Artigos e Opinião

Editorial

Cautela necessária com as bets

Adiamento da definição da Lotesul amplia debate necessário sobre os impactos sociais e econômicos das apostas esportivas, que já afetam famílias, comércio e indústria

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Nesta edição mostramos que o governo do Estado decidiu adiar para julho a definição da empresa que ficará responsável pela administração da Loteria Estadual de Mato Grosso do Sul, a Lotesul. A princípio, trata-se de uma decisão administrativa, motivada por questões técnicas e burocráticas do processo licitatório.

Ainda assim, o adiamento acaba produzindo um efeito positivo: amplia o tempo de reflexão sobre um mercado que merece, mais do que entusiasmo, cautela.

As apostas esportivas e plataformas de bets cresceram de forma avassaladora no Brasil nos últimos anos. O que começou como novidade, cercado pelo discurso do entretenimento fácil e da possibilidade de ganhos rápidos, passou a revelar uma face muito mais preocupante.

Aos poucos, o País começa a perceber os efeitos nocivos de uma atividade que se expandiu rapidamente, muitas vezes sem fiscalização adequada e sem mecanismos efetivos de proteção social.

Passado o encantamento inicial, surgem os prejuízos familiares, o endividamento silencioso, o vício em apostas e a frustração de milhares de pessoas que acreditaram na promessa ilusória de dinheiro fácil.

O impacto das bets já ultrapassa o universo esportivo e alcança a economia doméstica, especialmente entre as famílias de menor renda, justamente as mais vulneráveis às armadilhas do jogo compulsivo.

Hoje já existem evidências claras de que o avanço desenfreado das apostas interfere no consumo das famílias e afeta setores importantes da economia.

Comércio e indústria começam a sentir os efeitos da transferência de renda para plataformas de apostas.

Dinheiro que antes circulava em supermercados, lojas, pequenos negócios e serviços locais agora é direcionado para jogos virtuais que pouco ou nada devolvem à economia regional.

O problema se agrava porque o vício em apostas tem dinâmica semelhante a outros tipos de dependência. A expectativa constante de recuperação das perdas empurra muitos apostadores para um ciclo contínuo de prejuízos financeiros e emocionais.

Não se trata apenas de lazer. Em muitos casos, tornou-se um problema de saúde pública e de desorganização familiar.

É justamente por isso que o Brasil precisa rever o modelo atual das bets. Regulamentar apenas para arrecadar impostos não basta. O País precisa discutir limites, publicidade, proteção aos vulneráveis e mecanismos mais rígidos de controle.

O debate não pode ficar restrito ao potencial de arrecadação financeira dos governos enquanto os impactos sociais se multiplicam de forma silenciosa.

Neste cenário, Mato Grosso do Sul precisa agir com prudência. Se o Estado ainda não ingressou plenamente neste mercado, não há motivo para pressa. Pelo contrário. O amadurecimento da discussão nacional mostra que a cautela é o caminho mais sensato.

Antes de apostar em apostas, o poder público precisa avaliar com responsabilidade os efeitos sociais, econômicos e familiares desta atividade.

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ARTIGOS

Por que estamos pagando para fazer amigos?

Empresas, promotores de eventos e coaches cobram centenas de dólares por fins de semana intensivos para ensinar adultos a socializarem e a perderem a timidez

20/07/2026 07h45

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Em 20 de julho é celebrado o Dia do Amigo e, com a aproximação da data, uma pergunta incômoda começa a ecoar nos debates sobre o comportamento contemporâneo: você pagaria para fazer amigos? A maioria das pessoas certamente de pronto diria que não, mas essa resposta tem funcionado apenas na teoria, pois já tem quem lucre com esse novo nicho de mercado.

Nos Estados Unidos, esse fenômeno vem ganhando força, e o cenário é alarmante. Segundo informações do Magnet ABA Therapy, um a cada cinco adultos americanos apresenta um estado mental de solidão crônica.

Globalmente, a geração Z é a mais afetada, com 24% das pessoas de 15 anos ou mais relatando sentimentos significativos de solidão. Diante desse deserto afetivo, o mercado encontrou uma oportunidade: a criação da chamada “economia da conexão”.

Hoje, empresas, promotores de eventos e coaches cobram centenas de dólares por fins de semana intensivos para ensinar adultos a socializarem e a perderem a timidez. Há clubes privados que oferecem uma verdadeira “curadoria” de amizades.

E se você pensa que isso é uma realidade apenas para quem mora fora do Brasil, está enganado.

Em Curitiba, por exemplo, já se multiplicam anúncios de aplicativos com convites como “jantares com desconhecidos” ou “transforme desconhecidos em amigos” – iniciativas desenhadas para ajudar pessoas a romperem o isolamento e a construírem novos laços.

Mas como chegamos a esse ponto? Culpar a pandemia, as telas ou o home office é a saída mais fácil, mas a verdade é mais profunda. Estamos imersos em uma cultura que estimula o sujeito a se desvincular do coletivo.

Sob a ilusão de que “você pode ser o que quiser” e amparados pela promessa de felicidade imediata que vem em cápsula, desaprendemos a conviver e criamos uma sociedade com baixíssima tolerância à frustração.

Afinal, fazer amigos de verdade exige paciência, concessões e o risco de se machucar, habilidades que fomos desaprendendo a usar em nossa busca por uma vida sem atritos. Assim, o efeito colateral tem sido nos isolarmos em nossas próprias bolhas de autossuficiência.

É aí que a lógica do mercado entra: se você não tem tempo ou habilidade para cultivar laços organicamente, o sistema monetiza essa carência, transformando a vulnerabilidade humana em mais um serviço por assinatura.

O problema é que, ao fazer a amizade seguir a lógica mercantil, passamos a tratá-la sob a regra do descarte: “se der problema”, eu simplesmente cancelo.

O resultado são relações voláteis, sem consistência e sem capacidade de superar dificuldades, o oposto da real condição humana, que é caótica e imperfeita, mas profundamente viva e transformadora.

Ao terceirizarmos nossa sociabilidade para algoritmos e jantares pagos, estamos anestesiando o sintoma sem curar a doença. Estamos trocando o calor do afeto espontâneo pela conveniência de um produto com garantia de satisfação.

Se o afeto vira mercadoria, o outro deixa de ser um igual para se tornar um bem de consumo.

Diante desse cenário em que até o carinho tem preço e a solidão virou modelo de negócios, resta uma última e incômoda reflexão: se passarmos a pagar para que as pessoas nos ouçam e nos aceitem, o que nos garante que o que estamos comprando é mesmo amizade, e não apenas o fim temporário da nossa solidão?

ARTIGOS

A odisseia eleitoral brasileira

Mais do que um relato da Grécia Antiga, a obra permanece atual porque aborda temas universais, como poder, liderança, legitimidade e pertencimento

20/07/2026 07h30

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A estreia de “A Odisseia”, adaptação do clássico de Homero, convida a refletir sobre a permanência dos grandes arquétipos da civilização ocidental. Mais do que um relato da Grécia Antiga, a obra permanece atual porque aborda temas universais, como poder, liderança, legitimidade e pertencimento.

Conceitos como democracia, política, cidadania, justiça e oikos continuam estruturando a forma como compreendemos o Estado e o exercício do poder, permitindo que a política brasileira também seja interpretada a partir de uma atualização do que vem a ser um novo épico político.

Após a prisão de Jair Bolsonaro, a direita iniciou uma longa travessia em busca de uma nova centralidade política.

Nesse percurso, Flávio Bolsonaro se tornou o personagem encarregado de conduzir essa jornada. Como Ulisses, seu desafio não consiste apenas em derrotar adversários externos, mas, sobretudo, em sobreviver às próprias tempestades internas.

A campanha atravessa disputas regionais, conflitos entre lideranças, divergências sobre candidaturas ao Senado e dificuldades para consolidar um projeto nacional unificado.

As tensões envolvendo Michelle Bolsonaro, os desgastes provocados pelas denúncias que atingiram seu entorno político e a fragmentação crescente do campo conservador funcionam como os monstros da narrativa homérica: obstáculos que retardam a chegada ao destino.

Seu maior desafio, porém, é retornar ao oikos político. Na tradição grega, o oikos não representa apenas a casa física, é o lugar da legitimidade, da autoridade reconhecida e da ordem restaurada. Enquanto Flávio enfrenta sua travessia, Luiz Inácio Lula da Silva ocupa uma posição distinta.

Diferentemente do filho de Jair Bolsonaro, que ainda percorre o caminho tortuoso da legitimidade, Lula já habita o espaço do poder. Seu maior ativo político, neste momento, talvez não seja a expansão de sua força, mas a incapacidade de seus adversários de concluir a própria jornada.

É justamente nesse ponto que a analogia com Homero revela sua principal inversão. Na epopeia, Ulisses retorna, derrota os pretendentes e restaura a ordem de Ítaca.

Na política, contudo, não existe destino garantido. Quanto mais longa se torna a travessia da direita, maiores são as possibilidades de permanência daquele que já ocupa o oikos. A demora transforma-se em vantagem estratégica para quem governa.

Essa talvez seja a principal contradição do atual cenário político brasileiro. A cultura política parece conservar uma inclinação mais favorável ao campo de centro-direita em temas como segurança pública, responsabilidade fiscal e valores conservadores, entretanto, essa maioria cultural ainda não conseguiu se converter em unidade política.

A dialética se torna evidente: existe uma tese social favorável à direita, mas uma antítese produzida pela fragmentação de suas lideranças. Sem uma síntese capaz de reorganizar esse campo, o resultado tende a favorecer justamente aquele que ocupa a posição que muitos pretendem conquistar.

Talvez a principal lição de Homero permaneça atual: antes de vencer o adversário, é preciso concluir a própria viagem.

Na política, muitas vezes, o maior obstáculo não está do lado de fora, mas na incapacidade de construir unidade antes de alcançar o destino. E, enquanto a travessia continua, quem já está em casa permanece, ao menos por enquanto, senhor do próprio oikos.

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