Artigos e Opinião

EDITORIAL

Crime exige ação, não retórica

A recente decisão dos EUA de classificar organizações criminosas como grupos terroristas pouco contribui, na prática, para o enfrentamento da criminalidade no Brasil

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O avanço do crime organizado nas fronteiras brasileiras não é novidade. Mato Grosso do Sul convive há décadas com a presença de facções criminosas que atuam de forma integrada com grupos instalados em países vizinhos.

O tráfico de drogas, o contrabando de armas, o descaminho e os mecanismos de lavagem de dinheiro atravessam fronteiras com uma facilidade muito maior do que a capacidade do Estado de contê-los.

Ao longo dos anos, o poder público tentou diferentes estratégias para enfrentar estas organizações. Chefões foram presos, líderes transferidos para presídios federais, rotas foram monitoradas e as apreensões de drogas aumentaram significativamente.

Ainda assim, o fluxo criminoso continua. A cada operação bem-sucedida, o crime organizado demonstra capacidade de adaptação, seja criando novas rotas clandestinas, seja utilizando tecnologias modernas e mecanismos cada vez mais sofisticados de ocultação financeira.

O combate ao crime organizado exige mais do que discursos de ocasião ou soluções simplistas. É necessário reforçar a fiscalização nas fronteiras, ampliar o efetivo policial, investir em equipamentos modernos e fortalecer o trabalho de inteligência.

Monitoramento aéreo, integração de dados, rastreamento financeiro e cooperação entre forças de segurança são ferramentas indispensáveis para enfrentar organizações que operam como verdadeiras multinacionais do crime.

Tudo isso, evidentemente, custa dinheiro. E o Brasil, assim como os Estados fronteiriços, entre eles Mato Grosso do Sul, ainda investem menos do que deveriam em segurança estratégica. A extensão territorial das fronteiras brasileiras impõe desafios logísticos enormes.

Sem recursos suficientes, sem tecnologia adequada e sem presença constante do Estado, o crime encontra terreno fértil para continuar operando.

Neste contexto, a recente decisão dos Estados Unidos de classificar organizações criminosas da América Latina como grupos terroristas pouco contribui, na prática, para o enfrentamento da criminalidade no Brasil.

A medida não altera a realidade das fronteiras brasileiras, não reduz o tráfico de drogas e tampouco enfraquece financeiramente estas facções em território nacional.

O efeito concreto mais preocupante desta classificação é abrir margem para intervenções estrangeiras sob o argumento do combate ao terrorismo.

Na prática, cria-se a possibilidade de ações militares norte-americanas em territórios de outros países, inclusive sem comunicação prévia às autoridades locais. Trata-se de uma interferência delicada e que fere princípios básicos de soberania nacional.

O combate ao crime transnacional não será vencido com rótulos políticos ou medidas de impacto midiático.

Ele depende de cooperação internacional séria, troca de informações, investimentos em inteligência, transferência de tecnologia e ampliação de recursos para os países que convivem diariamente com este problema.

O que Mato Grosso do Sul e o Brasil precisam é de apoio técnico, mais equipamentos, mais integração entre forças policiais e mais dinheiro para monitorar fronteiras e sufocar financeiramente as organizações criminosas. O crime organizado se tornou global. O enfrentamento também precisa ser.

Artigo

Entre o 6 e o 9: quando a política atravessa relações

Do ponto de vista psicológico, a polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que ao escutar o outro se perca o rumo

29/05/2026 07h30

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A polarização política no Brasil é inegável. O País se vê dividido entre esquerda e direita, e essa cisão tem atravessado relações de forma profunda. Amizades antigas acabaram, famílias se desentenderam, casais se separaram. A divergência de ideias, quando acompanhada de emoções intensas, cria ruídos que se acumulam e provocam um verdadeiro “curto-circuito” nas relações. 

Do ponto de vista psicológico, a polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que ao escutar o outro se perca o rumo.

Soma-se a dificuldade de lidar com sentimentos intensos, o que torna o diálogo mais árduo. Logo, em vez de se aproximar, a pessoa se afasta; em vez de escutar, reage; em vez de perguntar, julga. 

Ainda assim, quando falamos de pessoas de boa índole, temos algo em comum: embora as ideias divirjam, muitos dos ideais se aproximam.

Há um desejo compartilhado por justiça, dignidade, liberdade e acesso aos direitos básicos como saúde, segurança e educação. 

É nesse ponto que a metáfora do número 6 ganha força. Duas pessoas, frente a frente, podem olhar para o mesmo símbolo e enxergar coisas diferentes: uma vê um 6, a outra um 9.

Ambas estão certas dentro de seus pontos de vista. Assim também ocorre com as ideias: diferentes interpretações podem emergir a partir de um mesmo ideal. 

Quando aproximamos essas visões, surge o número 69. Nesse encontro, não há disputa sobre quem está certo, porque aquilo que antes era oposição se transforma em complementar.

Ou seja, duas perspectivas coexistindo e compondo algo maior quando colocadas, lado a lado, harmoniosamente. 

Talvez seja justamente essa a habilidade que falte ao Brasil, e a todos nós: a capacidade de transformar o embate em encontro. De lembrar que discordar não significa desarmonia.

De aceitar que ninguém enxerga tudo sozinho. De trocar certezas rígidas por curiosidade genuína. 

Entretanto, é preciso lembrar que somos seres humanos complexos, com uma diversidade de sentimentos que, se não bem administrados, podem gerar disputas e desavenças.

Por isso, não será surpresa se, mesmo quando os que veem 6 e os que veem 9 se integrarem, surgir alguém que diga que, de fato, o número é 96. Longe de ser um problema, é justamente entre integração e divergência que aparecem novos caminhos. 

O importante é reconhecer que, assim como os números 6, 9, 69 ou 96, as ideias podem assumir formas distintas, desde que o ideal permaneça ético, digno e coerente. Afinal, é isso que ainda nos mantêm em diálogo. 

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Editorial

O crime organizado na economia formal

Com distribuidoras de combustíveis em Mato Grosso do Sul entre os alvos das investigações, caso expõe a necessidade de fiscalização mais rígida para benefícios fiscais

29/05/2026 07h15

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Mais uma vez Mato Grosso do Sul apareceu no centro de uma grande investigação nacional contra o crime organizado. A nova fase da operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal (PF), voltou os olhos para o fluxo financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), uma estrutura criminosa que há muito tempo deixou de agir apenas nas periferias e presídios para se infiltrar no coração do sistema econômico brasileiro.

Não por acaso, a investigação alcança conexões que passam pela Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, símbolo máximo do mercado financeiro nacional.

E é justamente aí que o caso se torna ainda mais inquietante. O que distribuidoras de combustíveis instaladas em Iguatemi, no interior de Mato Grosso do Sul, têm a ver com uma engrenagem financeira ligada ao PCC?

É uma pergunta que toda a sociedade precisa fazer. Quando operações policiais apontam que empresas aparentemente legais podem estar sendo utilizadas para movimentar dinheiro de facções criminosas, o problema deixa de ser apenas policial. Passa a ser institucional e econômico.

O comércio de combustíveis historicamente figura entre os setores mais vulneráveis à lavagem de dinheiro, evasão fiscal e fraudes tributárias. A circulação elevada de recursos e a complexidade da cadeia de distribuição tornam o ambiente propício para organizações criminosas sofisticadas.

O que a operação Carbono Oculto sugere é justamente a possibilidade de que empresas ligadas ao PCC tenham utilizado mecanismos fiscais e empresariais para esconder dinheiro ilícito sob aparência de atividade econômica regular.

Isso precisa servir de alerta. Combater sonegação fiscal, rastrear movimentações financeiras suspeitas e desmontar engenharias tributárias artificiais não é excesso de fiscalização. É fortalecimento institucional. E instituições fortes geram desenvolvimento.

Não existe ambiente econômico saudável onde o crime organizado consegue circular bilhões de reais com facilidade, abrir empresas de fachada e utilizar estruturas formais para lavar dinheiro.

Nos últimos anos, parte do debate público passou a vender a ideia de que qualquer controle representa ataque à liberdade econômica. É um equívoco perigoso. Liberdade não é sinônimo de ausência de regras.

O avanço das fintechs e dos sistemas financeiros digitais trouxe inovação, mas também abriu brechas para organizações criminosas movimentarem recursos com menos barreiras e menor capacidade de rastreamento.

Quem não deve, não teme fiscalização. Empresas corretas e empreendedores sérios dependem justamente de um ambiente em que o crime organizado não encontre facilidades para atuar.

O verdadeiro risco está no descontrole, na fragilidade dos mecanismos de fiscalização e na infiltração silenciosa das facções dentro da economia formal brasileira.

MS precisa acompanhar atentamente as investigações da operação Carbono Oculto. Não apenas pelo impacto criminal, mas, porque elas ajudam a revelar como o crime organizado tenta se infiltrar silenciosamente na economia formal.

E esse talvez seja hoje o maior desafio das democracias modernas: impedir que facções criminosas passem a agir como grandes conglomerados empresariais.

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