Artigos e Opinião

EDITORIAL

Bolsa Família e o jogo eleitoral

Mais do que reajustes periódicos, é necessário pensar em mecanismos de "porta de saída", capazes de oferecer às famílias beneficiárias oportunidades reais de autonomia econômica

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O Bolsa Família voltou ao centro das discussões nacionais com o reajuste de 15,04% decretado pelo governo federal. A medida, apresentada como reposição inflacionária com base no INPC acumulado, terá impacto direto nas contas públicas e no cotidiano das famílias beneficiárias.

Em Mato Grosso do Sul, o acréscimo representa R$ 20 milhões a mais por mês no orçamento federal destinado ao programa, o que significa, em média, R$ 100 adicionais para cada família atendida.

No plano macroeconômico, trata-se de um gasto extra de R$ 22 bilhões para a União; no microeconômico, mais dinheiro circulando no comércio local e reforçando o consumo das famílias de baixa renda.

O momento da decisão, contudo, não pode ser ignorado. O reajuste foi anunciado a poucos dias das eleições, em um cenário no qual a maioria dos beneficiários se identifica com o atual governo.

É legítimo reconhecer que a medida tem caráter eleitoreiro, ainda que se apoie em fundamentos técnicos como a reposição inflacionária.

O dilema se impõe aos adversários: criticar o aumento pode ser interpretado como ataque direto às famílias mais vulneráveis, o que, paradoxalmente, reforçaria a posição do presidente incumbente.

Essa estratégia, ainda que questionável, coloca opositores em uma encruzilhada política, pois qualquer contestação pode ser explorada como insensibilidade social.

Esse jogo político, que mistura políticas sociais com estratégias eleitorais, precisa ser condenado. Programas de transferência de renda são instrumentos fundamentais de combate à pobreza e à desigualdade, mas não podem ser usados como moeda de troca em disputas eleitorais.

O Bolsa Família, ao longo de sua trajetória, consolidou-se como política pública de Estado, e não de governo. É justamente por isso que sua gestão deve ser blindada contra manipulações de ocasião.

A credibilidade do programa depende de sua capacidade de se manter como instrumento de proteção social, e não como ferramenta de marketing político.

É preciso lembrar que a confiança da população em políticas sociais está diretamente ligada à percepção de que elas são universais, contínuas e livres de interesses eleitorais imediatos. 

A reflexão que se impõe é sobre o futuro do programa. Mais do que reajustes periódicos, é necessário pensar em mecanismos de “porta de saída”, capazes de oferecer às famílias beneficiárias oportunidades reais de autonomia econômica.

O Bolsa Família cumpre papel essencial ao garantir renda mínima, mas não pode se tornar uma dependência permanente. O desafio é transformar o benefício em trampolim para inclusão produtiva, educação e geração de emprego.

Só assim o programa deixará de ser refém de agendas eleitorais e se consolidará como política de emancipação social.

O país precisa avançar para que o Bolsa Família seja lembrado não apenas como um alívio imediato, mas como um caminho para a construção de uma sociedade mais justa e independente. A política pública deve ser vista como investimento em cidadania e dignidade, e não como ferramenta de conveniência política.

editorial

A memória que constrói o futuro

Uma sociedade que desconhece sua história corre o risco de repetir erros, desprezar conquistas e perder referências fundamentais para suas escolhas

02/11/2026 07h15

Capa editorial correio do estado

Capa editorial correio do estado

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O Dia de Finados é uma oportunidade de lembrar e homenagear aqueles que fizeram parte de nossa vida e que já não estão entre nós. É uma data para resgatar boas lembranças, reviver momentos compartilhados com familiares e amigos e reconhecer a importância de quem deixou marcas em nossa trajetória. A saudade, naturalmente, faz parte desse encontro com o passado, mas também nos permite compreender melhor quem somos.

Essa reflexão, porém, não precisa se limitar à memória individual. Como sociedade, também temos a responsabilidade de resgatar nossa ancestralidade, reconhecer de onde viemos e compreender o caminho percorrido pelas gerações que nos antecederam. O passado não é apenas um conjunto de acontecimentos encerrados, é parte da identidade que construímos no presente e uma referência importante para projetar o futuro.

Por isso, o Dia de Finados também pode ser um convite para conhecer melhor o legado de nossos antepassados. Cada família carrega histórias, valores, dificuldades e conquistas que ajudam a explicar sua trajetória. Da mesma forma, cada povo tem uma história que não deve ser esquecida, porque nela estão as raízes de sua cultura, de suas instituições e de sua própria organização social.

Celebrar a memória dos que partiram é, portanto, também celebrar nossa história como seres humanos, no plano individual, e como comunidade, no plano coletivo. É reconhecer que ninguém constrói sua trajetória sozinho. Somos resultado de experiências, ensinamentos e escolhas de pessoas que vieram antes de nós e que, muitas vezes, abriram caminhos para que as gerações seguintes pudessem avançar.

Em tempos de informação instantânea, conexão permanente e engajamento constante, parece cada vez mais necessário reservar espaço para a reflexão. A velocidade com que consumimos notícias e conteúdos não deve nos afastar da compreensão de nossa própria história. Conhecer o passado exige tempo, pesquisa e disposição para ouvir relatos, preservar documentos, visitar lugares de memória e valorizar o patrimônio cultural.

Uma sociedade que desconhece sua história corre o risco de repetir erros, desprezar conquistas e perder referências fundamentais para suas escolhas. Não se trata de viver preso ao passado ou de idealizar as gerações anteriores, mas de compreender suas experiências, reconhecer seus acertos e aprender também com suas falhas.

O futuro não nasce do vazio, ele é construído a partir das decisões que tomamos hoje, mas também da consciência sobre tudo o que nos trouxe até aqui. Neste Dia de Finados, que a lembrança de nossos familiares e amigos seja acompanhada por uma reflexão mais ampla sobre nossas origens e nossa história. Preservar a memória é uma forma de honrar quem veio antes e, sobretudo, de preparar um futuro melhor para quem ainda virá.

ARTIGOS

O espelho do infinito

Entre as suas premissas, a hipótese dos múltiplos universos destaca-se ao confrontar a humanidade com o peso de suas escolhas

31/10/2026 07h40

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A ficção científica utiliza cenários futuristas e conceitos complexos para investigar o comportamento humano. Entre as suas premissas, a hipótese dos múltiplos universos destaca-se ao confrontar a humanidade com o peso de suas escolhas.

Ao sugerir que cada decisão gera uma nova vertente de existência, levanta-se o questionamento sobre a singularidade da experiência cotidiana, indicando que a realidade tangível pode ser uma grande ilusão ou apenas uma nova etapa na evolução da consciência.

Diante da vastidão do cosmos, surge a angústia quanto ao impacto das ações individuais. Se todas as opções já se concretizaram em dimensões paralelas, o livre-arbítrio e o valor de uma única vida correm o risco de parecer insignificantes.

O cinema e a literatura retratam esse dilema: em “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”, o multiverso ilustra o esgotamento diante das infinitas rotas não tomadas, enquanto no livro “A Biblioteca da Meia-Noite”, de Matt Haig, cada volume representa uma vida resultante de escolhas alternativas.

No entanto, é sob esse prisma que a ficção científica reafirma o propósito da existência. A narrativa especulativa demonstra que a estrutura do universo não se sustenta apenas por leis físicas ou cálculos matemáticos, mas pela capacidade de estabelecer conexões profundas e ao mesmo tempo significativas.

Nesse cenário de possibilidades ilimitadas, a fé, o amor e a amizade emergem como forças de coesão.

O amor atua como uma constante gravitacional que transcende limites dimensionais e temporais. A amizade funciona como uma âncora para a identidade, garantindo que o indivíduo reconheça a si mesmo e ao outro, independentemente da realidade em que se encontre.

A fé, por sua vez, converte a dúvida diante do desconhecido em uma escolha consciente dando sentido à jornada. Em “Interstelar”, de Christopher Nolan, o amor atravessa dimensões para salvar a humanidade, enquanto em “Matrix”, a superação da ilusão depende da fé no propósito individual e na confiança mútua.

Portanto, a ficção científica revela que a busca humana pelo significado do cosmos não deve focar no domínio sobre outras dimensões, mas no fortalecimento dos laços interpessoais. Reconhecer a brevidade da realidade é um convite para valorizar o presente e as decisões diárias.

Cabe à sociedade compreender que, em meio a um universo infinito, o verdadeiro ato de coragem consiste em nutrir afeto, lealdade e esperança, transformando o cotidiano no único refúgio genuíno da experiência humana.

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