Artigos e Opinião

Artigo

Corrupção é notícia velha, infelizmente

Na literatura, a carta também se tornou um importante objeto de reflexão sobre a ganância, a busca pelo poder e a capacidade de agentes políticos de ultrapassar limites éticos

Continue lendo...

Casos de corrupção, lamentavelmente, não são novidade. Há décadas, relatos dessa natureza ocupam e recheiam as páginas dos jornais, a ponto de o escândalo deixar de surpreender e se aproximar da lógica do “homem mordendo o cachorro”, e não do “cachorro mordendo o homem”, como na conhecida metáfora jornalística sobre aquilo que é ou não notícia. Em seu sentido mais amplo, porém, a corrupção é muito mais antiga do que os escândalos políticos que diariamente estampam as manchetes e acompanha a história das relações de poder e da administração pública.

Na carta que entrou para os livros de História da Arte como marco inicial da literatura de informação no Brasil e como um dos primeiros registros de favorecimento pessoal na administração pública, Pero Vaz de Caminha intercede por um parente, Jorge de Osório, ao solicitar ao rei de Portugal a graça de permitir seu retorno, após ter sido degredado para a Ilha de São Tomé.

Na literatura, a carta também se tornou um importante objeto de reflexão sobre a ganância, a busca pelo poder e a capacidade de agentes políticos de ultrapassar limites éticos para atender a interesses pessoais.

Com a proximidade de novas eleições, personagens inesquecíveis saltam das páginas dos livros para os palcos, as telas e, muitas vezes, para a realidade.

Em “O Tempo e o Vento”, clássico de Erico Verissimo, a expressão “criam-se dificuldades para vender facilidades” já sintetizava uma prática atribuída a agentes públicos, revelando como a literatura, ao longo do tempo, também se tornou espaço de reflexão sobre os mecanismos de poder e as relações entre política e interesses pessoais.

Odorico Paraguaçu decidiu preterir sua maior ambição (inaugurar o cemitério de Sucupira) para não prejudicar o faturamento de sua fábrica de azeite de dendê. “Um defunto de primeira qualidade” (de um funcionário que caíra num tonel do produto e morreu) que não pôde ser sepultado.

Nesse caso, foi um personagem saído das telas e dos palcos para as páginas de “Sucupira, Ame-a ou Deixe-a”, que reúne contos baseados em episódios da novela e da série televisiva “O bem-amado”, de Dias Gomes.

“O melhor do Brasil é o brasileiro”, diz a sabedoria popular. Embora frequentemente atribuída a Câmara Cascudo, essa máxima tornou-se de domínio público e, acredito, o saudoso folclorista não teria feito nenhuma objeção quanto à autoria.

Os brasileiros fazem piada inclusive com esse autoelogio naquela historieta sobre a criação do Brasil, em que Deus, tendo abençoado o País com inumeráveis belezas naturais, responde a um anjo que pergunta sobre a razão de tamanho privilégio: “Espere para ver o povinho que vou colocar lá”.

Contudo, traz esperança que, a despeito “de perder um amigo, mas não uma piada” e de enfrentar as adversidades com bom humor, milhões de brasileiros honestos dão muitas mostras de indignação contra a corrupção e a bandidagem. Não é só brincadeira.

Editorial

Buracos nas ruas: solução à vista?

Ruas deterioradas não são um inconveniente inevitável. Trata-se de uma falha na prestação de um serviço público essencial, que afeta milhares de pessoas

17/10/2026 07h10

Continue Lendo...

A abertura, na segunda-feira, da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de Campo Grande para investigar a operação tapa-buraco é uma oportunidade para esclarecer responsabilidades e cobrar soluções.

Não é admissível que uma cidade com a capacidade econômica da Capital conviva com ruas tomadas por buracos, que comprometem a segurança, elevam os custos de manutenção dos veículos e prejudicam a mobilidade.

A situação é ainda mais grave porque, há poucos meses, o proprietário da empresa responsável pela manutenção das vias foi preso sob suspeita de corrupção, assim como o ex-titular da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos.

O caso exige explicações sobre os contratos, a fiscalização dos serviços e o destino dos recursos públicos destinados à conservação viária.

Cabe aos vereadores investigar possíveis irregularidades e identificar responsabilidades, respeitando o devido processo legal. O dinheiro público precisa ser aplicado com eficiência, e os contratos firmados pela administração devem produzir resultados compatíveis com os valores pagos.

Seria um erro, porém, limitar o trabalho da comissão à identificação de culpados. A apuração é indispensável, mas a população não pode continuar esperando por ruas em condições adequadas.

Mesmo que os agentes públicos e os empresários venham a ser responsabilizados, isso não tapa os buracos nem resolve os problemas acumulados nos bairros.

Também preocupa a passividade com que parte da sociedade parece aceitar a precariedade do serviço. Ruas deterioradas não são um inconveniente inevitável. Trata-se de uma falha na prestação de um serviço público essencial, que afeta milhares de pessoas e exige fiscalização permanente.

Não basta anunciar operações tapa-buraco ou realizar intervenções pontuais que perdem eficácia com as primeiras chuvas. A manutenção viária precisa seguir critérios técnicos, priorizar as regiões mais prejudicadas e apresentar resultados que possam ser medidos e fiscalizados.

Espera-se que a CPI não termine apenas com um relatório de responsabilidades, mas ajude a mudar essa realidade. A Prefeitura de Campo Grande precisa apresentar um plano estruturado de recuperação das vias, com prioridades definidas, cronograma, recursos previstos e mecanismos de acompanhamento.

Investigar irregularidades é uma obrigação. Evitar que se repitam e garantir um serviço de qualidade também. O sucesso da CPI não deve ser medido apenas pelo número de culpados identificados, mas pela capacidade de transformar as suas conclusões em providências concretas. Campo Grande precisa de respostas e, sobretudo, de ruas em condições dignas de uma capital.

Artigo

Maioridade penal: a pergunta errada

No Brasil, o adolescente responde por seus atos a partir dos 12 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), prevê medidas que vão da advertência à internação

16/10/2026 07h20

Continue Lendo...

A redução da maioridade penal voltou ao centro da política neste ano. Em junho, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, por 44 a 18 votos, a proposta que baixa de 18 anos para 16 anos a idade a partir da qual alguém responde como adulto. Em agosto, foi instalada a comissão especial que analisa o texto. Para valer, a mudança ainda precisa de três quintos dos votos, em dois turnos, na Câmara e no Senado.

A indignação que move esse debate é legítima. Ninguém aceita ver uma família destruída e ouvir que o autor “não vai pagar por nada”. Só que essa frase não corresponde à lei.

No Brasil, o adolescente responde por seus atos a partir dos 12 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), prevê medidas que vão da advertência à internação, que é a perda da liberdade em unidade para jovens, por até três anos, com liberação obrigatória aos 21 anos. O que a Constituição impede é que ele seja julgado como adulto e mandado ao presídio comum.

A comparação com outros países costuma ser feita pela metade. Alemanha e Espanha começam a responsabilizar adolescentes aos 14 anos (mais tarde que o Brasil) e sempre numa justiça juvenil especializada. Na Alemanha, o juiz pode aplicar a lei juvenil para jovens de até 20 anos, conforme a maturidade.

A Argentina baixou a idade de 16 anos para 14 anos em fevereiro, mas criou um sistema separado para essa faixa etária, com a prisão como último recurso. Nenhum desses modelos coloca um garoto de 16 anos na cela de um adulto.

Esse é o centro da minha preocupação. Das cerca de 960 mil pessoas que cumprem pena no Brasil, mais de 720 mil estão atrás das grades, em unidades superlotadas onde as facções recrutam com facilidade, oferecendo proteção em troca de lealdade.

O jovem que entra por um roubo pode sair como soldado do crime organizado, com a vida inteira pela frente.

Isso não quer dizer que o sistema atual funcione bem. Muitas unidades de internação estão lotadas, sem escola de verdade e sem acompanhamento depois da saída.

Há casos de crueldade extrema em que três anos parecem pouco, e esse ponto merece debate sério, inclusive sobre prazos maiores para crimes gravíssimos.

O caminho, porém, passa por fazer o ECA funcionar: internação que eduque, oficina que prepare para o trabalho, família por perto.

A pergunta que deveria nos ocupar é outra: o que fazer para que um menino de 16 anos não chegue aos 25 anos com uma ficha criminal extensa? A resposta está mais perto da escola e da família do que do presídio.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).