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Entenda como o agro afeta o clima e por que ele fica fora do mercado de carbono no mundo todo

Para incluir os produtores no sistema de metas seria necessário calcular a quantidade de emissões de cada propriedade. Mas não há como fazer isso

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A exclusão do agronegócio do mercado regulado de carbono no Brasil não se justifica apenas pelo tamanho da bancada ruralista no Congresso. Hoje, de fato, segundo especialistas, é muito difícil medir o saldo exato das emissões de gases de efeito estufa do setor; não à toa, a agropecuária está fora de todos os mercados de carbono existentes no mundo.

Em quase nenhum lugar, porém, o setor é tão representativo no saldo das emissões nacionais quanto no Brasil. Se consideradas as emissões do desmatamento promovido por parte dos fazendeiros , o agronegócio é responsável por 74% das emissões de gases do efeito estufa (GEE) do país, sendo que 80% disso vem da produção de carne bovina, segundo o Observatório do Clima.

Esse é o principal argumento de quem é a favor de introduzir o setor no sistema –inclusive, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Também em quase nenhum lugar o agro é tão representativo na economia quanto no Brasil, onde é responsável por um quarto do PIB (Produto Interno Bruto). Na China, por exemplo, dona do maior mercado de carbono do mundo, a agricultura é 8% do PIB.

Por esses motivos, o relator do projeto de lei aprovado na Câmara no final do ano passado, o deputado Aliel Machado (PV-PR), tentou de várias formas incluir o setor no sistema, sem sucesso. O agro já havia ficado fora do projeto aprovado no Senado meses antes. A discussão agora volta para os senadores.

Motivos técnicos da exclusão

O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa, como o mercado será chamado no Brasil, prevê limites de emissões para cada empresa. Aquelas que conseguirem emitir menos que o estabelecido ganharão cotas comerciáveis, já aquelas que não conseguirem cumprir, precisarão comprar cotas.

Assim, se o agro entrasse no mercado, produtores rurais também precisariam cumprir limites de emissões.

Hoje, a principal origem direta (sem considerar o desmatamento) de emissões do setor é o arroto dos animais, que libera metano na atmosfera –gás 86 vezes mais prejudicial do que o CO2 em 20 anos. Essa emissão ocorre durante o processo de digestão dos alimentos pelos animais.

Para incluir os produtores no sistema de metas seria necessário calcular a quantidade de emissões de cada propriedade. Mas não há hoje formas acessíveis e precisas de como fazer isso.

O IPCC, painel científico da ONU, disponibiliza uma forma de calcular as emissões vindas de gados. A conta, considera, por exemplo, uma média de quantos quilos de metano cada animal emite, a partir de seu peso e idade.

Para pesquisadores, porém, a forma não consegue atender toda a diversidade do rebanho brasileiro.

Isso porque a liberação de metano pelos animais depende, sobretudo, de sua alimentação. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), por exemplo, tem estudos que indicam a altura ideal do capim para a entrada e saída de animais nas pastagens, potencializando ao máximo a absorção de carbono pelo solo e, consequentemente, reduzindo as emissões por gado.

"Suponha que haja dois produtores com dez hectares e cinco vacas cada um. Um deles tem um pasto super legal e dá ração ao gado, já o outro joga as vacas no pasto e vai embora. Nesse caso, como é que o governo, utilizando a média, vai distinguir a emissão dos dois? É justamente por isso que a média de vacas e pastos não funciona. Um dia vamos chegar lá, mas hoje não sabemos como fazer isso com a precisão que o mercado de carbono precisa", diz Shigueo Watanabe, pesquisador sênior no Instituto Talanoa.

Cristiano Alberto, pesquisador da Embrapa, pensa semelhante. De acordo com ele, graças a essas médias –que são constantemente aprimoradas pela Embrapa– é possível estimar, em geral, o volume de emissões de todo o setor no país. O difícil, analisa, é separar fazenda por fazenda.

"É difícil estimar a emissão de metano pelo boi porque isso varia até conforme a qualidade do material que ele come. Se for um pasto mal manejado e velho, ele emite muito metano. Além disso, se o boi demora muito para engordar, ele passa a vida inteira emitindo metano. Mas, se você engordar ele em curto prazo, vai emitir menos", explica.

Incluir as atuais metodologias do IPCC no mercado de carbono, segundo esses especialistas, prejudicaria o pequeno produtor. "Esse processo é diferente de uma chaminé de uma fábrica, onde é possível medir exatamente quanto de óleo e gás está sendo queimado", diz Watanabe.

De fato, o mercado de carbono foi em princípio desenvolvido para as indústrias. Na União Europeia, onde esse sistema existe desde o início do século, o agro segue de fora, ainda que recentemente alguns países venham tentando taxar as emissões do setor –bem menor, diga-se de passagem, que o brasileiro.

"Como no Brasil, o setor agrícola é muito poderoso na Europa. É por isso que quase todos os países que desejam reduzir as emissões olham primeiro para outros setores, especialmente eletricidade e transporte. Além disso, o agro envolve segurança alimentar, mas isso não significa que nada deva ser feito", afirma Milan Elkerbout, pesquisador de política climática internacional na Resources for the Future, instituição baseada em Washington.

Na Holanda, o governo tenta há ao menos cinco anos criar regulações para diminuir as emissões de GEE pela agropecuária –uma das soluções levantadas pelo país é, inclusive, comprar fazendas e desativá-las. Mas, em troca, vem convivendo com dezenas de protestos.

Atualmente, o país mais avançado nessa questão é a Nova Zelândia. Em agosto do ano passado, o governo anunciou que começará a taxar as emissões do setor a partir do quarto trimestre de 2025 e obrigou os produtores rurais a calcular suas emissões até o fim de 2024. Por enquanto, o mecanismo funcionará à parte do mercado de carbono neozelandês.

Como esperado, o setor reagiu. A Federated Farmers (principal representante do setor no país) disse que o plano do governo é "insensível à realidade dos neozelandeses rurais". O setor defende que a taxação seja estabelecida somente após a criação de metodologias capazes de quantificar quanto as plantações (inclusive de capim) conseguem absorver de carbono –assim, seria possível subtrair as emissões pelas absorções, o que diminuiria a carga tributária sobre eles.

No Brasil, esse argumento é compartilhado pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), que quer que o produtor rural entre no mercado regulado como fornecedor de créditos de carbono oriundos justamente desse sequestro. Sob resistência de ambientalistas, o PL aprovado na Câmara já permite essa venda, ainda que não estipule como esses créditos seriam negociados no mercado regulado.

A tecnologia para fazer aferição, porém, ainda está em desenvolvimento. "Atualmente, fazemos estimativas macro que não atendem ao mercado de carbono. Os números que vemos hoje não foram medidos, foram estimados com base em fatores", explica Cristiano Alberto, da Embrapa.

Até por isso, analisa, não há hoje condições de o agro entrar no mercado regulado de carbono. "Foi prudente a forma como essa discussão foi conduzida. É uma oportunidade enorme para o agro, mas é necessário melhorar um pouquinho as ferramentas para que as coisas possam começar", diz.

 

telefonema

Ministros do Brasil e EUA vão retomar negociação comercial

O dia não está definido, mas a previsão é de que reuniões ocorram já na próxima semana

22/08/2026 07h11

Argumento de que EUA são superavitários no comércio com o Brasil é um dos principais argumentos na negociação

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O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e representantes do Ministério das Relações Exteriores (MRE) deverão se reunir na próxima semana com o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para retomar as negociações comerciais entre os dois países.

A reunião ainda terá a data acertada pelas equipes dos dois governos. O Mdic confirmou ter recebido contato do representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, depois da conversa telefônica desta sexta-feira (21) entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente estadunidense, Donald Trump.

A retomada das tratativas abre um novo canal de diálogo entre Brasília e Washington em meio à disputa comercial provocada pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.

Ligação de Lula

Lula telefonou para Trump na manhã desta sexta-feira. A conversa durou uma hora e 20 minutos e, segundo o Palácio do Planalto, ocorreu de forma cordial.

O presidente brasileiro defendeu a retomada das negociações comerciais e afirmou que as justificativas apresentadas pelo governo norte-americano para a adoção das novas tarifas são infundadas.

Entre os argumentos utilizados pelos Estados Unidos para fundamentar as medidas estão questões relacionadas a desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos associados a trabalho forçado.

Lula afirmou que as tarifas prejudicam tanto o Brasil quanto os Estados Unidos e defendeu o diálogo como caminho para preservar a relação comercial entre os dois países.

Trump concordou com a necessidade de manter os vínculos comerciais e sinalizou a retomada do contato entre as equipes dos dois governos.

Novo canal

A reunião deverá envolver Márcio Elias Rosa, integrantes do MRE e representantes do USTR.  Em nota conjunta, o Mdic e o MRE consideram que a sinalização dos dois presidentes cria uma nova oportunidade para a busca de uma solução negociada para o impasse comercial.

Cooperação contra crime

Além das tarifas, Lula e Trump discutiram segurança e cooperação no combate ao crime organizado.

O presidente brasileiro defendeu uma atuação conjunta dos dois países e afirmou que as organizações criminosas exercem pressão sobre populações vulneráveis, mas não devem ser equiparadas a organizações terroristas.

Lula também apresentou ações adotadas pelo Brasil para combater essas estruturas, incluindo medidas de asfixia financeira, que resultaram na apreensão de aproximadamente R$ 17 bilhões.

Entre as iniciativas citadas estão a Lei Antifacção e a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus.

Trump, segundo o Planalto, manifestou disposição para ampliar a cooperação e afirmou que indicará integrantes de alto escalão para dar continuidade às tratativas.

Conflitos internacionais

Os presidentes também trataram das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.

Sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia, os dois defenderam a necessidade de uma solução negociada. Lula também criticou a falta de atuação do Conselho de Segurança das Nações Unidas diante dos conflitos internacionais.

O presidente brasileiro sugeriu a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para discutir alternativas diplomáticas.

Durante a conversa, Trump também abordou as perspectivas do governo norte-americano para o conflito com o Irã.

Ao defender a busca por soluções diplomáticas, Lula afirmou: "Os grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas aqueles que põem fim aos conflitos".

SOBERANIA

Lula conversa com Trump e reabre negociação sofre tarifaço

Conforme o Palácio do Planalto, a conversa foi "em tom amistoso e cordial" e durou uma hora e 20 minutos nesta sexta-feira

21/08/2026 13h10

A conversa entre Lula e Trump aconteceu pela manhã e combate ao crime organizado também foi tema

A conversa entre Lula e Trump aconteceu pela manhã e combate ao crime organizado também foi tema

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou nesta sexta-feira, 21, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Lula reiterou pedido para que Brasil e Estados Unidos insistam na negociação para retirar o tarifaço imposto a produtos brasileiros e Trump, segundo o governo brasileiro, "concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível".

As informações foram divulgadas pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) nesta sexta-feira. O Palácio do Planalto informou que a conversa foi "em tom amistoso e cordial" e durou uma hora e 20 minutos.

"Lula enfatizou que as alegações que basearam a medida (desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos com trabalho forçado) são infundadas. Ao observar que as tarifas afetam negativamente tanto o Brasil, quanto os Estados Unidos, afirmou que seguir na mesa de negociação é a melhor opção para os dois países. Reiterou a importância de trabalhar juntos para que os Estados Unidos continuem sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil", relatou o governo brasileiro na nota.

O comunicado foi divulgado pela Secom no início da tarde desta sexta. A conversa entre Lula e Trump aconteceu pela manhã. O combate ao crime organizado também foi assunto, assim como em outras conversas entre os dois chefes de Estado.

De acordo com a Secom, Lula "reiterou o interesse brasileiro na cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado" e "argumentou que grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre as populações mais carentes, mas não se confundem com organizações terroristas". Também disse que o Brasil "tem instrumentos para enfrentar essas organizações sem precisar de classificação especial para designá-las".

A Secom pouco falou sobre as reações de Trump às falas de Lula. Sobre a questão envolvendo o combate ao crime organizado e à decisão dos Estados Unidos de ter classificado facções criminosas do Brasil como terroristas, a Secom limitou-se a dizer que Trump "se dispôs a reforçar a cooperação bilateral e indicou que mobilizaria funcionários de alto escalão para dar seguimento aos entendimentos nessa área".

A conversa entre os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos também passou pela Organização das Nações Unidas (ONU). Assim como fez com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, Lula reclamou a Trump sobre o conselho de segurança da ONU.

"O presidente Lula lamentou a inoperância do Conselho de Segurança da ONU e, a exemplo do que sugerira aos Presidentes Xi Jinping e Putin, propôs a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para encontrar saídas diplomáticas para as crises atuais. O presidente Lula afirmou que os grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas aqueles que põem fim aos conflitos", informou a Secom.

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