Artigos e Opinião

ARTIGOS

Câmbio valorizado, indústria pressionada

Quando esses fluxos chegam a economias com mercados financeiros relativamente menores, como a brasileira, os efeitos sobre o câmbio tendem a ser amplificados

Continue lendo...

O Brasil volta a conviver em um ciclo de apreciação cambial. Em pouco mais de um ano, o real saiu de patamares superiores a R$ 6,00 por dólar, no fim de 2024, para níveis próximos a R$ 5,20. Há, inclusive, análises econométricas que sugerem que o valor “de equilíbrio” da moeda brasileira estaria mais próximo de R$ 4,50 do que da cotação atual.

Esse movimento não é isolado nem exclusivamente doméstico. Reflete mudanças profundas no cenário político e econômico internacional, com realocação de portfólios financeiros em busca de diversificação e retorno.

Quando esses fluxos chegam a economias com mercados financeiros relativamente menores, como a brasileira, os efeitos sobre o câmbio tendem a ser amplificados.

Do ponto de vista macroeconômico, um real mais valorizado proporciona benefícios evidentes a curto prazo, especialmente no controle da inflação e na moderação dos preços de bens importados.

O problema surge quando esse movimento ocorre em um país que ainda carrega elevados desequilíbrios estruturais e cuja produção manufatureira permanece exposta a um conjunto severo de custos sistêmicos.

A indústria brasileira e, de maneira ainda mais sensível, a têxtil e de confecção, encontra-se entre os setores mais vulneráveis a uma valorização cambial não acompanhada de ganhos consistentes de produtividade.

Diferentemente de economias concorrentes, o Brasil combina uma carga tributária elevada e cumulativa, longos períodos de juros altos, custos logísticos e energéticos superiores à média internacional e um ambiente regulatório complexo e pouco previsível.

Somam-se a esses fatores propostas que tendem a elevar ainda mais o custo da produção, como a redução de jornadas e turnos de trabalho, sem contrapartidas claras em eficiência.

Esse quadro agrava-se quando observamos o cenário internacional. A China, maior exportadora mundial de bens manufaturados, não tem experimentado um processo equivalente de apreciação cambial.

Ao contrário, mantém sua competitividade reforçada por políticas industriais agressivas, subsídios, incentivos financeiros e uma capacidade produtiva excedente que vem sendo direcionada a mercados de todo o mundo.

O resultado é uma pressão adicional sobre indústrias locais em países que, como o Brasil, já enfrentam dificuldades estruturais.

Nosso país já viveu esse filme em passado não tão distante, com efeitos particularmente perversos no setor têxtil e de confecção: perda de competitividade, fechamento de fábricas, desestruturação de cadeias produtivas e migração de investimentos.

Hoje, começam a se repetir sinais preocupantes, como o movimento de empresas brasileiras do setor se instalando no Paraguai para atender, de modo prioritário, o mercado brasileiro. Não vão para lá por vantagens extraordinárias do país vizinho, mas pela busca de condições mínimas de competitividade que deixaram de encontrar no Brasil.

Iniciativas como a Nova Indústria Brasil (NIB), que contam com o apoio do setor produtivo, são importantes e caminham na direção correta ao reconhecerem a relevância do setor para o desenvolvimento econômico, tecnológico e social.

No entanto, políticas públicas não operam no vácuo. Quando fatores macroeconômicos como câmbio excessivamente valorizado, juros elevados e custos sistêmicos persistentes atuam de maneira contrária, a capacidade de reação das empresas fica severamente limitada.

O risco é claro: uma apreciação cambial prolongada, sem avanços rápidos e concretos na agenda de produtividade e na redução do “Custo Brasil”, aumenta a vulnerabilidade da indústria nacional justamente em um momento de rearranjo das cadeias globais de produção e comércio.

É uma conjuntura na qual muitos países estão reforçando suas bases industriais e não as enfraquecendo.

Fortalecer e reindustrializar o Brasil exige coerência entre as políticas macroeconômica e industrial e o ambiente de negócios. Um câmbio valorizado pode ser parte desse equilíbrio, mas jamais o seu eixo central.

Sem enfrentar os entraves estruturais que penalizam quem produz, continuaremos estimulando, ainda que involuntariamente, a substituição da produção nacional por importações e a saída de investimentos produtivos. E esse é um custo que nossa economia não pode mais se permitir.

Editorial

Quando a ganância ameaça um paraíso

Saúde, natureza e o Estado não podem sucumbir à ganância empresarial de uma empresa que polui o Pantanal com licença provisória de órgão ambiental

13/10/2026 07h10

Continue Lendo...

Mato Grosso do Sul construiu sua imagem nacional e internacional sob a promessa de um desenvolvimento sustentável, que harmoniza a força de seu polo industrial com a preservação de seus biomas.

Contudo, denúncias recentes em Aquidauana, mais precisamente contra a empresa Simasul, colocam essa narrativa à prova e acendem um grave alerta: até que ponto o crescimento econômico está sendo colocado acima da saúde pública, do bioma e do cumprimento das leis?

A representação protocolada contra a Simasul Siderurgia aponta irregularidades graves: a operação simultânea de dois altos-fornos sem a devida licença, produção de ferro-gusa acima dos limites autorizados e a ausência de monitoramento de emissões atmosféricas por mais de dois anos.

Para quem vive no entorno da fábrica, o problema não é só pó preto sobre as casas, ruído constante e receio quanto aos impactos da fuligem na saúde.

Diante disso, desenha-se um dilema inaceitável. Se o atropelo das normas ambientais visa acelerar a produção e maximizar lucros, estamos diante da ganância corporativa.

Se a permanência dessas falhas decorre da lentidão ou da conivência dos órgãos de controle em estancar os desvios, o diagnóstico é de incompetência institucional.

A resposta exige rigor em toda a cadeia de responsabilidades. A cobrança primária recai sobre o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), que não pode somente limitar sua atuação à concessão de licença prévia, vistorias burocráticas e laudos intermináveis – aí é onde a fiscalização precisa ser ágil e punitiva, em se confirmando as irregularidades.

No campo da engenharia, cabe ao Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul (Crea-MS) fiscalizar a conduta dos responsáveis técnicos e garantir o cumprimento estrito das Anotações de Responsabilidade Técnica (ART).

Neste espaço, não estamos aqui para condenar A ou B, mas simplesmente alertar o órgão (Imasul) e sua diretoria a fazer uma varredura no processo de concessão da licença e buscar o motivo de uma empresa desse porte trabalhar com tanta desenvoltura.

O fechar de olhos das instituições é o mesmo que ser conivente com o problema, e aí cabe recorrer ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul e exigir soluções.

A responsabilidade se estende também ao mercado comprador, em que existe uma sigla em voga que é o ESG – Environmental, Social and Governance (em português: Ambiental, Social e Governança).

As indústrias e as fundições que compram os materiais produzidos sob suspeita de irregularidade ambiental precisam assumir seu papel na governança e na rastreabilidade e, confirmando-se essa situação, suspender a compra dos produtos dessa empresa imediatamente.

Ao Imasul, cabe cassar a licença provisória que está virando fixa e lacrar os fornos e ao Crea-MS, suspender a carteira profissional dos profissionais envolvidos.

ARTIGO

Segunda época

12/10/2026 08h15

Arquivo

Continue Lendo...

Precisamente no século passado, quando ainda no colégio, eu era craque em desenho geométrico, embora “perna de pau” em matemática. Vivia um ano escolar de satisfação, pois a grade escolar considerava como média final de uma única matéria a soma das duas notas daquele saber acadêmico.

Até então eram essas as regras pedagógicas que foram alteradas no fim do ano e que para minha surpresa após os exames, passaria com elogio em desenho e seria reprovado com louvor em matemática. De nada adiantou o “jus sperneandi”, meu protesto, pois a decisão desfavorável transformaria a minha garantia em um infortúnio.

A parte mais difícil era revelar aos olhos do meu pai a ocorrência, a decepção, o súbito e justificar a frustração do resultado daquele fracasso retumbante e ouvir sobre o fato pesaroso, primeiro aquela preleção e a seguir a repreensão provável.

Pois bem, o que ouvi? – A segunda época foi feita para o aluno (palavras da salvação). Sabe o que significava? 

Significava uma segunda chance e ali já estaria posto tanto o rol das obrigações e das perspectivas negativas: o fim das férias, ter de estudar, fazer o dever de casa que não tinha feito, a possibilidade de mudar de escola e companheiros pelo fato de ficar atrasado, o valor das mensalidades dobradas que pesariam no orçamento, ouvir durante um ano a mesma “inana”, e o pior, a desconfiança sobre as expectativas que tinham sido colocadas sobre meus ombros, como a oportunidade de mostrar a habilidade de aceitar e driblar as vicissitudes da vida juvenil. 

Tudo se acertou, e felizmente compreendi que na vida não existe certeza, pois a incerteza nos ronda e não podemos adivinhar o futuro, embora devamos ter a capacidade de adaptação ao desafio e gerenciar a rotina diária.

Metaforicamente trazendo essa lembrança para o contexto das eleições e o resultado atual, posso dizer que o segundo turno nas eleições nada mais é que uma segunda época. 

Uma chance para corrigir as falhas de planejamento separando-as dos fatores externos, avaliar friamente que se sucedeu, o que foi errado, fazer autocritica sem apegar-se ao resultado negativo, e considerar que a reprovação não é um ponto final e sim uma oportunidade de rebater o fracasso a partir de uma nova perspectiva e atitude desenhando a estratégia a ser assumida.

Mudar a abordagem, tentar com ferramentas mais afiadas, evitar inteligentemente a persistência na teimosia cega é o combustível que move os realizadores diante dos obstáculos, pois o triunfo não pertence a quem não cai, mas a quem domina a arte de se levantar mais forte depois do tombo.

Analistas políticos afirmam que parcelas da população canalizaram falsamente suas frustrações socioeconômicas contra o sistema político estabelecido, e que supostamente falhou em entregar estabilidade e o crescimento sustentável, uma narrativa desleal, incluindo mentiras sobre a precarização dos serviços públicos e de salários irreais.

Com discursos xenofóbicos, negacionistas e fascistas sempre relacionados na tríade, ordem, pátria e segurança os movimentos da direita ganham força sub-repticiamente. E assim alimentam o medo sobre o descontentamento dos bens materiais e os valores tradicionais consolidando sua principal força de contestação e poder.

Para enfrentar e passar no segundo turno, e conquistar indecisos, os progressistas devem se travestir das mesmas ideias propostas pelos seus adversários políticos, como concentrar sua comunicação digital em um número reduzido de temas e produzir conteúdo adaptado para esses formatos dinâmicos, saindo das bolhas tradicionais de mídia escrita acadêmica e serem repetidos e diretos para a fixação das narrativas.

Importante é substituir termos técnicos por uma linguagem simples e universal pautando as decisões governamentais que afetam diretamente a renda e o bem-estar familiar e ter em mente que o radicalismo costuma afastar o cidadão moderado. A prática mostra que se deve evitar o confronto de crenças pessoais, mantendo o foco estrito no papel social do Estado e combatendo boatos de viés anticlerical e saber que o radicalismo costuma afastar o cidadão moderado, todavia sempre alertando sobre as conquistas reais com propostas concretas e as relacionadas ao futuro do emprego, bem-estar e os direitos sociais. 

A direita tem demonstrado vantagem estratégica no uso das redes sociais e na comunicação digital direta ao capturar os anseios das novas gerações de eleitores, e pautar costumes em defesa da família tradicional e dos valores religiosos para os mais velhos. 

Considerar tais objetivos será um ponto de partida para uma virada no segundo turno eleitoral, valendo-se do aprendizado para quem entendeu o significado da segunda época.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).