Parte da sessão plenária desta terça-feira (4) foi voltada a uma discussão entre deputados sobre a operação policial ocorrida na semana passada nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, que resultou em mais de 100 mortes.
Quem começou a discussão foi o deputado Pedro Kemp (PT), que abriu o tema afirmando que o debate sobre o assunto merece atenção da sociedade, mas de forma responsável.
Kemp criticou a operação, que resultou na morte de 121 pessoas, sendo 4 policiais, argumentando que ações como essa não resolvem o problema do crime organizado e da violência urbana.
“Precisamos ir além do que se fala: ‘bandido bom é bandido morto’. O que aconteceu no Rio de Janeiro é um filme que já vimos antes. Resolveu o problema do crime organizado? Resolveu o problema das milícias ou do tráfico? Não. O crime organizado deve ser enfrentado com planejamento, inteligência e articulação das polícias. É preciso atacar o cerne: as finanças do crime. Os tubarões não estão nos morros, estão em mansões luxuosas”, afirmou.
Para o deputado, o combate ao tráfico de drogas e ao crime organizado se faz com “planejamento, inteligência e articulação integração das polícias”.
Kemp também criticou a reunião feita pelos governadores que alegaram que estão sem apoio do Governo Federal para o combate ao crime organizado. O governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, esteve presente na reunião.
Para o deputado, o encontro configura um discurso político em cima de uma situação grave, já que nenhum gesto concreto foi feito em busca de uma solução em conjunto com o governo federal.
“O governador do Rio está fazendo política e tentando jogar a responsabilidade no colo do presidente Lula. Por que os governadores da direita não apoiam o projeto que cria o Sistema Nacional de Segurança Pública? O governador do Rio foi o primeiro a ser contra. Depois vai à TV dizer que os estados estão sozinhos? Eles não querem uma solução para o crime organizado, querem fazer política. Começou a campanha eleitoral em cima de um tema muito sensível à população: a segurança pública”, denunciou.
Enquanto isso, segundo o parlamentar, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, proposta pelo presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, segue sem nenhuma movimentação por parte dos governadores.
A medida, segundo Kemp, poderia enfraquecer o crime organizado, oferecer melhores condições de trabalho aos policiais e garantir à população dos morros acesso a políticas públicas básicas, como água, luz, saneamento e segurança.
Kemp comparou com a operação feita na Avenida Faria Lima, em São Paulo (SP), em que mais de R$ 40 bilhões em desvios e lavagem de dinheiro foram desarticulados.
“Quantos tiros aconteceram? Nenhum. Quantas mortes? Nenhuma. Agora, uma operação daquela que aconteceu no RJ resolveu o problema? Não, hoje eles estão se reorganizando. Então o que a gente questiona é até que ponto não foi uma operação midiática. A aprovação do governador do RJ subiu, porque ele sabe que uma parte da população aprova isso”, lamentou o deputado.
Após as declarações, o deputado Coronel David (PL), que já comandou a Polícia Militar de Mato Grosso do Sul defendeu a operação no Rio de Janeiro, alegando que ela foi planejada por mais de um ano, tendo apoio e acompanhamento do Ministério Público e Justiça, com o cumprimento de mandados. Já a ação na Faria Lima, teria sido para tratar a Segurança Pública como uma “conversa de esquina”.
“A esquerda gosta é de bandido. A operação foi totalmente diferente, o morro é um ambiente hostil, com facção altamente armada. Cumpriram mandados de busca e apreensão. Na Faria Lima ninguém estava escondido com fuzil. Ou faz operações como essa, que teve a grande maioria apoiando, ou vamos perder para o crime organizado. E o governador do Rio de Janeiro teve coragem de fazer isso. Outra coisa é que ninguém do PT votou a favor da CPI contra o crime organizado no Congresso Nacional. Quanto à integração das polícias é retirar poder dos governadores e isso ninguém vai aceitar”, detalhou o Coronel David.
Em seguida, o ex-governador de Mato Grosso do Sul, Zeca do PT (PT) criticou a fala do deputado do PL, chamando-a de “patética, vergonhosa e inoportuna, tanto quanto a reunião dos governadores”.
“Quero encher meu ouvido de algodão para não escutar tanta baboseira. É a velha história do bandido bom é morto, mas negro e pobre, porque quando é rico eles pedem anistia. Então eu vou falar que vamos entrar com requerimento para mandar para o Tribunal de Contas para saber quem pagou a despesa do governador Eduardo Riedel para ir participar de uma reunião dessas que foi visando a reeleição”.
A deputada Gleice Jane (PT) também participou da briga, alegando que qualquer pessoa deveria ter o direito de debater o tema da segurança pública, assim como a saúde e a educação.
Os ânimos foram acalmados logo após a fala da deputada e a discussão de encerrou.
Politização
Como noticiou o Correio do Estado, o governador Eduardo Riedel alegou que este não é o momento de politizar o tema da segurança pública, que, conforme destacou, virou palanque para 2026 - tanto pela direita quanto à esquerda.
O governador afirmou que, a curto prazo, o mais importante é que exista integração entre as inteligências de segurança dos estados, em parceria com o Governo Federal.
“Eu não tenho problema nenhum com a PEC, e aí a gente não pode politizar essa discussão. Ela virou palanque para 2026, de um lado e de outro, e, na verdade, a gente tem um problema de segurança pública seríssimo no país”, disse Riedel.
Após a reunião com o governador do Rio de Janeiro, Riedel pontuou que a questão das facções não deve ser tratada como um problema distante, e frisou que o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) são uma realidade no Estado.
“E [o Estado] é rota de ilícitos, como drogas e armas, então a conexão é direta. No Presídio Federal há membros de facções, e estão vindo mais. Então, não adianta a gente ficar preso nessa discussão tão somente legislativa e não avançar naquilo que a lei já permite, mas que muitas vezes não é feito. Precisamos aumentar a integração, ampliar a inteligência e apertar o cerco.”
*Colaborou Laura Brasil
O deputado federal Beto Pereira, que vai para o Republicanos - Forto: Divulgação


