Artigos e Opinião

EDITORIAL

Eficiência pública também é fiscalizar

Fiscalização também é eficiência. Saber o quanto foi gasto é importante, mas saber se o gasto foi adequado e se trouxe benefício à população é ainda mais importante

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Nos últimos anos, muito se tem falado em eficiência na administração pública. O tema se tornou recorrente em congressos, conferências e eventos voltados à gestão. Em muitos desses espaços, falar em eficiência tornou-se praticamente sinônimo de falar em boa gestão.

E, de fato, uma administração pública eficiente é indispensável. O recurso arrecadado da sociedade precisa ser bem aplicado e produzir resultados concretos.

Esse é um jargão que já conhecemos. O que nem sempre recebe a mesma atenção, porém, é a relação entre eficiência, controle e integridade. Não basta executar o orçamento, inaugurar obras, comprar equipamentos ou anunciar investimentos.

É necessário verificar se os recursos foram aplicados corretamente, se os preços são compatíveis com o mercado, se os produtos foram efetivamente entregues e se as despesas produziram o resultado esperado.

Por isso, mecanismos de controle são fundamentais para a eficiência da administração. Nesta edição, o Correio do Estado mostra detalhes da auditoria realizada pela Controladoria-Geral da União (CGU) sobre a aplicação de emendas parlamentares em Mato Grosso do Sul.

O trabalho, realizado por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), encontrou, entre outras irregularidades, superfaturamento na compra de materiais destinados à Educação.

Os achados da fiscalização mostram por que o controle não pode ser tratado como uma etapa burocrática ou como um obstáculo à gestão.

Quando uma auditoria identifica preços acima dos valores de mercado, pagamentos por produtos não entregues ou equipamentos que permanecem sem utilização, ela não está apenas apontando uma irregularidade. Está revelando que o dinheiro público não produziu o resultado que poderia e deveria produzir.

É justamente por isso que fiscalização também é eficiência. Saber o quanto foi gasto é importante, mas saber se o gasto foi adequado e se trouxe benefício à população é ainda mais importante.

Uma administração pode executar integralmente determinado orçamento e, ainda assim, ser ineficiente se comprar mais caro do que deveria, se adquirir produtos desnecessários ou se deixar equipamentos sem uso.

O controle também contribui para corrigir procedimentos e evitar que erros se repitam. Quanto maior a transparência sobre licitações, contratos, fornecedores e resultados, maior a possibilidade de acompanhamento pelos órgãos fiscalizadores e pela sociedade.

Não se trata, portanto, de escolher entre gestão e fiscalização. Uma boa gestão precisa das duas.

O discurso sobre eficiência pública só estará completo quando vier acompanhado de integridade, transparência e controle. O dinheiro público não pertence ao governante, ao gestor ou ao órgão que o administra. É dinheiro da sociedade.

Por isso, cada despesa precisa ser planejada, justificada, fiscalizada e, sobretudo, ser capaz de entregar o resultado esperado.

Mais do que impedir desperdícios, fiscalizar é garantir que os recursos disponíveis sejam utilizados da melhor maneira possível.

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Dia de Finados: o que o amor nos ensina a seguir

Para algumas pessoas, a data traz lembranças tranquilas, acompanhadas de gratidão, para outras, reacende uma dor que parece não diminuir com o passar dos anos

02/11/2026 07h30

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O Dia de Finados nos convida a olhar para a ausência daqueles que amamos. Para algumas pessoas, a data traz lembranças tranquilas, acompanhadas de gratidão, para outras, reacende uma dor que parece não diminuir com o passar dos anos. Aprendi, ao longo da vida, que não existe uma maneira certa de sentir saudade. Cada perda tem seu tempo, sua história e suas marcas.

Eu tinha 11 anos quando perdi meu pai, Tomaz Edison de Andrade Vieira, em um acidente aéreo que também levou meu tio e meus primos. Em julho de 1981, minha infância mudou de forma abrupta. Diante de um caixão fechado, encontrei refúgio na esperança infantil de que meu pai voltaria. Durante muito tempo, foi difícil aceitar que alguém tão importante pudesse simplesmente deixar de estar presente. Eu não pude me despedir dele. Até hoje, se pudesse abraçá-lo, diria apenas: pai, eu te amo.

A vida, porém, não interrompe seu curso quando perdemos alguém. Precisamos continuar, mesmo sem compreender o que aconteceu. Naquela época, eu ainda não sabia que atravessar a dor seria parte do meu amadurecimento. Tampouco imaginava quantas outras mudanças me esperavam.

Anos depois, perdi minha mãe, dona Didi, que havia assumido sozinha a criação dos quatro filhos após a morte do meu pai. Sua força, sua fé e sua capacidade de manter nossa família unida foram referências fundamentais na minha formação. Quando ela partiu, durante a pandemia de Covid-19, não tive uma última conversa ou uma despedida como talvez desejasse.

Ainda assim, não carrego ressentimento por esse adeus que não aconteceu. Prefiro olhar para tudo o que vivemos. Como escrevi em meu livro “Enquanto Houver um Próximo Passo – Uma História de Fé, Família e Recomeços”: “Eu não tenho uma despedida, eu tenho uma vida inteira com ela”. Essa compreensão mudou a maneira como enxergo a perda. O momento final não resume uma relação. O que construímos ao longo dos anos continua fazendo parte de quem somos.

Também aprendi que o luto não se limita à morte. Ao longo da minha trajetória, enfrentei o fim de ciclos profissionais, a perda do controle familiar sobre o Banco Bamerindus e mudanças que abalaram estruturas nas quais eu acreditava. São experiências diferentes, mas que nos colocam diante de uma pergunta semelhante: quem somos quando aquilo que parecia permanente deixa de existir?

Não tenho respostas prontas para essa questão. Sei, entretanto, que a dor não precisa ser o único destino de uma lembrança. Com o tempo, podemos encontrar espaço para reconhecer o que recebemos, os valores que herdamos e as marcas que desejamos deixar nas pessoas que continuam ao nosso lado. Foi por isso que escrevi meu livro como uma carta para minha esposa e minhas três filhas: para que a minha história também seja uma presença quando eu não estiver. 

Gosto de pensar na memória como um jardim. Não basta guardar fotografias, datas e histórias, é preciso cuidar daquilo que permanece vivo dentro de nós. Às vezes, essa presença aparece em uma receita de família, no cheiro de um pão que aprendi a fazer com paciência, em uma conversa à mesa ou em um gesto de generosidade que aprendemos com alguém que já partiu.

Neste 2 de novembro, não quero dizer a ninguém como deve viver sua saudade. Se a dor ainda estiver presente, não há motivo para apressar sua passagem. Se as lembranças trouxerem sorrisos, não precisamos nos sentir culpados por isso. O amor comporta lágrimas e alegria, silêncio e gratidão.

Afinal, enquanto houver amor nas lembranças, fé no caminho e coragem para dar o próximo passo, a ausência nunca contará a história inteira.

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Ciência e religião são incompatíveis?

Tratar ciência e religião como personagens rasos é ignorar a complexidade e a pluralidade de cada uma

02/11/2026 07h25

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Você já deve ter tido um professor de biologia que tratava crenças religiosas como bobagem ou um de sociologia que dizia que a religião é o ópio do povo. Talvez já tenha conhecido um ateu que acredita que a fé é inimiga da razão ou um religioso que nega consensos científicos como a evolução ou a eficácia das vacinas. Exemplos assim podem levar à conclusão de que ciência e religião são incompatíveis, que é preciso escolher uma ou outra. Mas será que isso é verdade?

Esse dilema nasce de uma premissa falsa: não existe “a ciência” nem “a religião”. Ao longo da história, foram inúmeras as formas de ciência praticadas pelos diferentes povos nas diferentes eras. Mesmo hoje, a ciência se subdivide em áreas com métodos muito distintos. O mesmo vale para as religiões, que são diversas entre si e têm também suas ramificações.

Tratar ciência e religião como personagens rasos é ignorar a complexidade e a pluralidade de cada uma. E foi desse reducionismo que nasceu a tese do conflito, formulada no fim do século 19 por John Draper e Andrew White. Para eles, episódios como a condenação de Galileu e a morte de Giordano Bruno na fogueira eram provas de que a religião sempre foi um empecilho ao avanço da ciência e, portanto, que a oposição entre elas era permanente e inevitável.

Nas últimas décadas, porém, historiadores da ciência como Ronald Numbers têm mostrado que essa tese é repleta de anacronismos e erros de interpretação. Muitos desses embates eram pontuais, movidos por disputas políticas ou pessoais, e não por uma guerra generalizada entre ciência e religião. A Igreja Católica não foi um empecilho à ciência, mas sim uma das maiores financiadoras da astronomia durante séculos.

Max Planck, um dos fundadores da física quântica, afirmava não ver contradição entre religião e ciência, pelo contrário, via as duas como complementares. Para ele, a maior prova disso era que grandes naturalistas como Kepler, Newton e Leibniz eram profundamente religiosos. Mais do que isso, para muitos cientistas a fé foi um elemento motivador de seus trabalhos, pois enxergavam na ciência uma forma de conhecer a obra de Deus.

A falácia do conflito desmorona quando compreendemos que a ciência não é formada só por ateus puramente racionais, nem as religiões por literalistas bíblicos que creem que a Terra tem 6 mil anos. São muitos os religiosos e as escolas teológicas que aceitam, simultaneamente, a evolução e um criacionismo não literal.

Portanto, insistir na incompatibilidade é equivocado e pode custar caro, porque ergue barreiras artificiais que talvez nunca mais se desfaçam. Um jovem religioso que é levado a escolher entre uma e outra pode desistir da ciência para não abandonar sua fé. Mas você não precisa escolher: a história e os incontáveis cientistas religiosos nos mostram que fé e razão são, sim, compatíveis e podem até mesmo se somar.

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