Artigos e Opinião

EDITORIAL

Correção de rota após ficar sob suspeita

Quando o sistema reconhece falhas e age para repará-las, a Justiça se aproxima daquilo que dela se espera: ser instrumento da lei, não do privilégio ou da aparente fraude

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O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, prestes a começar, amplia como nunca o olhar da população sobre o Poder Judiciário e seus procedimentos. Se antes os trâmites de um processo – sejam penais, cíveis ou de execução – passavam despercebidos, restritos ao universo técnico de juízes, advogados e promotores, agora estão sob atenção nacional. O que parecia um ritual distante tornou-se parte do debate público.

Tradicionalmente, quando se falava em julgamento, a população pensava apenas no resultado: quem foi condenado ou absolvido, quem recebeu indenização ou reparação. Os meios importavam menos que o mérito. Hoje, contudo, cresce a percepção de que os caminhos são tão importantes quanto os desfechos.

O aspecto positivo é que não apenas o Supremo Tribunal Federal (STF) está sob críticas e elogios. O Judiciário em todas as suas esferas – estaduais, federais e superiores – vem sendo escrutinado. A sociedade já não enxerga apenas o ápice da pirâmide, mas também os degraus que sustentam as decisões.

Esse olhar mais atento coincide com as investigações que atingiram o núcleo do sistema. A Operação Ultima Ratio, em Mato Grosso do Sul, afastou quatro desembargadores e revelou suspeitas de venda de sentenças. O impacto foi profundo: a Justiça, antes vista como instância máxima de correção, apareceu vulnerável à corrupção.

Paradoxalmente, foi dessa exposição que surgiram sinais de correção. Decisões duvidosas começaram a ser revistas. No mês passado, o Ministério Público propôs a devolução de uma fazenda à vítima de um golpe, medida que contrariou decisão anterior, suspeita de ter sido contaminada por corrupção. 

Agora, como o leitor saberá com mais detalhes adiante, nesta edição, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) barrou o pagamento de R$ 178 milhões em honorários advocatícios no Mato Grosso do Sul – um valor tão absurdo que foi comparado a um prêmio da Mega-Sena.

Essas reversões não apagam os danos já causados, mas demonstram que ainda é possível corrigir distorções. Quando o sistema reconhece falhas e age para repará-las, a Justiça se aproxima daquilo que dela se espera: ser instrumento da lei, não do privilégio ou da aparente fraude.

Que não haja qualquer outro indício do Judiciário, que é de onde mais se espera probidade. Pois, quando a Justiça falha em seus próprios fundamentos, a democracia inteira se fragiliza. 

O olhar da sociedade precisa permanecer atento, cobrando transparência e coerência. É dessa vigilância que pode nascer uma Justiça mais íntegra, capaz de honrar seu nome.

Editorial

Hidrovia exige equilíbrio e fiscalização

Não se pode desconsiderar a necessidade de desenvolvimento econômico do Pantanal, que enfrenta desafios históricos de infraestrutura, logística e de oportunidades

25/03/2026 07h15

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O debate sobre a hidrovia do Rio Paraguai expõe, mais uma vez, um dilema recorrente no Brasil: como conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.

No caso específico da região Pantaneira, essa equação é ainda mais sensível. O avanço de um projeto dessa magnitude exige cautela, planejamento e, sobretudo, transparência.

Mas é preciso deixar claro: desenvolvimento e proteção ambiental não são objetivos incompatíveis. Com regras bem definidas e fiscalização efetiva, é possível avançar de forma responsável.

Nesta edição, mostramos que a COP15 tem sido utilizada como palco para questionamentos à concessão da hidrovia à iniciativa privada. Trata-se de uma manifestação pública legítima e pertinente.

Grandes projetos de infraestrutura, especialmente em áreas ambientalmente sensíveis, precisam ser amplamente discutidos.

O escrutínio da sociedade civil, da comunidade científica e de organizações ambientais é parte essencial de qualquer processo democrático.

Esse debate é, inclusive, saudável. Em uma concessão desse porte, é fundamental que o edital de licitação não deixe brechas que possam comprometer o meio ambiente ou a segurança da operação. Da mesma forma, a fiscalização precisa ocorrer de fato, e não apenas no papel.

Sem mecanismos rigorosos de controle, qualquer promessa de equilíbrio entre crescimento e preservação perde credibilidade. A transparência, nesse contexto, é tão importante quanto o projeto.

Os ambientalistas têm razão ao demonstrar preocupação. O Pantanal é um dos biomas mais frágeis e valiosos do planeta, e qualquer intervenção deve considerar seus limites naturais.

Ignorar esses alertas seria irresponsável. No entanto, também não se pode desconsiderar a necessidade de desenvolvimento econômico da região, que enfrenta desafios históricos de infraestrutura, de logística e de oportunidades.

A população pantaneira merece crescer com qualidade de vida, geração de emprego e melhores condições de integração econômica. Esse desenvolvimento, porém, precisa ocorrer de forma responsável, planejada e sustentável.

O caminho não está na paralisação de projetos nem na sua execução apressada, mas no equilíbrio. Conciliar progresso e preservação não é apenas possível – é uma obrigação. Essa é a nossa posição.

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Artigo

Quebrar criptografia não é mágica: o papel da tecnologia forense em investigações

É essa combinação que permite transformar informações aparentemente inacessíveis em dados passíveis de análise

24/03/2026 07h45

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A CNN Brasil noticiou recentemente que a Polícia Federal conseguiu quebrar a criptografia e acessar os dados de um celular pertencente a Daniel Vorcaro, no contexto do caso do Master. Segundo a reportagem, o conteúdo do aparelho já foi acessado e os dados serão compartilhados com a investigação.

Notícias como essa chamam atenção porque reforçam uma percepção comum, e muitas vezes equivocada, de que dados protegidos por criptografia são, por definição, inacessíveis.

Na prática, o acesso a informações criptografadas não é simples nem trivial. Trata-se de um trabalho altamente técnico, que só se torna viável com o uso de tecnologia forense avançada, combinada a método, conhecimento especializado e procedimentos rigorosamente definidos.

É essa combinação que permite transformar informações aparentemente inacessíveis em dados passíveis de análise, preservando integridade, contexto e valor probatório.

No caso citado pela reportagem, há um ponto tecnicamente relevante: mesmo sem a colaboração do investigado no fornecimento da senha do dispositivo, a Polícia Federal conseguiu acessar os dados armazenados no aparelho e superar uma camada adicional de proteção criptográfica.

Esse cenário ilustra o nível de sofisticação das ferramentas forenses disponíveis atualmente quando aplicadas de forma adequada, com base em conhecimento técnico aprofundado e processos bem estruturados.

Ferramentas forenses especializadas, como as desenvolvidas pela empresa israelense Cellebrite, ou soluções como o Verakey, da Magnet Forensics, existem justamente para lidar com cenários complexos: dispositivos protegidos por senha, criptografia ativa, dados excluídos intencionalmente e situações em que não há cooperação do usuário para acesso ao conteúdo.

Diferentemente do imaginário popular, esse acesso não ocorre por tentativa e erro, mas por meio de técnicas avançadas de extração e análise, capazes de identificar registros internos, artefatos digitais e informações residuais que permanecem no dispositivo.

Todo esse processo precisa ser conduzido de forma documentada e tecnicamente defensável. Princípios como integridade da evidência, rastreabilidade e cadeia de custódia são fundamentais para garantir que os dados recuperados possam ser corretamente analisados, contextualizados e, quando necessário, utilizados em processos administrativos ou judiciais. Sem esse rigor, a informação perde valor técnico e jurídico.

Há, naturalmente, diferenças entre o uso dessas tecnologias no setor público e no setor privado, mas essas diferenças não estão na tecnologia em si. No âmbito público, órgãos de investigação utilizam essas ferramentas com base em autorizações judiciais e dentro de procedimentos legais específicos.

Algumas funcionalidades mais sensíveis são restritas às forças de lei, por envolverem prerrogativas próprias da atividade policial.

No setor privado, por sua vez, a tecnologia forense é amplamente utilizada em investigações internas, apurações de fraude, incidentes de segurança da informação, disputas corporativas, atividades de compliance e auditoria.

Na Protiviti, por exemplo, contamos com plataformas forenses amplamente reconhecidas e utilizadas globalmente, operadas por profissionais qualificados, para apoiar empresas na apuração de fatos, identificação de irregularidades e tomada de decisões baseadas em evidências técnicas, sempre em conformidade com os limites legais e as melhores práticas de governança.

Casos amplamente divulgados pela imprensa, como o de Vorcaro, reforçam uma realidade cada vez mais presente no ambiente corporativo: dados digitais deixam rastros. Saber lidar com esses rastros de forma responsável, técnica e estruturada é um diferencial estratégico.

A tecnologia forense digital cumpre justamente esse papel, trazer clareza, confiabilidade e sustentação técnica para decisões críticas, fortalecendo a integridade dos processos investigativos e a confiança das organizações em suas próprias respostas.

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