A eleição deste ano pode produzir uma das maiores mudanças na representação política de Mato Grosso do Sul desde a criação do Estado. Pela primeira vez, o conjunto de candidaturas femininas consideradas competitivas abre a possibilidade de as mulheres conquistarem a maioria das oito vagas destinadas ao Estado na Câmara dos Deputados.
Se o cenário se confirmar nas urnas, a bancada federal sul-mato-grossense na Casa de Leis romperá uma tradição marcada pelo predomínio masculino e poderá registrar uma renovação sem precedentes, reduzindo o espaço ocupado por lideranças que há anos dominam a representação sul-mato-grossense no Congresso Nacional.
O movimento é impulsionado por pré-candidatas com perfis distintos e bases eleitorais consolidadas.
Aparecem nesse grupo a ex-deputada federal Rose Modesto (União Brasil), que também é ex-vice-governadora, a deputada estadual Mara Caseiro (PL), que reúne força política no interior após sucessivos mandatos na Assembleia Legislativa, e a deputada federal Camila Jara (PT), que tenta a reeleição e é um nome de renovação nos quadros da esquerda estadual.
Além disso, também estão nesse cenário a ex-secretária de Estado de Cidadania Viviane Luiza (PSDB), apontada como uma das principais apostas do partido para a Câmara dos Deputados, a vereadora douradense Isa Marcondes (Republicanos), que busca ampliar para todo o Estado a projeção conquistada em Dourados, e a advogada Luana Ruiz (PL), que vem ampliando sua inserção política no setor produtivo e no agronegócio sul-mato-grossense.
Mais do que o crescimento do número de mulheres na disputa, o diferencial das eleições deste ano está na competitividade das candidaturas.
Pois, diferentemente de pleitos anteriores, quando poucas mulheres apareciam entre as favoritas, desta vez, elas disputam votos em praticamente todos os campos ideológicos e regiões do Estado, alcançando eleitorados distintos e reduzindo a concentração de votos entre os grupos tradicionais.
Essa distribuição amplia as chances de sucesso do bloco feminino e torna mais acirrada a disputa pelas oito cadeiras disponíveis, sobretudo porque o sistema proporcional impõe uma concorrência direta entre candidatos das próprias legendas e das federações partidárias.
Outro fator que favorece esse cenário é a pulverização das candidaturas masculinas. Diferentes partidos chegam à disputa com vários nomes disputando o mesmo eleitorado, o que tende a fragmentar os votos e dificultar a formação de grandes concentrações eleitorais.
Enquanto isso, algumas das principais candidaturas femininas ocupam espaços políticos mais definidos, com bases consolidadas e menor concorrência interna, aumentando a competitividade dentro de suas respectivas legendas.
Também pesa na equação eleitoral o fortalecimento da presença feminina nas direções partidárias e nas estratégias de campanha.
Nos últimos anos, as siglas passaram a investir mais recursos financeiros e tempo de propaganda em candidatas consideradas viáveis eleitoralmente, movimento impulsionado tanto pela legislação eleitoral quanto pela percepção de que mulheres passaram a reunir condições reais de liderar chapas proporcionais e alcançar votações expressivas.
Esse contexto contribui para que a disputa deste ano seja tratada como a mais competitiva da história para as mulheres em Mato Grosso do Sul.
VETERANOS
O fortalecimento das candidaturas femininas altera o cálculo eleitoral dos partidos e impõe um desafio inédito aos parlamentares que buscam a reeleição ou tentam retornar à Câmara dos Deputados.
Com poucas vagas em disputa, o avanço de novos nomes tende a reduzir o espaço historicamente ocupado por políticos que construíram carreiras sustentadas em redutos eleitorais consolidados, como os deputados federais Dagoberto Nogueira (PP), Geraldo Resende (União Brasil) e Beto Pereira (Republicanos).
Além da renovação geracional, a eleição pode marcar uma mudança no perfil da representação federal de Mato Grosso do Sul.
Caso cinco ou mais mulheres sejam eleitas, o Estado terá, pela primeira vez, uma bancada majoritariamente feminina na Câmara dos Deputados.
O cenário reflete uma transformação gradual da política sul-mato-grossense, pois as mulheres deixaram de ocupar apenas o espaço reservado pelas cotas de gênero e passaram a disputar, em condições competitivas, posições estratégicas nas chapas partidárias.
Se confirmada nas urnas, essa mudança poderá redefinir o equilíbrio de forças na bancada federal de Mato Grosso do Sul e inaugurar um novo ciclo na representação política do Estado.
* Saiba
Cota de gênero guiará formação de chapas
As cotas de gênero voltam a ocupar papel central na formação das chapas proporcionais nas eleições gerais deste ano.
Além de garantir a participação mínima de mulheres nas disputas por vagas na Câmara dos Deputados e nas Assembleias Legislativas, as regras influenciam diretamente a distribuição dos recursos públicos de campanha e a estratégia eleitoral das legendas.
Pela legislação eleitoral, cada partido ou federação deve respeitar o porcentual mínimo de 30% e máximo de 70% de candidaturas de cada sexo nas eleições proporcionais.
Na prática, isso significa que, a cada 10 candidatos a deputado federal ou estadual, pelo menos 3 devem ser mulheres.
Nos últimos anos, as normas foram reforçadas por decisões da Justiça Eleitoral, que passaram a exigir não apenas o cumprimento do porcentual mínimo de candidaturas, mas também a destinação proporcional dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e do tempo de propaganda eleitoral gratuita para as mulheres.
O objetivo é garantir que as candidaturas femininas tenham condições efetivas de disputar as eleições. As mudanças também elevaram o rigor da fiscalização.
O lançamento de candidaturas femininas apenas para preencher a cota, sem campanha efetiva, passou a ser considerado fraude à cota de gênero.
Quando a irregularidade é comprovada, a Justiça Eleitoral pode cassar toda a chapa proporcional do partido ou da federação, além de declarar a inelegibilidade dos envolvidos. Com isso, a formação das chapas deixou de ser uma mera formalidade.
Os partidos passaram a investir na busca por mulheres com potencial eleitoral, experiência política, representatividade regional e capacidade de ampliar a votação das legendas.
O fortalecimento dessas candidaturas se tornou uma estratégia para aumentar a competitividade e evitar questionamentos judiciais.
Em Mato Grosso do Sul, esse movimento já pode ser observado na corrida eleitoral deste ano.
Diversos partidos apostam em candidatas com mandato, trajetória política consolidada ou forte inserção em segmentos específicos da sociedade, elevando o protagonismo feminino na disputa por vagas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa.

