Artigos e Opinião

ARTIGO

Ângela Maria Costa:
"A revolução das fraldas"

Professora da UFMS

Redação

20/08/2015 - 00h00
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Chega de prosopopeia! Creche é direito constitucional da criança brasileira. Não mais direito da mulher trabalhadora com carteira assinada, como antes de 1988! A partir da promulgação da Constituição Federal, há 27 anos, o Estado passa a ter o dever de garantir a educação infantil às crianças de zero a cinco anos, em creches e pré-escolas. Responsabilidade dos municípios, com a cooperação técnica da União e do Estado. Em nossa constituição cidadã, porque foi construída num processo democrático e participativo, a criança brasileira passou a ser inserida num contexto de cidadania, não mais subalterna, mas guindada para o topo da prioridade absoluta das políticas públicas, sujeita de direitos, com dignidade intrínseca, independentemente de quaisquer circunstâncias.

Uma pergunta se impõe: se é direito da criança brasileira, opção da família e dever do Estado a oferta de vagas nessas instituições de educação, estamos descumprindo o que está determinado na própria Constituição Federal, porque, no Brasil, somente 27% das crianças de zero a 3 anos são atendidas em creches e 77% em pré-escolas. 

O novo Plano Nacional de Educação, aprovado em 2013, contrário ao que diz a Constituição Federal, dá o prazo até 2024, para que a metade das crianças de zero a três anos seja atendida! Isso já demonstra o reconhecimento do próprio Ministério da Educação, do fracasso em não cumprir o que foi determinado em 1988. Para mim, por falta de vontade política, ignorância e relaxamento! No intuito de fazer cumprir a lei, os pais mais informados recorrem à Defensoria Pública em busca da garantia desse direito. Isso deveria ser esclarecido em todas as instâncias da sociedade: igrejas, escolas, universidades, sindicatos, associação de bairros, postos de saúde, maternidade... Não entendo por que a população de menor poder aquisitivo continua ignorando esse direito legal. As instituições sociais estão alheias a esse gravíssimo problema.

 Afinal, a Constituição Federal de um país, que estabelece a forma de governo, proclama os direitos individuais e sociais, e assegura esses direitos num sistema definido, determinado, com clareza e precisão, é ou não para ser cumprida? É ou não um conjunto de leis que regem um país, um governo, um estado. Carta Magna, Lei Suprema, Lei das Leis, Carta Mãe?! 

Se, até agora, não cumprimos essa determinação para as crianças de zero a três anos, quero ver cumprir o que determina a Emenda Constitucional 59, que aumentou a obrigatoriedade do ensino para 13 anos, estabelecendo o prazo de 2016 para que todos os municípios matriculem todas suas crianças entre 4 e 5 anos de idade. Isso é daqui a 7 meses – março do ano que vem! Com o corte de 9 bilhões de verba federal para a Educação, parece impossível que isso também seja cumprido. Pobre de um país em que seu povo não pode acreditar e confiar na própria Carta Magna. O pior é que esse mesmo governo escolhe como seu lema (e se considera) “Pátria Educadora”! Com a palavra, todos os educadores (escolas, sindicatos, universidades), OAB, Ministério Público. Chega de impunidade! Será que as crianças precisarão fazer passeatas?! Vamos pra rua?!

EDITORIAL

O outro lado do agro "próspero"

É a velha mentalidade de pessoa física com fachada de pessoa jurídica. Enquanto o patrimônio cresce, a saúde financeira do negócio nem sempre acompanha

10/03/2026 07h15

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Nesta edição, mostramos que as recuperações judiciais no agronegócio de Mato Grosso do Sul dispararam. O crescimento, de 2023 para cá, é exponencial e acende um alerta que vai além da situação conjuntural do campo.

O aumento acelerado de pedidos de RJ indica que algo não vai bem não apenas na rentabilidade das atividades rurais, mas também na forma como muitos empreendimentos agrícolas têm conduzido sua gestão financeira.

É evidente que fatores de mercado pesam sobre o setor. Oscilações de preços, custos elevados de insumos, juros mais altos e riscos climáticos fazem parte da realidade de quem produz no campo.

No entanto, atribuir apenas ao preço baixo das commodities a enxurrada de recuperações judiciais seria simplificar demais um problema que parece mais estrutural. O que se vê, em muitos casos, é a fragilidade de modelos de gestão que ainda não acompanharam o grau de complexidade e de volume financeiro que hoje envolve o agronegócio.

A comparação com outros setores da economia ajuda a dimensionar essa questão. Indústria e comércio, por exemplo, enfrentam desafios semelhantes de mercado, mas contam com menos facilidades para acessar crédito.

O agronegócio, por sua vez, dispõe de instrumentos robustos de financiamento, que vão desde o Plano Safra e linhas do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) até mecanismos privados cada vez mais sofisticados, como letras de crédito do agronegócio e fundos de investimento nas cadeias produtivas, os chamados Fiagros.

Esse amplo acesso a recursos tem sido um dos pilares do crescimento do setor nas últimas décadas. Porém, ele também impõe responsabilidades. Um aumento expressivo de calotes bancários e de inadimplência em contratos não afeta apenas credores privados.

Parte relevante desses financiamentos conta com subsídios ou mecanismos públicos de apoio. Quando há desequilíbrio generalizado, uma parcela desse custo acaba sendo socializada – direta ou indiretamente – entre os cidadãos que financiam essas políticas por meio de impostos.

Outro ponto que precisa entrar no debate é a forma como muitos empreendimentos rurais ainda estruturam suas finanças.

Tradicionalmente, o agro brasileiro sempre foi muito focado na formação de patrimônio – terra, máquinas, estrutura produtiva. Isso ajudou a consolidar o setor. Mas, em muitos casos, faltou a mesma atenção à preservação de caixa, à capitalização e à gestão profissional do fluxo financeiro.

É, em certa medida, a velha mentalidade de pessoa física com fachada de pessoa jurídica. Enquanto o patrimônio cresce, a saúde financeira do negócio nem sempre acompanha.

Em períodos favoráveis, o modelo funciona. Mas, quando surgem turbulências de mercado, a fragilidade aparece – e o resultado, muitas vezes, é a recuperação judicial.

O agronegócio é um dos pilares da economia brasileira e da sul-mato-grossense. Justamente por isso, precisa avançar também em governança, planejamento e gestão. A profissionalização administrativa é um passo essencial para que o setor continue crescendo com solidez.

Espera-se que o aumento recente de recuperações judiciais sirva como sinal de alerta. Mais do que um fenômeno pontual, ele deve estimular uma reflexão necessária dentro do próprio campo: produzir bem é fundamental, mas gerir bem o negócio é igualmente indispensável. Só assim será possível evitar que a atual onda de RJs se transforme em um problema estrutural para o setor.

ARTIGOS

IA: quem controla os controladores?

Algoritmos determinam o que vemos nas redes sociais, quais notícias chegam até nós, que músicas ouvimos e até mesmo quando alguém solicita um carro por aplicativo

09/03/2026 07h45

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Durante décadas, o conceito de inteligência artificial (IA) foi tratado como ficção e permeava nossa sociedade sob o prisma do imaginário. Hoje, em um salto de 4 anos, ela está silenciosamente incorporada ao cotidiano de toda a humanidade.

Algoritmos determinam o que vemos nas redes sociais, quais notícias chegam até nós, que músicas ouvimos e até mesmo quando alguém solicita um carro por aplicativo; o algoritmo decide com base em probabilidade de aceitação, tempo estimado e histórico de desempenho.

Eles não possuem consciência, mas possuem algo igualmente útil e poderoso: a capacidade analítica de prever o nosso comportamento.

Quando abrimos as redes sociais, não estamos navegando em um espaço neutro, estamos atravessando um filtro algorítmico que prioriza conteúdos com maior probabilidade de manter nossa atenção na tela. O que é apresentado como uma grande vantagem, carrega um efeito social mais complexo do que parece.

O algoritmo aprende nossas preferências, muitas das quais estão relacionadas ao nosso perfil psicológico e biológico. Nesse campo estão as nossas inclinações políticas, nossos problemas de saúde e fragilidades emocionais. Toda essa espiral de informações passa a reforçar padrões.

No mercado global, sistemas de IA já participam de decisões financeiras. Plataformas como a Amazon ajustam preços dinamicamente conforme demanda, localização e perfil de consumo.

Em 2018, no campo político, veio à tona o caso da Cambridge Analytica, que utilizou dados do Facebook para influenciar campanhas políticas, evidenciando como informações coletadas por meio das redes sociais podem ser usadas para segmentar mensagens eleitorais. O dado se tornou insumo de estratégia e micro direcionamento de massas.

Outro exemplo são as chamadas Big Techs, que concentram a capacidade de processamento e armazenamento de dados. Empresas como Meta, Google, Amazon e Microsoft monopolizam a controladoria de serviços essenciais: busca, nuvem, comunicação, armazenamento e publicidade.

A inteligência artificial é absoluta no gerenciamento em larga escala: quanto mais preciso, maior a vantagem competitiva. A discussão atual não é sobre máquinas conscientes dominando o mundo. É sobre sistemas automatizados influenciando decisões humanas globalmente.

E a grande reflexão que fica é: quem faz a regulação desses sistemas? Como proteger a privacidade e a autonomia individual? As leis referentes à IA que já vemos implementadas na União Europeia são suficientes?

O futuro aponta para sistemas cada vez mais integrados à estrutura social e eficientes, porém, invisíveis e difíceis de auditar. A tecnologia seguirá evoluindo e essa vigilância velada se enraizando cada vez mais nos dispositivos do dia a dia.

Vivemos um momento histórico em que a inteligência artificial não é mais hipótese distante e aqueles que detêm os dados, detêm capacidade de influenciar, modelar e definir o comportamento coletivo. A pergunta não é se a IA controla. A pergunta é: quem controla a IA? E, sobretudo, quem controla os controladores?

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