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CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial deste sábado/domingo: "O último recurso"

Confira o editorial deste sábado/domingo: "O último recurso"

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A lei deve ser para todos. Assim como as forças de segurança. Para proteger algumas propriedades, existe o serviço de segurança particular.

Em qualquer academia de polícia do mundo, pelo menos nas dos países que funcionam sob o regime do Estado Democrático de Direito, o uso da força sempre será o último recurso a ser utilizado por uma força de segurança. Há vários meios disponíveis para se resolver um conflito, como por exemplo, a negociação, a intermediação por meio da Justiça, a atuação de entidades da sociedade civil, entre outras maneiras pouco violentas ou mais pacíficas. 

O uso da força, diga-se de passagem, é muito pouco razoável de ser utilizado em algumas situações específicas, como por exemplo, em casos de turbação de posse de alguma propriedade. As ações policiais que envolvem confronto direto, são muito mais associadas à conflitos em que há violência física por parte de quem pratica o crime. Geralmente, policiais disparam contra grupos ou pessoas que infringem algum dos artigos do código penal, como alguém que pratica um assalto à mão armada, ou alguém que agride fisicamente outro cidadão, ou mesmo alguém que tenta agredir um policial. 

 Em casos em que há o risco a posse de uma propriedade, por o conflito estar muito mais ligado à uma questão que pode ser resolvida por juiz da área cível, que por um juiz  da área criminal, o uso da força sempre será o último recurso, e ainda assim, deverá ser praticado sob determinação de um juiz. Não foi o que ocorreu, porém, na noite da útima quinta-feira, em Aquidauana, quando a Polícia Militar, atuou para expulsar pouco mais de 100 indígenas da etnia Kinikinau da Fazenda Água Branca. Até mesmo o helicóptero da corporação, foi utilizado para perserguir os índios que invadiram a propriedade. As evidências dos crimes que a Polícia Militar alegou estar combatendo, ainda estão passíveis de comprovação da Polícia Civil.

Enquanto os supostos furtos ou roubos praticados pelos Kinikinau não são comprovados, resta à Polícia Militar e à Secretaria de Justiça e Segurança Pública explicarem o critério para utilizar o helicóptero e grande contingente policial neste caso, e não em outras dezenas de ocupações que se prolongam há vários anos, em municípios como Sidrolândia ou Caarapó. Uma outra pergunta: será que os proprietários de imóveis urbanos, que têm sua posse turbada, têm o mesmo tratamento dispensado ao proprietário da fazenda de Aquidauana?

A lei deve ser para todos. Assim como as forças de segurança. Para proteger algumas propriedades, existe o serviço de segurança particular. A polícia deve reavaliar seus critérios, para não aparentar que esteja oferecendo privilégios a uns, e demora no atendimento à outros. Não cabe à ela fazer o juízo de valor de algumas demandas, e sim ao Poder Judiciário.

EDITORIAL

Saúde e a falta de atendimento digno

A saúde pública existe para garantir atendimento digno a todos. Quando um hospital deixa de cumprir essa missão, falha com seus pacientes e toda a sociedade

24/06/2026 07h15

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Há algo profundamente errado quando um paciente consegue ser esquecido dentro de um hospital. Não se trata apenas de uma falha administrativa, de um problema de gestão ou de uma dificuldade financeira. Trata-se de uma afronta à dignidade humana.

E é exatamente isso que reportagem publicada nesta edição do Correio do Estado revela ao apresentar o conteúdo de um relatório da Defensoria Pública sobre a situação da Santa Casa de Campo Grande.

O documento descreve um cenário que deveria causar indignação em qualquer cidadão. Pacientes aguardam vagas e procedimentos por períodos incompatíveis com a urgência de seus quadros clínicos.

Há relatos de tratamentos inadequados, falhas no acompanhamento médico e situações em que pessoas permanecem à espera de cuidados básicos. O que se vê é um sistema que, em muitos casos, parece incapaz de oferecer aquilo que deveria ser sua missão principal: cuidar.

É preciso dizer com clareza que não estamos falando apenas de números, estatísticas ou relatórios. Estamos falando de pessoas. Homens, mulheres, idosos e crianças que chegam ao hospital em busca de ajuda e encontram uma estrutura que, frequentemente, não consegue responder às suas necessidades.

São cidadãos que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) e que, justamente por isso, tornam-se ainda mais vulneráveis.

A situação se torna mais grave porque o paciente que depende do SUS não tem alternativa. Quem tem recursos financeiros pode recorrer a hospitais particulares, buscar uma segunda opinião ou contratar um plano de saúde.

Já o cidadão pobre, quando entra em uma unidade pública ou conveniada ao SUS, entrega seu destino à capacidade do sistema de funcionar. E, conforme demonstram os relatos reunidos pela Defensoria Pública, essa confiança nem sempre é correspondida.

Existe uma ironia difícil de ignorar. Boa parte dos profissionais que atuam no sistema público de saúde e dos gestores responsáveis por hospitais conveniados ao SUS não utiliza a rede pública quando precisa de atendimento médico, recorre aos planos de saúde e aos hospitais privados.

Não há ilegalidade nisso, mas o fato expõe uma realidade desconfortável: muitos conhecem de perto as limitações do serviço que administram ou ajudam a prestar.

Outro argumento frequentemente utilizado para justificar os problemas da saúde pública é a falta de recursos. No caso de Campo Grande, porém, essa explicação não parece suficiente.

Todos os anos, mais de R$ 1 bilhão são transferidos pela União ao Município para custear ações e serviços do SUS. Trata-se de um volume expressivo de dinheiro público.

O que os fatos indicam é a necessidade urgente de melhorar a gestão dos recursos já disponíveis. Cada paciente esquecido, cada tratamento inadequado e cada demora injustificável representa não apenas sofrimento humano, mas também o fracasso na aplicação eficiente de recursos que pertencem à sociedade.

A saúde pública existe para garantir atendimento digno a todos, independentemente da renda. Quando um hospital deixa de cumprir essa missão, não falha apenas com seus pacientes, falha com toda a sociedade.

Artigo

Crise de realidade e o novo papel da ficção

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si

23/06/2026 07h45

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Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias, maneirismos, sons, fatos e pequenos causos do cotidiano.

Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que acontece de fato. Toda a minha ficção fala sobre o real, ainda que atravessado pelo fantástico.

Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de consenso? Quando já não conseguimos concordar nem sobre o que é a própria realidade?

Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de mimetizar a vida com uma precisão cada vez mais inquietante) e o tsunami de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos abrindo mão da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro.

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si. São pacotes de realidade customizada, moldados por algoritmos, interesses e emoções.

Nesse cenário, criar histórias fantásticas deixa de ser apenas um exercício de imaginação ou uma fuga baseada no “e se?” A ficção passa a funcionar também como um espaço de investigação. Um convite para recuperar o espanto, a dúvida e a curiosidade diante do mundo.

Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, imaginar talvez seja uma das últimas formas de observar com profundidade.

Para mentes bombardeadas por versões conflitantes da verdade, a ficção precisa assumir um novo papel social.

Se já não conseguimos concordar sobre o que acontece no noticiário, se a desconfiança atravessa instituições, discursos e imagens, talvez sejam as histórias que nos ajudam a reconstruir alguma experiência de identificação coletiva.

Afinal, ainda conseguimos reconhecer a injustiça, a perda, o medo e a esperança quando eles aparecem diante de nós em forma de narrativa. Contar histórias, hoje, talvez seja menos sobre escapar da realidade e mais sobre reaprender a enxergá-la.

Num mundo em que cada pessoa parece confinada à própria versão dos fatos, a ficção ainda pode abrir janelas, criar pontes e provocar perguntas difíceis.

A fantasia, quando nasce da observação honesta do mundo, não nos afasta do real. Pelo contrário: ela funciona como um espelho. E nos enxergar talvez seja exatamente o que precisamos nestes tempos.
 

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