Política

POSSE

Simone Tebet assume ministério do Planejamento sob prestígio de Fernando Haddad

Depois de conquistar a terceira posição na eleição presidencial, a ex-senadora de MS juntou-se à campanha de Lula

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Simone Tebet, do MDB de Mato Grosso do Sul, usando um vestido em tom de vermelho, agora, sim, ex-senadora, tomou posse na manhã desta quinta-feira (5) como a ministra de Planejamento do governo de Lula.

A cerimônia contou com a presença do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a única que ele prestigiou entre os 37 ministérios do novo governo.

De Mato Grosso do Sul foram à solenidade, em Brasília, o marido de Simone, o chefe da Casa Civil do governo de MS, o deputado estadual Paulo Duarte, do PSB, o vice-governador Barbosinha, do PP e a vereadora Luíza Ribeiro, do PT.

Simone chegou ao evento de posse ao lado do vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, do PSB.

Em discurso, a ministra narrou como foi convidada por Lula, as razões por ter aceitado o Planejamento e contou o que pretende fazer na pasta.

"O cobertor é curto. Não temos margem para desperdícios ou erros. Definidas as prioridades por cada ministério, caberá ao Ministério do Planejamento, em decisão técnica e política com as demais pastas econômicas e com o presidente Lula, o papel de enquadrá-las dentro das possibilidades orçamentárias".

Antes, assim que terminou o segundo turno, o qual seguiu firme ao lado de Lula, Simone foi cotada para comandar o ministério do Desenvolvimento Social, mas o PT ficou com a pasta.


VEJA AQUI O QUE SIMONE DISSE EM SEU DISCURSO

Que as minhas primeiras palavras sejam de gratidão a Deus, por este momento. Ao PR Lula, por me confiar uma das mais importantes pastas de seu governo.

O Brasil passa direta ou indiretamente pelo Ministério do Orçamento. O futuro do Brasil passa, necessariamente, pelo Ministério do Planejamento.

Saudação às autoridades …

Senhoras e senhores:
O último domingo foi, sem dúvida, um dos dias mais importantes da nossa história.

Um dia tomado por um misto de profunda alegria e de alívio reconfortante, depois de quatro anos de negacionismo à vida, ataques à Constituição, discursos de ódio, mentiras deslavadas, divisão entre os brasileiros.

Domingo, dia 1º de janeiro de 2023, foi dia de festa. Festa da democracia. Foi o dia da paz. O dia do reencontro do Brasil com a sua história.

O povo brasileiro fez ouvida a sua voz. Cumpriu-se o rito da Constituição.

No discurso do presidente Lula, ficou evidente a diferença entre democracia e barbárie.

Onde se viam as armas, ali, no discurso do PR Lula, estava o livro; onde se sentia a desigualdade, ali se via o sonho de igualdade; onde se pregou a negação, ali estava a defesa da vida, da diversidade e do meio ambiente; onde se via a insensibilidade e a indiferença, ali, naquela rampa, ao lado do povo representado pela nossa diversidade, se estampou a emoção de um presidente que não descansará, enquanto o Brasil não estiver devidamente alimentado; onde se ouvia o grito de ordem, ali ecoavam três pedidos: união, pacificação, reconstrução. 

O Brasil retomou, a partir o último domingo, o curso normal da oração de São Francisco: onde havia o ódio, que levemos o amor.

Quis Deus e o destino que eu participasse deste momento histórico.

Como candidata à presidência da República por uma frente democrática de partidos, eu ali ganhei a consciência da importância do papel que necessitava desempenhar: era preciso reposicionar o “centro democrático”, no Brasil.

Aprendi, como filha de um homem público, lutando por democracia na minha juventude; em seis anos como servidora pública; nos meus doze anos como professora de direito público; nos meus vinte anos de mandatos eletivos, como deputada, prefeita eleita e reeleita, vice-governadora e como senadora da República, que, na vida, não se luta apenas para vencer, mas para construir as melhores ideias, defender projetos, iluminar caminhos, plantar sementes para uma colheita coletiva.

Não pensei um único segundo para apoiar o presidente Lula, porque as urnas levaram somente um candidato democrata ao segundo turno das eleições.

Vencidas as eleições, fui convidada pelo presidente Lula a fazer parte do seu ministério.

Ainda que relutante, porque meu apoio foi incondicional, aceitei, porque entendo ser necessário contribuir para a concretização efetiva dos seus compromissos de campanha, além da importância da presença da frente ampla, num país dividido ao meio.

Embora a minha surpresa pelo convite para assumir o Ministério do Planejamento, por termos pensamentos diferentes na pauta econômica, o que me moveu foi a certeza de que tudo o que nos une é infinitamente maior do que aquilo nos separa: a defesa da democracia e o sonho da cidadania para todos os brasileiros. Isso somente é possível com um crescimento econômico duradouro e sustentável que gere emprego e renda para os brasileiros e que tire o Brasil do mapa da fome.

Quando o presidente Lula diz que somente verá cumprida a sua missão se alcançar o objetivo de que todos os brasileiros, sem exceção, possam ter todas as refeições necessárias à vida, ele dá a orientação comum a todos os ministérios: que se cumpra a Constituição.

A ordem que recebi do presidente Lula é para que a Constituição saia das prateleiras frias e dos meros discursos.

Por isso, as propostas de campanha são mandamentos políticos e farão parte do plano de governo, da LOA e do PPA.

O nosso papel, do Ministério do Planejamento, sem descuidar, em nenhum momento, da responsabilidade fiscal, dos gastos públicos e da qualidade deles, é colocar os brasileiros no orçamento público.

Os pobres estarão, prioritariamente, no orçamento público. Mas não somente eles: as crianças, os jovens, os idosos, estarão no orçamento.

As mulheres, os negros, os povos originários, estarão no orçamento; as pessoas com deficiência, a comunidade LBGTQIA+ estarão no orçamento. Os trabalhadores estarão no orçamento.

Passou da hora de dar visibilidade aos invisíveis, com orçamento para as políticas públicas assertivas, que serão implementadas pelos ministérios afins.

Mas o plano de governo tem de caber no PPA. Essa é a nossa árdua – mas possível – missão.
Senhoras e Senhores:

Nos últimos anos, faltou vacina, faltou comida, faltou remédio, faltou emprego, faltou educação, faltou cultura. Faltou sustentabilidade. Faltou vida.

O negacionismo do ex-presidente deixou, como legado, um país com 33 milhões de pessoas passando fome; 125 milhões com algum grau de desnutrição; cinco milhões de crianças dormindo com estômagos vazios; nove milhões de desempregados; 40 milhões em emprego informal, sem qualquer segurança de futuro; além de quase cinco milhões de desalentados, porque as placas de “não há vagas” também tomaram o lugar das placas de “precisa-se”.

Isso tudo porque, no primeiro dia do seu mandato, ele já começou a desgovernar, a governar sem rumo, ao extinguir o Ministério do Planejamento.

Diferentemente, antes mesmo de tomar posse, o presidente Lula anunciou a recriação deste Ministério.

Estamos remontando este Ministério, que será composto por uma equipe com visão interdisciplinar, compreensiva e horizontal da realidade.

Ainda bem que, apesar de todos os percalços, o corpo técnico efetivo e experiente permanece, com o apoio fundamental do IPEA e do IBGE, porque, um país que não conhece sua realidade não tem como enfrentar seus problemas.

Teremos, portanto, os melhores diagnósticos, para indicar os caminhos mais apropriados para alterar a triste realidade de sermos um dos países mais desiguais de todo o planeta.

Seremos alicerce, como base de suporte para todos os ministérios, o que significa diagnósticos bem elaborados, objetivos bem definidos, metas factíveis, estratégias condizentes com fontes garantidas de financiamento, seja no orçamento público ou por meio de parcerias com a iniciativa privada, e avaliações periódicas que retroalimentem todas as outras fases.

A importância do diagnóstico é tamanha que, sem ele, seria algo assim como primeiro ir à farmácia, pesquisar os remédios disponíveis e os preços de cada um, para, somente depois, determinar a doença do paciente.

Periga enfaixar braços, quando o mal poderia ser úlcera no estômago.

Feito o planejamento, vem o orçamento.

Nós vamos cuidar dos gastos públicos. Aí se verá o nosso lado firme, austero, mas conciliador.

Conciliaremos as necessidades e prioridades estabelecidas por cada ministério, dentro de suas respectivas atribuições, com os recursos disponíveis.

Recursos públicos e parcerias, que serão construídas dentro do Programa de Parcerias de Investimento – PPI.

Assim como não se faz um plano de voo como se todas as aeronaves fossem iguais, sabemos que cada ministério também tem as suas especificidades, ou as suas prioridades.

O planejamento global evitará o risco de colisão, ou da direção superposta aos mesmos destinos, deixando outras áreas descobertas.

A duplicação de funções resultaria na perda decorrente de recursos públicos numa área, e a falta deles, noutra.

Vamos apresentar a fotografia, o raio X do Brasil, seus problemas e potencialidades.

Dar a visão horizontal do país para que as demais pastas, em seus mergulhos verticais, sejam mais precisas nas ações.

Esse diagnóstico será traçado com participação da sociedade civil, por meio de audiências públicas, que é a partir de onde, também e por consequência, construiremos o orçamento público.

Comungamos com a visão do ministro da fazenda, Fernando Haddad, da necessidade premente de cuidar dos gastos públicos e da aprovação urgente de uma reforma tributária, para garantirmos menos tributos sobre o consumo, um sistema tributário menos regressivo, com simplificação e justiça tributária.

Somente assim teremos o crescimento necessário para garantir emprego e renda de que o Brasil necessita. No Ministério da Fazenda, essa reforma não poderia estar em melhores mãos que as de Bernard Appy.

Essas mesmas mãos caminharão dadas com as nossas, dos técnicos do nosso ministério e dos demais ministérios afins, assim como do Congresso Nacional.

O Brasil já esperou tempo demais – 30 anos – por essa reforma.

Vamos atuar convergentes nesse propósito, focados na racionalidade e na qualidade dos gastos públicos.

Ao lado de Geraldo Alckmin e de Esther Dweck, teremos um diálogo produtivo nas reuniões da equipe econômica.

Como uma de nossas prioridades, vamos tirar do papel a formulação de um plano nacional de desenvolvimento regional.

É preciso atacar as desigualdades sociais e regionais que tanto nos envergonham.

É inadmissível que, como expressão maior dessa nossa dívida, continuemos nesta situação vergonhosa em que a cara mais pobre do Brasil seja a de uma mulher, negra e nordestina.

Nossos esforços também se direcionarão para a igualdade salarial entre homens e mulheres que desempenham as mesmas funções.

Embora a preocupação maior seja com o hoje, e portanto com a LOA – Lei Orçamentária Anual –, daremos um enfoque especial ao PPA – Plano Plurianual, que terá a participação da sociedade civil, como quer o presidente Lula, e como deve ser feito.

Cada decisão nossa buscará responder a três perguntas: quem somos, que Brasil queremos, e para quem queremos este Brasil.

As respostas a essas perguntas, trazidas pelo Censo Demográfico do IBGE, pelas análises do IPEA e pelas secretarias do nosso Ministério, serão nosso guia.

São muitos os desafios: combater a inflação, os juros altos, a miséria e a fome.

Não há problema maior em uma economia do que a inflação, porque ela atinge, principalmente, as camadas mais pobres.

O trabalhador não emite moeda. Mesmo que empregado, vê seu poder de compra cada vez mais deteriorado pelo aumento de preços.

A inflação também encarece investimentos, atrapalha a criação de empregos e cria uma ciranda negativa.

Na contramão dessa ciranda negativa, precisamos e vamos recuperar a confiança do setor produtivo e dos investidores, com um orçamento transparente e factível, dentro das metas estabelecidas; com políticas públicas eficazes, avaliadas, monitoradas e revistas permanentemente.

Ninguém investe no escuro.

Ninguém caminha abraçado a parceiros cambaleantes e sem rumo.

O investimento exige segurança e previsibilidade.

Queremos e vamos, ao lado do MF e da Gestão, garantir segurança jurídica, segurança socioambiental e previsibilidade, o que atrairá mais investimentos, mais emprego e renda, mais crescimento econômico e social.

Para ser efetivo, o Estado precisa avaliar o impacto de seus gastos.

O acompanhamento da execução das ações evita o desperdício com obras paradas e de políticas públicas ineficientes.

Avaliação concomitante, não somente “ex-post”, quando já é tarde para recuperar o dinheiro público mal gasto.

Aliás, dinheiro público mal gasto é pior do que a não ação, porque remete ao ralo do desperdício recursos escassos e com altos custos de oportunidade.

Nesse sentido, nossa parceria será constante com os órgãos controladores, como a CGU e o TCU.

Reforço que sei do tamanho do desafio. Mas eu estou confiante. Contaremos com o apoio da academia e da sociedade civil.

O setor privado brasileiro, o verdadeiro motor da criação de empregos e da geração de renda, será inspirado por uma política econômica moderna, de equilíbrio e de respeito ao dinheiro público e às demandas sociais.

Encerro como comecei: a política social é central para o país, neste momento dramático que vivemos.

Não há uma política social sustentável sem uma política fiscal responsável; seremos responsáveis com os gastos públicos.

Pensando no presente, garantir pão a quem tem fome, abrigo a quem não tem teto, hospitais e remédios aos enfermos e emprego e renda aos desempregados.

Pensando no futuro, escola de qualidade, esporte e cultura para as nossas crianças e jovens, agora, hoje, já.

Vem de longe a máxima de que discurso não enche barriga.

O discurso sem ação não protege quem hoje vive sob barracas de lona e de plástico, não ilumina a escuridão do analfabetismo, não cura a dor das filas dos hospitais, não gera empregos, não gera renda, não cura as nossas mazelas sociais.

Que essas palavras, portanto, fertilizem o trabalho da nossa equipe, principalmente porque, sabemos todos, encontramos uma administração pública que, em quase todos os campos, é de terra arrasada.

Em retirada, as tropas vencidas cuidaram de deixar para trás sementes de destruição.

Mesmo assim, sob o comando do presidente Lula, e com a frente ampla, vamos avançar, vamos cultivar as boas sementes, porque o Brasil sempre foi terra fértil. 

E porque essa é a nossa missão, esse é o nosso desafio.

Muito obrigada,

Simone Tebet

ENTREVISTA

"Quando o discurso é maior do que a prática, a integridade vira estética"

Especialista analisa por que programas de integridade ainda enfrentam dificuldade para sair do papel e virar cultura nas instituições públicas e privadas

14/03/2026 08h00

Marco Aurélio Borges de Paula - Especialista em compliance

Marco Aurélio Borges de Paula - Especialista em compliance Divulgação

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“Quando o discurso é maior do que a prática, a integridade vira estética, parece existir, mas não se sustenta no dia a dia”. A frase resume um dos principais desafios enfrentados hoje por governos e empresas que adotaram programas de compliance, mas ainda buscam transformá-los em prática cotidiana.

Nos últimos anos, o tema ganhou espaço no Brasil, impulsionado por mudanças legais e pela pressão por mais transparência e boa governança.

Em Mato Grosso do Sul, a discussão voltou ao centro do debate após o governo Estadual anunciar a meta de chegar a 100% dos órgãos com programas de compliance até 2027.

Ao mesmo tempo, em Brasília, a integridade institucional também entrou na pauta com a defesa, feita pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, da criação de um código de conduta para ministros da Corte, em meio às discussões sobre confiança pública e previsibilidade institucional.

Para entender o que faz um programa de compliance sair do papel e virar cultura organizacional, o Correio do Estado ouviu o especialista em ética e compliance Marco Aurélio Borges de Paula, professor e mestre em Direito.

Na entrevista a seguir, ele analisa os avanços e limitações do compliance no Brasil e explica por que liderança, confiança e coerência entre discurso e prática são decisivas para que a integridade deixe de ser apenas um conceito formal dentro das instituições.

O governo de MS anunciou recentemente que quer chegar a 100% dos órgãos com compliance até 2027. Em paralelo, reportagens e comunicados oficiais têm mostrado o tema ganhando espaço em outros governos e empresas.O Brasil está vivendo uma consolidação do compliance em instituições públicas e privadas? Ou ainda prevalece o compliance que existe mais no papel do que na prática?

Tivemos uma evolução consistente do compliance em pouco mais de 10 anos, muito por avanços normativos. O ponto é que, mesmo com todo o avanço, ainda falta maturidade para fazer o mais difícil: transformar regras em cultura e ver a integridade como pilar estratégico.

E é aqui que mora o risco do chamado ‘compliance de fachada’ ou ‘ethics washing’, ou seja, quando o programa existe no discurso, no marketing, em reuniões e documentos, mas não entra no coração do negócio, na rotina diária.

Tirar o compliance do papel, com coerência prática, é o maior desafio do momento. Resumindo: há avanços, mas há também muito ‘compliance para inglês ver’.

Então esse é o gargalo do compliance no Brasil hoje: muita regra e pouca capacidade de transformar isso em cultura?

Exatamente. Gasta-se muita energia na criação e divulgação de regras, mas muitos programas não engajam e não mudam o comportamento.

Na maioria dos casos, a boa intenção existe, o investimento também, só que falta clareza de método para criar cultura. E aqui entra um ponto que muita gente subestima: técnica é indispensável, mas não basta.

Se o diretor de compliance não sabe liderar, com método adequado para inspirar e mobilizar pessoas, o compliance vira um conjunto de documentos bem escritos e pouco vividos.

Em outros casos, o problema é mais grave: quando a liderança maior não está comprometida com a ética, o programa de compliance será ‘de fachada’. Mas, olhando para o mercado, eu diria que a maior parte dos insucessos que vejo hoje resulta mais de deficit de repertório de liderança do que de falta de caráter.

O senhor está falando de soft skills. É isso o que falta para o compliance se consolidar no Brasil?

Em certo sentido, sim. ‘Soft skills’ ou “real skills’ geram confiança, diminuem custo de transação, aceleram cooperação, enfim, geram resultados. Por isso, de ‘soft’ elas não têm nada. Ao mesmo tempo, competência técnica dá credibilidade.

O ponto é combinar as duas coisas: um compliance tecnicamente sólido, conduzido por alguém que consegue dialogar, escutar e criar segurança para as pessoas falarem. Quando isso acontece, muita coisa aparece antes de virar crise, e o programa ganha tração.

E o que falta para os profissionais da área darem esse passo?

Além de consultor, sou mentor de profissionais que buscam aumentar seu repertório de liderança. Às vezes, eu preciso dar um toque neles para caírem na real [risos], ou seja, para tratarem as ‘soft skills’ como habilidades centrais, obrigatórias.

Nessa era de inteligência das máquinas é urgente a ampliação desse repertório. As chamadas ‘hard skills’ já são commodities. As habilidades humanas, que geram conexão emocional, são hoje o único diferencial insubstituível.

Porque, se entendi bem, compliance é engajamento. E isso só vem quando existe confiança em quem lidera o processo.

Exato. Ocorre que existem crenças que travam a área e a efetividade de muitos programas. A primeira é achar que ‘soft skills’ são opcionais ou traço de personalidade. Mas elas podem ser aprendidas e treinadas.

A segunda é tratar compliance como puro improviso. Como não é disciplina comum na graduação, muita gente aprende na prática, sem fundamentos teóricos sólidos e sem método claro. Isso prejudica a criação de cultura.

Poderia citar um exemplo prático sobre esse ponto?

Veja: confiança é a palavra-chave. O pressuposto metodológico fundamental para o sucesso de um sistema que busca, prioritariamente, disseminar cultura de integridade é a confiança nas pessoas.

Por isso, precisamos comunicar, de modo muito amplo, que confiamos nos nossos pares e liderados, que reconhecemos, desenvolvemos e libertamos o que eles têm de melhor. 

Isso significa focar nos acertos e nas condutas positivas, e não só nos erros. E isso muda o perfil do sistema de integridade: ele deixa de ser um sistema de controles internos, auditoria e corregedoria e passa a priorizar a criação e gestão da cultura organizacional.

Aqui, o foco central é a prevenção. A identificação dos desvios e a repressão seguem relevantes, mas como complemento.

No Brasil de hoje, esse pressuposto de confiança vira alvo fácil de crítica. O senhor entende essas críticas?

Entendo as críticas, porque confiar sempre envolve algum risco. Mas não confiar é um risco maior. E aqui o dano aparece tanto na eficácia quanto na eficiência, além da legitimidade.

Um ambiente de desconfiança afasta bons profissionais, reduz cooperação e encarece tudo, do processo interno ao serviço entregue ao cidadão.

Por isso, o modelo prioritariamente ancorado em controle, auditoria e punição pode até gerar medo, mas dificilmente gera cultura. Cultura vem quando a organização é firme com desvios e, ao mesmo tempo, madura o suficiente para tratar gente como gente.

O senhor enxerga exemplos de instituições que já operam esse modelo mais moderno, baseado em cultura e confiança?

No âmbito privado, há muitas empresas que investem de forma sistêmica em cultura de integridade. Eu gosto de um exemplo simples: uma companhia criou um comitê permanente de cultura, com representantes de vários níveis, escolhidos pelos próprios colegas.

Isso é governança de cultura, não campanha barata. Cultura é uma infraestrutura psicossocial, a energia organizacional que conecta as pessoas em torno de um objetivo comum.

Por isso, ela é um ativo tão crucial quanto os ativos físicos, intelectuais e tecnológicos. Quando a empresa trata cultura como ativo, a integridade deixa de ser discurso e vira realidade.

E na esfera pública, onde o senhor vê esse modelo ganhando forma, na prática?

O compliance é muito novo no setor público. Por isso, ainda é cedo para falar em resultados sistêmicos na cultura de integridade. Mas me chamou a atenção, positivamente, uma fala recente do atual controlador-geral de Mato Grosso do Sul, colocando confiança e cultura como eixo central do programa deste Estado.

Eu não sei lhe dizer como isso está acontecendo na prática, ou se isso está acontecendo, mas a consciência do que é prioritário já é um ótimo sinal de maturidade institucional.

Quais são os principais movimentos de integridade no poder público de MS?

A meu ver, o principal movimento é o do Poder Executivo estadual. O governador Eduardo Riedel veio do mundo corporativo e demonstra tratar o compliance como instrumento de boa governança. Isso faz a diferença.

Além disso, temos um controlador-geral muito qualificado e experiente. Mas é difícil dizer algo sobre o que está sendo construído no dia a dia, porque não estou lá dentro.

Nessa expansão do compliance no governo Estadual, o que precisa acontecer para isso virar cultura?

Eu vejo como muito positivo o Estado ter um marco e uma meta clara. Isso dá direção e escala. Compliance vira cultura pela combinação de fatores, e alguns são justamente os que eu trouxe aqui hoje: liderança ética, competente e humanizada, bem como método e confiança nas pessoas.

Mas sempre há variáveis individuais, relacionais e de contexto que podem acelerar ou travar esse processo. E como eu não acompanho o dia a dia do governo por dentro, eu prefiro não especular.

O que eu posso dizer com segurança é que os fundamentos de efetividade não mudam. A infraestrutura ética precisa ser construída sobre bases sólidas e com os pés no chão.

Dá para aplicar esse modelo no Ministério Público, no Poder Judiciário, no Poder Legislativo e no Tribunal de Contas, ou cada um tem uma lógica própria?

Boa pergunta. Sim, cada uma dessas instituições tem sua lógica, suas normas e seus riscos. Mas todas giram em torno de elementos comuns, como gente, comunicação, poder e ambiente de trabalho.

Uma pergunta comum a todas elas: como o poder é exercido e cuidado no dia a dia? Porque, quando o poder é malcuidado, aparecem desvios de todo tipo, como corrupção e assédio.

Por isso, se o objetivo é tirar o compliance do papel, integridade pública precisa olhar para o ambiente de trabalho. Fraude e corrupção são essenciais, mas não esgotam o tema.

Sem enfrentar o assédio com seriedade, o objetivo da criação de cultura cai por terra, porque esse tipo de abuso corrói a saúde psicossocial, a motivação e a confiança.

Quando o senhor diz que tudo gira em torno de gente e comunicação, que implicações práticas isso traz para o modelo de compliance que o senhor defende?

No fator gente, a implicação é a humanização do sistema. Por trás de qualquer função de autoridade há um ser humano falível, sujeito a vieses, pontos cegos e pressões do dia a dia.

Por isso, eu fujo da lógica de ‘caçar maçãs podres’ e olho para o ‘barril’, ou seja, para o ambiente que pode estar deteriorado e puxando a conduta na direção errada.

Se quisermos entender como o barril apodrece, precisamos olhar para os discursos, as decisões e as interações que o constroem, ou seja, para a comunicação, que molda a percepção e o comportamento.

Quando o discurso é maior do que a prática, a integridade vira estética, ou seja, parece existir, mas não se sustenta no dia a dia. Se o servidor não percebe essa coerência, o programa vira burocracia, não cultura. Se a sociedade não percebe integridade na prática, a confiança pública cai e, com ela, a legitimidade democrática se enfraquece.

O presidente do STF, Edson Fachin, defende um código de conduta para ministros. Que princípios e temas esse debate precisa enfrentar para fortalecer confiança pública, sem comprometer a independência da Corte?

Falo em caráter pessoal. Debaixo da toga há seres humanos falíveis. Por isso, sou a favor de um código de conduta, como parte de um sistema de integridade, não como solução isolada.

Evidentemente, o desenho do código precisa ser feito por quem vive a instituição, especialmente os seus membros, ainda que sugestões de terceiros interessados precisem ser ouvidas e consideradas.

Ao mesmo tempo, é difícil fugir de alguns temas que o próprio presidente Fachin vem colocando no debate público, como transparência, parâmetros para gestão de potenciais conflitos de interesses e cuidados com a exposição institucional em agendas e eventos, entre outros.

A lógica é simples: regras claras não enfraquecem a independência, elas protegem o ambiente institucional e fortalecem a confiança pública.

Marco Aurélio Borges de Paula - Especialista em compliance

{Perfil}

Marco Aurélio Borges de Paula

Marco Aurélio Borges de Paula é mestre em Direito pela Universidade de Coimbra. Possui certificações internacionais em compliance e gestão de riscos. Atua há mais de 10 anos na área de ética e compliance.

É autor de cinco livros sobre compliance e liderança ética. Integra o Observatório Nacional da Integridade e Transparência do Poder Judiciário (CNJ) e é professor de Compliance na pós-graduação em ESG, Liderança e Inovação da FAAP.

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Polêmica

MPF pede condenação de Ratinho e SBT por falas contra Erika Hilton durante programa

A parlamentar protocolou três ações por transfobia contra o apresentador - dentre elas, o pedido de danos morais coletivos ao MPF.

13/03/2026 21h00

MPF pede condenação de Ratinho e SBT por falas contra Erika Hilton durante programa

MPF pede condenação de Ratinho e SBT por falas contra Erika Hilton durante programa Divulgação

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O Ministério Público Federal (MPF) pediu nesta sexta-feira, 13, que o apresentador Carlos Roberto Massa, conhecido como "Ratinho", e o SBT sejam condenados a pagar multa de R$ 10 milhões, a título de indenização por danos morais coletivos por conta das falas veiculadas em rede nacional contra a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP).

Na quinta, 12, a parlamentar protocolou três ações por transfobia contra o apresentador - dentre elas, o pedido de danos morais coletivos ao MPF.

Na edição de quarta-feira, 11, do "Programa do Ratinho", o apresentador afirmou que era contrário à eleição da parlamentar como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher porque "ela não é mulher, ela é trans".

Na ocasião, o SBT disse, por meio de nota, que repudia "qualquer tipo de discriminação e preconceito". Em postagem nas redes sociais nesta sexta, o apresentador defendeu que "crítica política não é preconceito".

O que diz o MPF

A ação civil pública foi ajuizada nesta sexta, 13, pelo procurador regional dos Direitos do Cidadão no Rio Grande do Sul, Enrico Rodrigues de Freitas. De acordo com o MPF, as falas caracterizam discurso de ódio que desumanizam e deslegitimam a identidade de gênero de toda a comunidade LGBTQIA+.

"O interlocutor reduz a complexidade da existência feminina a funções fisiológicas e reprodutivas", afirma o procurador, uma visão que "não apenas exclui mulheres trans, mas também marginaliza mulheres cisgênero que, por questões de saúde, idade ou genética, não possuem útero ou não menstruam".

"É uma forma de violência simbólica que nega à mulher trans o direito básico à sua própria identidade, tentando fixá-la em uma categoria biológica que ela não reconhece como sua", conclui.

Retirada do programa do ar e retratação

Na ação, também foi pedida retirada do conteúdo do programa dos sites e redes sociais do SBT, e que a União informe, no prazo de dez dias, quais medidas administrativas estão sendo tomadas em razão do descumprimento dos princípios que regem a concessão de telecomunicação.

O MPF também solicitou que Ratinho e o SBT publiquem retratação pelos mesmos meios, tempo e horário. A postagem deve permanecer nos sites da emissora pelo prazo mínimo de um ano.

Comissão de Defesa da Mulher

Com 11 votos a favor e dez em branco, Hilton se tornou a primeira mulher transexual a presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados.

A eleição se tornou alvo de críticas da oposição, que defende que a comissão deveria ser presidida por uma mulher cisgênero.

"A eleição de Erika Hilton para a presidência da Comissão da Mulher é de uma incoerência sem precedentes. Estamos perdendo cada vez mais espaços para pessoas que não têm legitimidade para nos representar. Não fazem ideia dos desafios de uma mulher biológica", escreveu a deputada federal Clarissa Tércio (PP-PE) em postagem no X.

"E não adianta o politicamente correto tentar calar as nossas vozes. Quem quiser acreditar que ser uma mulher é uma construção social, que acredite. Mas até o momento, a biologia não foi revogada", acrescentou Clarissa.

O deputado federal Éder Mauro (PL-PA) disse que a prioridade de Erika será "travar guerra ideológica contra o que ela chama de 'onda redpill' nas redes sociais".

"Isso é um desrespeito com as mulheres do Brasil. A comissão deveria estar focada em proteger e garantir direitos, não em servir de laboratório para pautas ideológicas da esquerda", escreveu Mauro em publicação no Instagram.

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