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CIB e planejamento tributário: A era da rastreabilidade imobiliária.

A fragmentação informacional, que historicamente dificultava o cruzamento entre propriedade, contratos e rendimentos declarados, tende a ser progressivamente superada

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A criação do Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB), no âmbito da reforma tributária, foi apresentada como medida de modernização administrativa e integração de dados.

De fato, não se trata da instituição de novo tributo, nem da alteração formal de alíquotas. Contudo, seus efeitos práticos ultrapassam o campo meramente cadastral e atingem, de forma sensível, a tributação dos aluguéis no Brasil.

Ao conferir a cada imóvel um identificador único nacional e integrar informações oriundas de cartórios, municípios, Receita Federal e órgãos fundiários, o CIB inaugura um novo patamar de transparência patrimonial.

A fragmentação informacional, que historicamente dificultava o cruzamento entre propriedade, contratos e rendimentos declarados, tende a ser progressivamente superada. O resultado é inequívoco: a capacidade de fiscalização sobre receitas locatícias será substancialmente ampliada.

Hoje, os aluguéis percebidos por pessoas físicas submetem-se à tributação progressiva do Imposto de Renda, podendo alcançar as alíquotas mais elevadas da tabela.

Já na pessoa jurídica, especialmente em estruturas de administração patrimonial, é possível, a depender do regime adotado, alcançar carga efetiva inferior e maior previsibilidade tributária. Essa diferença sempre estimulou debates sobre reorganização patrimonial e eficiência fiscal.

O CIB não altera essa estrutura normativa. O que ele modifica é o ambiente de controle. A partir da consolidação nacional de dados imobiliários, torna-se mais simples para o Fisco confrontar titularidade do bem, existência de contratos, valores de mercado e rendimentos efetivamente declarados.

A informalidade, que antes se beneficiava de lacunas cadastrais e da dispersão de informações, passa a conviver com risco fiscal significativamente maior.

Nesse contexto, ganha centralidade o planejamento tributário lícito e estruturado. Não se trata de evasão, mas de organização patrimonial racional. A definição entre manter imóveis na pessoa física ou integralizá-los em sociedade patrimonial, a escolha do regime tributário mais adequado, a formalização contratual compatível com a realidade econômica e a adequada escrituração dos recebíveis deixam de ser decisões secundárias e passam a integrar a estratégia essencial do investidor imobiliário.

A nova lógica é clara, quanto maior a integração informacional, menor a margem para improviso. O contribuinte que aufere renda de aluguéis precisa antecipar-se ao ambiente de rastreabilidade ampliada, ajustando sua estrutura jurídica à legislação vigente e avaliando impactos de curto e longo prazo.

Em síntese, o CIB não cria o imposto sobre aluguéis, mas fortalece o sistema que o fiscaliza. Se antes a desorganização patrimonial era tolerada pela dificuldade operacional de controle, agora a transparência estrutural impõe profissionalização. A tributação permanece a mesma; o grau de exposição, não.

Em razão do novo panorama, é impositivo que o investidor organizado possua não só imóveis sólidos e bem construídos materialmente mas, igualmente, no campo formal, é necessário um planejamento patrimonial estruturado sob pilares consistentes e construído com inteligência.

Em razão desse novo panorama, impõe-se ao investidor organizado não apenas a constituição de um portfólio imobiliário sólido sob o aspecto material, mas, sobretudo, a estruturação formal de seu patrimônio com rigor técnico.

A solidez física do ativo já não é suficiente; exige-se, igualmente, arquitetura jurídica consistente, planejamento tributário racional e governança patrimonial construída com inteligência estratégica.

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Editorial

Repensar o Hospital Municipal

A segunda licitação sem interessados deve ser encarada como um alerta. Quando uma estratégia não produz os resultados esperados, cabe ao gestor público ter a humildade de revê-la

20/06/2026 07h15

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A construção de um hospital municipal em Campo Grande é uma necessidade há muito debatida e que dificilmente encontra oposição.

Em uma cidade que concentra atendimentos de alta complexidade e recebe pacientes de praticamente todas as regiões de Mato Grosso do Sul, ampliar a estrutura de saúde pública é uma demanda permanente.

O problema não está no objetivo, mas no caminho escolhido para alcançá-lo.

Nesta edição, mostramos que a licitação lançada pela Prefeitura de Campo Grande para viabilizar o Hospital Municipal ficou deserta pela segunda vez.

Nenhuma empresa apresentou proposta. O fato, por si só, merece uma reflexão mais profunda. Quando o setor privado não demonstra interesse em participar de um projeto dessa magnitude, é preciso compreender as razões.

O Município apostou no modelo BTS, sigla para built to suit. Nesse formato, a iniciativa privada constrói a estrutura e depois recebe pagamentos por meio de um contrato de aluguel de longo prazo.

Em teoria, trata-se de uma alternativa capaz de acelerar investimentos sem exigir que o poder público desembolse imediatamente os recursos necessários para a obra.

Mas a realidade mostrou que algo não está funcionando. Se duas tentativas consecutivas terminaram sem interessados, é sinal de que o mercado não enxerga, nas condições atuais, uma oportunidade suficientemente atrativa para assumir os riscos do empreendimento.

Diante desse cenário, insistir no mesmo modelo sem promover ajustes pode significar apenas mais atraso. O momento exige que a administração municipal reavalie a estratégia adotada e examine outras possibilidades.

Uma delas é seguir um caminho semelhante ao utilizado pelo governo do Estado em empreendimentos hospitalares.

Em vez de limitar a parceria à construção do prédio, seria possível estruturar uma parceria público-privada mais ampla, envolvendo também a gestão de atividades-meio e a operação de serviços de apoio.

Esse formato pode aumentar o interesse dos investidores e melhorar a sustentabilidade econômica do projeto.

Outra alternativa é buscar recursos federais, emendas parlamentares e linhas de financiamento específicas para executar diretamente a obra.

Embora seja improvável que o Município disponha de recursos próprios suficientes para construir sozinho um hospital desse porte, existem mecanismos institucionais que podem ajudar a viabilizar o empreendimento.

O que não pode acontecer é a paralisação da ideia. Campo Grande continua precisando ampliar sua rede pública de saúde.

A população não está preocupada com a modalidade contratual adotada, o cidadão quer mais leitos, atendimento mais rápido e serviços de qualidade.

A segunda licitação sem interessados deve ser encarada como um alerta, e não como um ponto final. Quando uma estratégia não produz os resultados esperados, cabe ao gestor público ter a humildade de revê-la.

O importante não é defender um modelo específico, mas encontrar a solução mais eficiente para entregar à população uma estrutura que há anos é considerada necessária.

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Artigo

Velhices no plural: combater o etarismo começa pelo olhar

Os velhos, os indivíduos que estão na fase da velhice, têm uma história vivenciada, de suas experiências, de suas relações

19/06/2026 07h45

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Quais são os lugares dos velhos na nossa sociedade? Sim, lugares, pois não há uma única forma de se viver a velhice, mas diversas: são velhices.

Os velhos, os indivíduos que estão na fase da velhice, têm uma história vivenciada, de suas experiências, de suas relações.

Têm também um futuro, no qual podem constituir projetos e viver a velhice com uma potência criativa. Ser quem se é, a partir do que se constituiu ao longo da vida, e poder se recriar mantendo a sua autenticidade.

Vou perguntar de outro jeito, mais pessoal: O que é a velhice para você? Qual é o seu olhar destinado aos velhos? As suas respostas foram positivas? Ou foram estereotipadas e generalizadas, a partir de concepções negativas? Lá no fundinho, você encontra em si uma série de preconceitos que se manifestam nas piadas, olhares de pena ou de intolerância, uma falta de paciência, uma grosseria, uma violência? A isso chamamos etarismo: estereótipos, preconceitos e discriminação em relação à idade, segundo o Relatório Mundial sobre o Idadismo (2022) e o Relatório da Comissão da Organização Mundial da Saúde sobre Conexão Social (2025).

O que parecem ser somente ideias inofensivas, bobagens, produzem efeitos reais deletérios para os velhos: adoecimento, isolamento, sentimentos de exclusão e de solidão (OPAS, 2022; OMS, 2025). As ideias se propagam em ações discriminatórias às quais os velhos se identificam.

E então, por onde ir? Como mudar essa situação? Temos algumas alternativas. Diante o desrespeito, a mudança pelo reconhecimento, nas relações pessoais mais próximas, da família, dos amigos e dos amores; na inclusão de pertencimento comunitário e social, pois a ideia de que os velhos querem descansar é errônea, não se confirma na vida real.

E, por fim, o espaço de reconhecimento pelo acolhimento, pela escuta, pelo diálogo e pelas trocas de experiências entre todas as gerações.

Enfrentar o etarismo exige, antes de tudo, torná-lo visível. É um fenômeno que se sustenta em práticas cotidianas e, por isso mesmo, precisa ser reconhecido, nomeado e compreendido para que possa ser efetivamente combatido.

O caminho passa pela educação, pelo desenvolvimento da empatia e pela construção de relações que favoreçam a convivência entre as gerações e a troca de experiências.

Não se trata apenas de uma mudança individual, mas de um compromisso coletivo com uma sociedade que reconheça a velhice em sua diversidade, potência e dignidade. 

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