em análise é a capacidade técnica e o cumprimento da lei.
O debate precisa ser sério: questionar contratos é legítimo em uma democracia, mas é preciso fazê-lo com responsabilidade, com base em fatos e documentos, não em ilações para desgastar politicamente o Capitão Contar ou qualquer pré-candidato."