Artigos e Opinião

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Às portas do Judiciário: o tempo da vida e o tempo da Justiça

Por: Rodrigo Augusto Prando - Professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)

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Começou na terça-feira, dia 2 de setembro, na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), o julgamento do Núcleo 1, identificado, na denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), como o núcleo de comando que é formado pelos principais responsáveis pela articulação política e militar da tentativa de golpe.

O famigerado grupo conta com as figuras de Jair Bolsonaro, Alexandre Ramagem, Almir Garnier Santos, Anderson Torres, Augusto Heleno Ribeiro Pereira, Mauro Cid, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto. Dado o peso desses indivíduos e suas posições institucionais no governo anterior, o julgamento é apontado – conjugando adjetivações e frases de efeito – o “julgamento do século”, “julgamento histórico”, “inexorável encontro com a Justiça”, “[a] defesa da democracia contra os golpistas”, “o julgamento mais importante da história do STF”, entre tantas outras nomeações.

Sabidamente, há, no caso em tela, aspectos fundamentais no campo Jurídico, político, sociológico e até pedagógico. Há, inclusive, por não se tratar de ciência exata, teses e teorias para os variados gostos presentes na natureza humana.

Politicamente – não ouso tratar do Direito –, Bolsonaro chega derrotado ao julgamento e não apenas pelos crimes que lhe são imputados: associação criminosa armada, golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, deterioração de patrimônio tombado, e dano qualificado com uso de violência e grave ameaça. A derrocada de Bolsonaro começa bem antes, já em sua derrota para Lula em 2022, na sua inelegibilidade, nos vários processos em que é investigado, indiciado e réu, e, mesmo agora, durante o julgamento no STF, em que é apontado com seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, por coação no curso do processo, ou, em outras palavras, como um operador que tenta constranger os juízes e, ainda, conspira contra seu País, por meio de tarifaço e sanções a ministros do STF e do governo Lula.

Politicamente e sociologicamente, verificaremos se nossas instituições, bem como se nossa sociedade e a democracia terão resiliência e passarão por mais esse teste.

A sociedade continua dividida, polarizada ou calcificada, como apontam estudiosos. Na recente pesquisa Genial/Quaest, 55% dos brasileiros consideram a prisão domiciliar de Bolsonaro justa e 39% apontam que ela é injusta; já acerca do plano de golpe, 52% afirmam que Bolsonaro participou da orquestração e 36% acreditam que ele não sabia ou não participou.

O universo político não permite vácuo de poder e os movimentos, seja no Centrão ou de aliados próximos de Bolsonaro, já indicam, de forma clara e evidente, que, ao menos no curto e médio prazo, o ex-presidente não retoma o poder conquistado.

O julgamento acontece em um ambiente saturado, nas redes sociais, de fake news, pós-verdades, negacionismos e teorias da conspiração no plano interno; do exterior, há a força dos EUA e do trumpismo, constrangendo e atacando a soberania brasileira. E, não menos importante, é o uso político que tanto Lula quanto os aliados do clã Bolsonaro usam na confecção de suas narrativas, que são desfavoráveis ao bolsonarismo.

Pedagogicamente, enfim, há que se ter de forma límpida qual o ensinamento isso tudo nos trará, individual e coletivamente. Democracia tem, em seu bojo, alternância de poder, uns ganham e outros são derrotados; subsiste, na disputa, adversários e não inimigos; respeitar as regras do jogo democrático é pressuposto para a sobrevivência da vida social e do Estado Democrático de Direito.
Esse é, por certo, um julgamento histórico e, mais que isso, necessário, sejam os réus inocentados ou culpados. Tudo dentro da lei e dos princípios republicanos.

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É preciso devolver tempo à leitura

Entre 35 países da organização com resultados comparáveis, a média de leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) caiu 25 pontos entre 2018 e 2025: de 486 para 461 pontos

08/10/2026 08h15

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Nunca tivemos tanto acesso a textos e informações. Ainda assim, os resultados de proficiência em leitura vêm piorando consistentemente.

Os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) são um alerta. Entre 35 países da organização com resultados comparáveis, a média de leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) caiu 25 pontos entre 2018 e 2025: de 486 para 461 pontos.

No Brasil, o desempenho ficou praticamente estável em relação a 2022 e próximo do patamar observado desde 2015. Mas estabilidade está longe de ser motivo para conforto: em 2025, os estudantes brasileiros alcançaram 408 pontos, 53 abaixo da média da OCDE.

Nossa mente tende a buscar explicações simples. O problema seriam as telas? A pandemia? A escola? A família? A inteligência artificial? Provavelmente há vários fenômenos sobrepostos. Identificar causas plausíveis é importante, mas isso, por si só, não resolve o problema.

Há uma pergunta mais incômoda: quanto tempo estamos reservando para que crianças e jovens leiam? E nós mesmos, adultos?

Não tempo para estudar para uma prova, ler o livro obrigatório do bimestre ou produzir um resumo. Tempo para curtir uma boa história, descobrir um autor, escolher o que ler. Formar um leitor exige prática. E prática exige tempo.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, ajuda a dimensionar a questão. Dos entrevistados, 53% não haviam lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores. Entre os leitores que gostariam de ter lido mais, 46% citaram a falta de tempo.

Esses dados não permitem concluir que a falta de tempo explique, isoladamente, a baixa leitura no Brasil. Mostram, porém, que tempo não é uma questão abstrata.

Devemos discutir também a relação da escola com os livros. Frequentemente, lê-se para responder, resumir ou ser avaliado. Tudo isso tem importância pedagógica. Mas, se toda leitura termina em uma tarefa, o livro corre o risco de virar apenas obrigação.

Nos colégios do Grupo Positivo, reservamos 20 minutos diários para leitura por prazer no Ensino Fundamental. O estudante tem tempo, estímulo e liberdade para escolher: pode começar por quadrinhos, descobrir um autor, interessar-se por um romance ou abandonar um livro que não o conquistou.

Não partimos da premissa de que 20 minutos produzirão, isoladamente, melhora nos indicadores acadêmicos. Esse efeito precisa ser medido. A ideia é simples: é inviável criar o hábito de fazer algo para o qual nunca reservamos tempo.

Esse trabalho também passa pela família. Pais e mães não precisam transformar a casa em sala de aula. Podem tornar a leitura visível. Ver os adultos lendo e ouvir conversas sobre livros mostra à criança que ler faz parte da vida. A responsabilidade não é apenas das famílias; escolas e bibliotecas continuam fundamentais.

Ler um texto longo também exige atenção: acompanhar um argumento, recuperar algo lido páginas atrás e continuar mesmo quando compreender exige esforço. Ler um livro é também aprender a não trocar de assunto a cada poucos segundos.

A inteligência artificial reforça essa necessidade. Quanto mais fácil se torna produzir respostas, mais importante é avaliá-las criticamente, comparar fontes e distinguir uma resposta convincente de uma informação confiável.

Vinte minutos não resolverão a queda da proficiência leitora. Não é essa a proposta. Antes de exigir que uma criança ou jovem leia melhor, precisamos garantir condições para que ela se torne leitora: livros ao alcance das mãos, estímulo para ler, alguma liberdade de escolha, adultos que tornem a leitura visível e tempo para abri-los.

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Como a história de um homem comum transformou a moda no Brasil

A trajetória do alfaiate Vittorio Ficara ilustra essa determinação. Italiano nascido no Egito, ele atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil, estabelecendo-se no Rio de Janeiro

08/10/2026 07h20

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Progredir em uma profissão exige foco, empenho e conhecimento. No entanto, não é preciso ser famoso para conquistar reconhecimento. Quando exercido com propósito e dedicação, o trabalho vai além da geração de renda e torna-se uma ferramenta essencial para transformar realidades.

A trajetória do alfaiate Vittorio Ficara ilustra essa determinação. Italiano nascido no Egito, ele atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. É a história de um homem comum que revela como essa profissão pode contribuir para a construção de uma vida digna e para a definição de um lugar na sociedade. É uma história de vida, marcada por guerra, imigração, reconstrução e amor.

Sua caminhada teve como força principal a persistência, aliada à capacidade de enfrentar e superar situações das mais adversas, com uma habilidade laboral e inventiva extraordinária, movida por seu espírito otimista e resiliente, que o levou a enfrentar situações adversas e transformou dificuldades em possibilidade de recomeço.

Alfaiate exclusivamente masculino, Vittorio chegou ao Brasil sem referências, construiu sua trajetória até ingressar na então renomada Casa Canadá de Luxe, um estabelecimento de moda feminina, que ele ainda não conhecia.

Seu preparo técnico, aprendido e praticado no Egito, foi decisivo para esta conquista e lhe permitiu não só ingressar no estabelecimento, onde atuou na modelagem feminina, como também compartilhou seu conhecimento com a equipe, formando novos profissionais.

Com certeza, seu perfeccionismo e sua dedicação contribuíram para o desenvolvimento técnico e profissional da costura.

A trajetória de Vittorio não é apenas uma narrativa. Vai além de uma história pessoal. Ela preserva um legado, marcado por passagens históricas, sociais e emocionais do século 20, que transformam a sua caminhada em testemunho e memória a serem transmitidos.

Mas, principalmente, a sua experiência mostra a importância da profissão no Brasil e deixa uma mensagem para quem enfrenta períodos de incertezas: é preciso continuar em frente, mesmo diante das dificuldades.

Como ele dizia: “Um dos segredos para sobreviver é ter a habilidade de continuar e não de se sentir um náufrago. Sempre há uma saída”.

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