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Entre o 6 e o 9: quando a política atravessa relações

Do ponto de vista psicológico, a polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que ao escutar o outro se perca o rumo

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A polarização política no Brasil é inegável. O País se vê dividido entre esquerda e direita, e essa cisão tem atravessado relações de forma profunda. Amizades antigas acabaram, famílias se desentenderam, casais se separaram. A divergência de ideias, quando acompanhada de emoções intensas, cria ruídos que se acumulam e provocam um verdadeiro “curto-circuito” nas relações. 

Do ponto de vista psicológico, a polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que ao escutar o outro se perca o rumo.

Soma-se a dificuldade de lidar com sentimentos intensos, o que torna o diálogo mais árduo. Logo, em vez de se aproximar, a pessoa se afasta; em vez de escutar, reage; em vez de perguntar, julga. 

Ainda assim, quando falamos de pessoas de boa índole, temos algo em comum: embora as ideias divirjam, muitos dos ideais se aproximam.

Há um desejo compartilhado por justiça, dignidade, liberdade e acesso aos direitos básicos como saúde, segurança e educação. 

É nesse ponto que a metáfora do número 6 ganha força. Duas pessoas, frente a frente, podem olhar para o mesmo símbolo e enxergar coisas diferentes: uma vê um 6, a outra um 9.

Ambas estão certas dentro de seus pontos de vista. Assim também ocorre com as ideias: diferentes interpretações podem emergir a partir de um mesmo ideal. 

Quando aproximamos essas visões, surge o número 69. Nesse encontro, não há disputa sobre quem está certo, porque aquilo que antes era oposição se transforma em complementar.

Ou seja, duas perspectivas coexistindo e compondo algo maior quando colocadas, lado a lado, harmoniosamente. 

Talvez seja justamente essa a habilidade que falte ao Brasil, e a todos nós: a capacidade de transformar o embate em encontro. De lembrar que discordar não significa desarmonia.

De aceitar que ninguém enxerga tudo sozinho. De trocar certezas rígidas por curiosidade genuína. 

Entretanto, é preciso lembrar que somos seres humanos complexos, com uma diversidade de sentimentos que, se não bem administrados, podem gerar disputas e desavenças.

Por isso, não será surpresa se, mesmo quando os que veem 6 e os que veem 9 se integrarem, surgir alguém que diga que, de fato, o número é 96. Longe de ser um problema, é justamente entre integração e divergência que aparecem novos caminhos. 

O importante é reconhecer que, assim como os números 6, 9, 69 ou 96, as ideias podem assumir formas distintas, desde que o ideal permaneça ético, digno e coerente. Afinal, é isso que ainda nos mantêm em diálogo. 

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EDITORIAL

Presença na fronteira que inibe o crime

Mais do que uma operação militar, a Jaguaretê reafirma um princípio básico da soberania nacional: fronteiras precisam estar sob vigilância permanente do Estado

20/07/2026 07h15

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O combate ao crime organizado nas regiões de fronteira exige mais do que ações pontuais das forças de segurança, requer presença permanente do Estado, integração entre instituições e capacidade de desestimular a atuação de organizações criminosas.

Sob esse aspecto, acerta o Exército Brasileiro ao colocar em prática a Operação Jaguaretê, coordenada pelo Comando Militar do Oeste (CMO), em Campo Grande, com atuação ao longo das fronteiras com a Argentina, o Paraguai e a Bolívia.

Como mostra reportagem publicada nesta edição, a operação mobilizará tropas e recursos próprios do Exército em ações articuladas com órgãos federais e estaduais de segurança pública.

Essa coordenação é fundamental para evitar sobreposição de esforços, ampliar o compartilhamento de informações e tornar mais eficiente o enfrentamento aos crimes transfronteiriços, especialmente o tráfico internacional de drogas.

Mato Grosso do Sul ocupa posição estratégica na geografia do crime organizado. A extensa faixa de fronteira com o Paraguai e a Bolívia transforma o Estado em uma das principais portas de entrada de drogas e mercadorias ilegais. Não por acaso, grandes apreensões realizadas nos últimos anos ocorreram na região.

Reforçar a vigilância nesses corredores significa proteger não apenas a população sul-mato-grossense, mas toda a cadeia de segurança pública do País.

Entretanto, o maior mérito da Operação Jaguaretê talvez não esteja nas apreensões que poderá realizar, mas naquilo que conseguirá evitar. Sua natureza é essencialmente dissuasória.

A presença ostensiva de tropas, patrulhas e postos de fiscalização reduz as oportunidades para a ação criminosa e aumenta a percepção de risco entre traficantes e demais organizações transnacionais.Em segurança pública, impedir que o crime aconteça é sempre mais eficiente do que combatê-lo apenas depois.

Essa lógica preventiva merece ser valorizada. O Estado demonstra sua força não apenas quando reprime o delito consumado, mas principalmente quando ocupa espaços estratégicos e dificulta a atuação de quem vive à margem da lei.

A fronteira brasileira, por sua extensão e complexidade, exige exatamente esse tipo de presença contínua e coordenada.

Mais do que uma operação militar, a Jaguaretê reafirma um princípio básico da soberania nacional: fronteiras precisam estar sob vigilância permanente do Estado.

Onde há instituições presentes, cooperação entre os órgãos públicos e monitoramento constante, o espaço para o crime organizado diminui.

O Exército Brasileiro, ao liderar esse esforço a partir de Mato Grosso do Sul, cumpre seu papel constitucional e contribui para uma política de segurança baseada na prevenção, na integração e na proteção do território nacional. Trata-se de uma iniciativa que merece reconhecimento e continuidade.

ARTIGOS

Como as canetas emagrecedoras estão transformando a economia

Os medicamentos estão provocando mudanças de comportamento que começam a repercutir em diversos setores da economia

18/07/2026 07h45

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Durante décadas, a economia foi construída sobre um pressuposto simples: quanto maior o desejo, maior o consumo. Empresas aperfeiçoaram estratégias para estimular a compra, criar recorrência e transformar impulsos em receita.

Agora, pela primeira vez, uma inovação farmacêutica começa a desafiar essa lógica em escala global.

A ascensão dos agonistas de GLP-1, classe de medicamentos que inclui Ozempic, Wegovy e Mounjaro, já ultrapassou o debate sobre emagrecimento.

Ao reduzir significativamente o chamado food noise, o ruído mental associado ao desejo constante por comida, esses medicamentos estão provocando mudanças de comportamento que começam a repercutir em diversos setores da economia.

Os números ajudam a explicar o fenômeno. Nos Estados Unidos, estudos mostram que lares com, pelo menos, um usuário de GLP-1 reduziram seus gastos com supermercado em até 8,2%, enquanto o consumo de salgadinhos e alimentos ultraprocessados caiu cerca de 11%.

Não se trata apenas da troca de um produto por outro. Em muitos casos, o impulso para consumir simplesmente diminuiu.

Os reflexos já são percebidos em diferentes mercados. A KPMG estima que a indústria de alimentos e bebidas dos Estados Unidos pode deixar de movimentar cerca de US$ 100 bilhões até 2030. Ao mesmo tempo, empresas ligadas à produção desses medicamentos registram crescimento acelerado.

A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk chegou a atingir um valor de mercado superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de seu país de origem, tornando-se um símbolo dessa transformação.

Mas, talvez, o aspecto mais relevante dessa mudança não esteja na alimentação. O que chama a atenção é a possibilidade de redução de diversos comportamentos impulsivos

Pesquisas indicam que os medicamentos também podem influenciar mecanismos de recompensa ligados ao consumo de álcool, apostas e compras compulsivas. Se essa tendência se consolidar, o impacto econômico poderá ser ainda mais amplo do que se imaginava inicialmente.

Na saúde, os resultados também começam a redesenhar projeções de longo prazo. O estudo Select, publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que a semaglutida reduz em 20% o risco de infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e mortes por causas cardiovasculares.

Já pesquisas recentes publicadas na Nature Medicine apontam associações positivas em dezenas de condições de saúde. A consequência potencial é uma redução expressiva de internações, tratamentos de alta complexidade e custos assistenciais, beneficiando tanto sistemas públicos quanto operadoras privadas.

No Brasil, a adoção dessas terapias avança rapidamente. O País já supera a média global de utilização, com cerca de 5,5% da população fazendo uso de alguma caneta emagrecedora. O mercado movimenta aproximadamente R$ 10 bilhões por ano e deve continuar crescendo nos próximos anos.

Essa transformação também cria oportunidades. Com perdas de peso que frequentemente variam entre 15% e 20% ao longo do tratamento, o setor de vestuário já observa mudanças no comportamento dos consumidores.

O banco Bernstein projeta uma injeção de até US$ 13 bilhões anuais na indústria da moda norte-americana, impulsionada pela necessidade de renovação do guarda-roupa. Algumas marcas já relatam alterações no mix de tamanhos e no perfil de consumo de seus clientes.

O segmento de bem-estar segue a mesma direção. Academias, programas de atividade física, produtos voltados à saúde e marcas esportivas tendem a se beneficiar de consumidores cada vez mais engajados na manutenção dos resultados obtidos com o tratamento.

No Brasil, o crescimento consistente das redes de academias e da moda esportiva reforça essa tendência.

Por aqui, um dos marcos mais importantes pode acontecer com o avanço dos genéricos e similares da semaglutida, após a quebra de patente. A ampliação do acesso tem potencial para acelerar ainda mais a adoção desses tratamentos, tornando seus efeitos econômicos mais visíveis e abrangentes.

O desafio para as empresas será compreender um consumidor diferente daquele que dominou as últimas décadas.

Se parte do crescimento econômico recente foi sustentada pela lógica do excesso, com mais estímulos, mais consumo e mais recorrência, a era dos GLP-1 aponta para um cenário em que a decisão de compra tende a se tornar mais seletiva e racional.

A discussão sobre esses medicamentos, portanto, vai muito além da saúde ou da estética, pois sinaliza uma mudança profunda no comportamento humano.

Se o século 20 foi marcado pela expansão do consumo, os próximos anos podem ser definidos pela capacidade de escolher melhor o que realmente merece a nossa atenção, o nosso tempo e o nosso dinheiro.

Para as empresas, o desafio deixa de ser o de estimular o desejo a qualquer custo e passa a ser construir relevância genuína.

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