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ALERTA

China planeja autossuficiência alimentar e ameaça o agro brasileiro

País asiático, que compra 71% da soja exportada pelo Brasil, pretende reduzir sua dependência já nos próximos cinco anos

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O agronegócio brasileiro, um dos pilares da estabilidade econômica do país, enfrenta hoje uma ameaça estrutural inédita, algo que pode redesenhar o comércio global nas próximas décadas.

O Brasil tem uma dependência crítica e concentrada do mercado chinês, que é o destino de 71% das exportações nacionais de soja e 54% da carne bovina. Sozinho, o país fornece mais de 60% de toda a oleaginosa importada por Pequim e cerca de 40% de sua carne.

No entanto, a China decidiu que essa dependência é um risco intolerável para sua segurança nacional e acionou um plano para reduzir suas compras externas. As medidas estão delineadas no recém-publicado 15º Plano Quinquenal chinês 2026-2030.

A projeção central é que a demanda chinesa por importação de soja caia 25% até 2030, o que representa um corte de 23,5 milhões de toneladas. O volume equivale a quase um terço de tudo o que o Brasil exportou para a China em 2024.

RISCO

Sem outros compradores globais com escala suficiente para absorver tamanha oferta, o Brasil enfrenta o risco real de uma queda simultânea nos volumes e nos preços das commodities. Isso pode desvalorizar terras recém-convertidas e infraestruturas logísticas, que perderiam viabilidade econômica.

Uma mudança profunda na estratégia chinesa impulsiona essa transformação: o país passou a aplicar no campo o mesmo "manual industrial" que lhe garantiu a liderança global em painéis solares e veículos elétricos.

No 15º Plano Quinquenal, a segurança alimentar foi elevada à classificação de prioridade estratégica, equiparada à segurança energética e financeira.

O objetivo de Pequim é reverter também um déficit comercial agrícola de US$ 124,5 bilhões (R$ 631,2 bilhões) mediante uma doutrina de "Alimentação Expandida", com foco em resiliência soberana e autonomia tecnológica.

A China reconhece que a autossuficiência absoluta é impossível pela escassez de terra e água —possuindo apenas 8% das terras aráveis do mundo para 15% da população—, mas busca uma "dependência segura" por meio da diversificação agressiva e inovação.

"Negar o tamanho dessas transformações pode ser muito nocivo, e não vemos um sentido de urgência no Brasil para enfrentar as novas diretrizes", afirma Patricia Ellen, sócia e CEO no Brasil da Systemiq, consultoria internacional presente em países como Reino Unido, Alemanha e Indonésia que esmiuçou em recente relatório ("China’s Food Future") os impactos dessas mudanças.

INCENTIVOS

Para Ricardo Abramovay, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, embora a propriedade de terras na China seja estatal, há forte estímulo a investimentos privados e inovadores —como cultivos e produção de proteína animal em estruturas verticais e próximas às cidades.

O plano prevê acesso a capital de baixo custo de bancos estatais. Inclui também subsídios direcionados e financiamento contínuo em pesquisa e desenvolvimento. Esse conjunto de medidas reduziria o risco nos estágios iniciais e o custo de fracassos.

Além disso, permitiria que as empresas investissem em escala antes que a viabilidade comercial fosse comprovada —acelerando curvas de aprendizado e viabilizando a expansão da capacidade produtiva.

"Os líderes chineses têm convicção, pelo passado do país, de que um bom governo é o que garante boa alimentação. Querem replicar na área, agora que os chineses têm mais renda para comer melhor, o que realizaram no setor industrial", afirma Abramovay.

De 1959 a 1961, a China enfrentou a chamada Grande Fome, causada pela combinação de fatores climáticos com as políticas econômicas e agrícolas fracassadas do programa "Grande Salto Adiante", de Mao Tsé-Tung (1893-1976). Dezenas de milhões de pessoas morreram por inanição, em uma das maiores crises de fome da história mundial.

"As metas são concretas: produção de 725 milhões de toneladas de grãos por ano, mais que o dobro da produção brasileira; expansão de terras de alto padrão com irrigação e mecanização; sementes soberanas com biotecnologia em larga escala; mais seguro e crédito, e melhor infraestrutura no campo", analisa Marcos Jank, coordenador do Núcleo Insper Agro Global.

Ele afirma, no entanto, que as projeções da Systemiq com base nos planos chineses podem ser vistas com ceticismo. "Sistemas agroalimentares são governados por biologia, agronomia e cultura, e são muito mais resistentes à transformação rápida do que painéis solares, baterias e veículos elétricos, setor em que o sucesso chinês foi enorme."

Jank pondera que, enquanto o potencial de crescimento da oferta agrícola brasileira é enorme, o da China é limitado pela escassez de terras férteis e pelas restrições severas no uso de água. "Mas a prudência nos recomenda buscar outros mercados", diz.

SILÊNCIO

Procurado, o Ministério da Agricultura e Pecuária não comentou as novas diretrizes chinesas. A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso, estado líder na produção de grãos, também não se manifestou.

Os avanços tecnológicos que sustentam a guinada chinesa são acompanhados de números rigorosos. O governo acionou o plano "Ação de Capacidade de 50 Milhões de Toneladas", que impõe metas de produtividade estritas às províncias para aumentar a produção doméstica de grãos até 2030.

Na área de biotecnologia, a China trata a segurança de sementes com a mesma importância estratégica dos semicondutores, aprovando a comercialização de variedades de milho e soja geneticamente modificados locais para elevar o rendimento por hectare entre 6% e 13%.

Outra frente decisiva é a reestruturação das fórmulas de ração animal. O governo determinou que a inclusão de farelo de soja caia de 14,5% para menos de 10% até 2030. A eficácia dessa medida já é visível em escala industrial: a gigante Muyuan Foods, maior produtora de suínos do mundo, reduziu sua inclusão de soja para apenas 5,7% em 2023, economizando 31 kg do grão por animal produzido.

Segundo Eduardo Martins, ex-presidente do Ibama e diretor-executivo do Grupo Associado de Agricultura Sustentável, a China tem primazia na produção de aminoácidos ("tijolos" que constroem proteínas). "Isso permite aumentar o valor proteico de suas rações, e os chineses estão em pleno processo de escalar os volumes para tornar seu uso economicamente viável", afirma.

EXPORTADORES

A longo prazo, a China planeja deixar de ser o maior importador para se tornar um competidor global. Até 2040, o país projeta ser um exportador líquido de aves, laticínios, ovos e produtos aquáticos, forçando produtores tradicionais a enfrentar a concorrência chinesa.

Além disso, Pequim investe em biomanufatura, com bionegócios e proteínas alternativas (vegetais, fermentadas e cultivadas em laboratório) projetadas para atender de 35% a 55% da demanda doméstica por carne até 2050.

Nesse novo tabuleiro geopolítico, o agronegócio brasileiro ainda é considerado pela China como uma "garantia de subsistência real" a curto prazo, enquanto o agro dos EUA serve como "moeda de troca política".

No entanto, com o aumento da autossuficiência tecnológica, a China terá o poder de elevar exigências ambientais, demandando produtos livres de desmatamento e com rastreabilidade total, alinhando-se a padrões similares aos da União Europeia.

(Folha de S. Paulo)

risco sanitário

Agricultura confirma foco de doença de Newcastle em Santa Catarina

O estabelecimento foi interditado pelo Serviço Veterinário Oficial de Santa Catarina, com a suspensão da movimentação de aves, mas há risco de afestar exportações

20/10/2026 07h16

Doença foi constatada em um aviário que cria perus e o temor é de que caso prejudique as exportações

Doença foi constatada em um aviário que cria perus e o temor é de que caso prejudique as exportações

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O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmou o registro de um foco da doença de Newcastle em um estabelecimento de avicultura comercial de corte de perus no município de Nova Itaberaba, em Santa Catarina. A existência do foco foi confirmada no domingo (18).

O ministério informou que o estabelecimento foi interditado pelo Serviço Veterinário Oficial de Santa Catarina, com a suspensão da movimentação de aves. Além disso, a pasta esclareceu que medidas de controle, contenção e erradicação do foco serão executadas conforme as diretrizes do Plano de Contingência para Influenza Aviária e Doença de Newcastle.

A doença de Newcastle afeta aves domésticas e silvestres e é causada por vírus virulento do paramixovírus aviário do sorotipo 1 (APMV-1), conforme os critérios estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA).

A ocorrência foi identificada durante investigação epidemiológica conduzida pelo Serviço Veterinário Oficial de Santa Catarina e confirmada por análise realizada no Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP). 

O laboratório é reconhecido pela OMSA como de referência internacional para o diagnóstico da doença.

“O Mapa ressalta que, apesar da necessidade de adoção de medidas sanitárias para controlar a ocorrência, o consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção oficial permanece seguro, sem contraindicações”, disse o ministério.

O governo informou que notificou a OMSA e aos parceiros comerciais do Brasil, em cumprimento aos compromissos internacionais de transparência sanitária. 

O secretário-substituto de Comércio e Relações Internacionais do ministério, Rafael Requião, disse que não recebeu qualquer informação sobre a suspensão das exportações brasileiras por conta do foco da doença.

"Ainda não temos nada objetivo a informar [sobre suspensão de exportações]", afirmou.

vovó vota

Abstenção de eleitores com mais de 70 anos cai 9,7 pontos percentuais

Percentual de eleitores nessa faixa etária que não foram votar passou de 58,8% em 2022 para 49,1% no primeiro turno de 2026

17/10/2026 22h00

Entre idosos que estão na faixa dos 85 aos 89 anos, o comparecimento no primeiro turno foi de apenas 24,3%

Entre idosos que estão na faixa dos 85 aos 89 anos, o comparecimento no primeiro turno foi de apenas 24,3%

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A abstenção de eleitores com mais de 70 anos caiu quase 10 pontos percentuais no primeiro turno das eleições, segundo um levantamento do Movimento Voto 70+, iniciativa apartidária da sociedade civil que defende a participação política dos idosos.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reunidos pelo movimento, o percentual de eleitores nessa faixa etária que não foram votar passou de 58,8% em 2022 para 49,1% no primeiro turno de 2026.

No eleitorado em geral, a abstenção em 2026 foi de 21,08%, o que significa que 33 milhões de brasileiros aptos deixaram de participar.

O voto é facultativo para eleitores com mais de 70 anos, assim como para os analfabetos e para os jovens com mais de 16 e menos de 18 anos. Na hora de votar, eleitores com mais de 80 anos têm prioridade nas filas das seções eleitorais.

A página da Corte que apresenta os resultados da eleição traz mais detalhes sobre o comparecimento às urnas dos idosos que têm voto facultativo: 

70 a 74 anos: 68,77%; 
75 a 79 anos: 52,23%;
80 a 84 anos: 37,12%;
85 a 89 anos: 24,30%; 
90 a 94 anos: 13,46%; 
95 a 99 anos: 4,34%.

Mais eleitores idosos

A redução ocorreu em um cenário de expansão do eleitorado de mais de 70 anos, que passou de 14,9 milhões, em 2022, para 17,2 milhões de pessoas aptas a votar em 2026. O grupo cresce para 36,8 milhões de eleitores se forem considerados também os que têm mais de 60 anos.

Para a idealizadora do Movimento Voto 70+, Cléa Klouri, o aumento do comparecimento representa um avanço importante, porque é um sinal de que o envelhecimento não significa afastamento da vida política.

“Estamos falando de uma geração que ajudou a construir o país e que continua tendo muito a contribuir para as decisões sobre o próprio futuro", afirma Cléa.

A pesquisadora Adriana de Queiroz contou que, para entender o que está por trás do não comparecimento nessa faixa etária, o Movimento Voto 70+ conduziu a pesquisa exploratória Retratos do Voto 70+: descobertas sobre a abstenção eleitoral.

O estudo identificou três perfis entre os eleitores 70+ que deixariam de votar ou não tinham certeza se iriam comparecer às eleições de 2026:

o eleitor com “baixa autoestima política”, que acredita que seu voto não faz diferença;
o eleitor que considera que o resultado da eleição já não terá impacto sobre sua vida;
o eleitor que deseja votar, mas enfrenta barreiras físicas, como filas, distância do local de votação ou dependência de terceiros para se deslocar até a zona eleitoral.

“Entender essas diferenças é importante para compreender por que um eleitorado que cresce tão rapidamente continua apresentando níveis tão elevados de abstenção”, afirma Adriana, que é pesquisadora do Data8, centro de pesquisa, tendências, inteligência e inovação sobre a economia da longevidade.

Segundo turno

O Movimento Voto 70+ pretende ampliar o debate sobre os obstáculos que dificultam o comparecimento às urnas. Entre eles, estão as limitações de mobilidade, a ausência de redes de apoio e o etarismo.

No segundo turno, o comparecimento dos 70+ continua a contar com um incentivo relevante: o voto pode ser utilizado pelo INSS para a prova de vida automática de aposentados, pensionistas e beneficiários de programas assistenciais. Em 2026, a medida vale, inclusive, para os que não votaram no primeiro turno.

'Vovó vota'

No segundo turno, o Movimento Voto 70+ promoverá também a campanha Vovó Vota, que propõe aproximar netas e avós durante as eleições. A iniciativa busca enfrentar barreiras que contribuem para a abstenção feminina, como dificuldades de mobilidade, ausência de redes de apoio e desestímulo familiar.

Em 2022, segundo dados reunidos pelo Data8, 64% das mulheres com mais de 70 anos não votaram, percentual dez pontos superior ao registrado entre os homens da mesma faixa etária. 

Por meio de um guia digital, a campanha reúne orientações práticas para organizar o deslocamento até o local de votação, conferir documentos e oferecer companhia às eleitoras que desejam comparecer às urnas.

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